Público - 4 Mar 04
PSD Recusou-se a Debater a Despenalização
Por SÃO JOSÉ ALMEIDA E NUNO SÁ LOURENÇO
O PSD manteve a sua decisão de só na próxima legislatura discutir
eventuais alterações à legislação penal sobre aborto e ontem recusou
debater, argumentar e contra-argumentar sobre este assunto, durante o
debate parlamentar em que foram discutidos e chumbados, com o voto do PSD
e do CDS, os projectos de lei que propunham a despenalização apresentados
pelo PS, pelo PCP, pelo BE e pelo PEV e as resoluções a pedir a convocação
de um novo referendo sobre este tema. A única iniciativa aprovada foi,
aliás, a resolução proposta pela maioria sobre cumprimento da lei em vigor
sobre aborto, educação sexual e apoio à maternidade.
A atitude do PSD neste debate foi oficializada pela vice-presidente da
Assembleia da República, Leonor Beleza, que subiu à tribuna para afirmar
que não ia "sequer entrar no argumentário de fundo", até porque o seu
partido não tem uma posição oficial e entende este assunto como uma
questão de consciência. Antes de passar a expor a resolução do seu
partido, reafirmou as razões porque o PSD só aceita alterar a lei com
referendo e repeti-lo após o fim desta legislatura, tese que foi depois
desenvolvido pelo líder parlamentar Guilherme Silva no debate específico
sobre consulta popular.
Foi cristalino que a estratégia da maioria para enfrentar este debate foi
o seu esvaziamento. Daí que, além do PSD ter optado por nem se pronunciar
sobre o assunto, das bancadas da maioria não saiu uma única pergunta sobre
os projectos de despenalização, acabando estes por apenas serem
apresentados pelos respectivos grupos parlamentares, sem debate, tendo o
diálogo e a réplica apenas surgido depois a propósito da resolução da
maioria.
Mas se o PSD esteve ausente do debate de fundo sobre despenalização, a
maioria esteve presente através do CDS, nomeadamente do líder parlamentar.
Telmo Correia fez questão, aliás, de se assumir como porta-voz do único
partido que apoiou oficialmente o "não" no referendo. E depois de
reafirmar os argumentos de Beleza a favor da não repetição do referendo,
incluindo o facto de ter havido uma petição assinada por quase 200 mil
cidadãos, defendeu que a lei em vigor "é um compromisso razoável".
Sublinhando o carácter "razoável" que atribui à actual lei, Telmo Correia
proclamou: "E que fique claro, não há na nossa história recente um único
caso de uma mulher, que por ter vivido o drama do aborto, tenha sido
condenada a pena de prisão. Esta é que é a verdade, o resto é uma campanha
insinuante e falsa."
Defendendo que "o direito não pode, nalguma circunstância, preceder a
vida", atacou o PS, aludindo às posições de António Guterres e de Sousa
Franco sobre aborto: "Os dirigentes do PS que nos querem rotular de
extremistas, insultando milhões de portugueses, são curiosamente do mesmo
partido que quando questionado sobre quem estará à altura de desempenhar
funções tão relevantes como encabeçar a representação socialista na
Europa, ou mesmo assumir a Presidência da República, só se lembram de
figuras que nesta matéria, ao que sabemos, pensam exactamente como nós."
E considerando que "a aprovação da liberalização seria, isso sim, um
enorme retrocesso civilizacional", Telmo Correia concluiu: "Quanto mais
sabemos sobre vida intra-uterina, mais faz sentido defendermos
convictamente o direito à vida. Fazêmo-lo, contra o politicamente e
mediaticamente correcto, que ao mesmo tempo que critica, penaliza e
criminaliza os atentados contra as focas-bébés ou ovos de avestruzes,
defende a consagração do aborto por simples exercício de vontade, sem
atender às circunstâncias excepcionais que podem levar à admissibilidade
ou à existência de circunstâncias desculpabilizantes."
Costa lembra "grandiosidade" do PSD
A resposta à maioria seria dada no final da tarde, já quando o tema
debatido era o referendo, pela voz do líder parlamentar do PS. António
Costa pediu a palavra para voltar ao tema anterior e começar por "evocar a
história" e lembrar a votação da lei actual há 20 anos. "Também então
havia uma coligação entre dois grandes partidos", referiu Costa, falando
do Bloco Central, onde o PS era a favor da despenalização e o PSD contra,
para prosseguir afirmando que "o partido maior, o PS, não cedeu e o
partido mais pequeno, o PSD, teve a grandiosidade de não inviabilizar uma
lei que a maioria queria que viesse a ser aprovada".
E acusando a maioria de "hipocrisia", concluiu, sobre as declarações do
primeiro-ministro de que é incapaz de condenar uma mulher que aborta: "A
lei penal é o último 'ratio'. Quando não somos capazes de condenar uma
mulher que recorre ao aborto não podemos criminalizar esse comportamento."
Das restantes intervenções do PS sobre despenalização - Jamila Madeira,
Sónia Fertuzinhos, Maria do Rosário Carneiro e Helena Roseta - saliente-se
o facto de Jamila Madeira ter criticado a opção do anterior líder
socialista de ter submetido a referendo a despenalização aprovada pela AR
em 1998. E também de Rosário Carneiro que, ao arrepio do PS, propôs que se
adoptasse um sistema que passasse pela suspensão do processo judicial à
mulher que aceite "participar num programa próprio".
O debate foi aberto por Odete Santos, do PCP, partido que marcara o tema.
Além de defender que o que está em causa é um problema de saúde pública
que a lei não resolve e afirmar: "se consequentemente a lei penal produz
maiores males do que aqueles que diz querer evitar, então é porque a lei
não cumpre os seus fins." E depois de explicar que não há uma posição
fechada e acabada do ponto de vista científico sobre o começo da vida,
concluiu: "Ora, constatadas as diversas opiniões sobre o início da pessoa
humana, não pode um Estado de Direito tomar parte na querela, impondo a
toda a população, as concepções filosóficas e religiosas de alguns. Isto é
característico de um Estado autoritário."
Também Isabel Castro, de "Os Verdes", considerou a actual lei "inadequada,
perversa, imoral". Enquanto Francisco Louçã, pelo Bloco de Esquerda,
acusou a maioria de defender que "a mulher não tem direito à sua
sexualidade" e que acha que, "como na inquisição, basta dizer:
condene-se". [anterior] |