Público - 4 Mar 04

Provas Têm Tido Pouca Utilidade
Por I.L.

"Provas de Aferição: O que mostram os resultados do 4º ano". Assim se chamava um dos painéis do último encontro em Caparide dedicado ao ensino do Português e organizado pelo Ministério da Educação. E a resposta de Teresa Santo Cristo, do Departamento de Educação Básica e uma das responsáveis pela elaboração do relatório sobre os testes, foi essencialmente esta: poderiam mostrar muito mas estão a servir para pouco.

"As provas de aferição fornecem alguns elementos quanto à avaliação dos alunos e ajudam a construir bancos de itens. Mas não fornecem dados sobre o desenvolvimento do currículo; não fornecem elementos significativos sobre a evolução das aprendizagens ao longo do tempo; não permitem conhecer as dificuldades dos estudantes; não contribuem para a formação de professores."

Isto tudo porque a interpretação dos resultados das provas exigiria uma "avaliação qualitativa que nunca foi efectuada", lamentou Teresa Santo Cristo, que aproveitou para lançar o repto ao ministro da Educação: "Épremente conceber um projecto de investigação complementar, de modo a obter-se mais dados."

A aparente perda de competências à medida que os alunos avançam no sistema de ensino poderá dever-se a um possível desfasamento dos programas, ao facto de se deixar de trabalhar conhecimentos já adquiridos ou simplesmente a uma alteração na construção das perguntas ou dos critérios de classificação, exemplificou.

Certo mesmo parece ser a manutenção das dificuldades dos alunos a Língua Portuguesa. "Há 20 anos, os resultados já eram assim. Vinte cinco a trinta por cento das nossas crianças entram no 2º ciclo sem saber ler. E são estes mesmo que vão abandonar a escolaridade obrigatória", sublinhou Lucília Salgado, docente da Escola Superior de Educação de Coimbra.

O estudo sobre avaliação da leitura realizado em 1991 pela International Association for the Evaluation of Educational Achievement, os resultados de literacia evidenciados no PISA (Programme for International Student Assessment) e ainda os testes de aferição serão a prova disso mesmo.

Para Lucília Salgado, parte da responsabilidade reside na "desactualização da formação inicial de professores" ou ainda "no ambiente muito burocratizado que se vive nas escolas" e que, tendencialmente, leva a que "todos tenham de ensinar da mesma maneira".

A docente critica igualmente o mecanismo de recrutamento de professores, que faz com que haja profissionais "que se fixam numa instituição só ao fim de 15 anos de profissão". "É criminoso que haja alguém que queira ficar numa escola do interior, como a da Pampilhosa da Serra, por exemplo, e o mecanismo do concurso não o permita."

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