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Público - 6 Mar 04
Prova Escrita - Falar, Legislar, Fazer
Por SANTANA CASTILHO
"Eles estão unicamente decididos a ser indecisos, resolvidos a ser irresolutos,
inamovíveis para o que se move, todo-poderosos para os que nada podem."
Churchill
A epígrafe de Churchill cola-se inexoravelmente aos que gerem o ensino.
Torrentes de palavras, de análises e de estudos. Catadupas de leis, decretos e
despachos. Ausência de resultados. Eternização dos problemas. Lembram-se do
discurso de David Justino quando estava na oposição? Clamava por iniciativas de
medição do desempenho das escolas e dos professores. Pela eficácia e
transparência dos processos e pela publicitação dos resultados.
A caminho dos três anos no poder, que tem, de concreto, para nos oferecer? Dois
anos para tornar públicos os resultados das provas de aferição realizadas pelos
alunos do ensino básico, depois de pressionado pelo deputado Augusto Santos
Silva, a cujo requerimento só respondeu seis meses mais tarde. Instituição de
exames nacionais nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática do 9º ano em
2004-2005, cujo peso na nota final ainda não decidiu. Concepção de uma lógica
para as provas de aferição que ele próprio e os técnicos que o apoiam reconhecem
ter pouca ou nenhuma utilidade. Medo ou incapacidade para definir como se mede o
desempenho dos professores e das escolas e se responsabilizam os protagonistas.
Numa palavra, uma mão cheia de nada e outra de diplomas e intenções vazias de
significado.
A propósito de um estudo que compara os resultados obtidos pelos alunos dos 4º,
6º e 9º anos de escolaridade, nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática,
relativos aos três últimos anos, recentemente vindo a público, o ministro e os
seus colaboradores disseram coisas que não podem passar sem os seguintes
comentários:
1. David Justino afirmou que "... a falta de articulação entre ciclos é um
problema que está identificado desde o final da década de 80 e que só se pode
resolver com uma reforma estrutural. Eu espero que a nova Lei de Bases da
Educação venha resolver alguns (problemas)..."
É espantosa a passividade ministerial. Vinte e quatro anos de espera e...
promessa de mais espera... pela tal reforma estrutural. Sejamos claros. O
reconhecimento de que um problema está identificado há mais de duas décadas e
continua por resolver é uma patética confissão pública de inutilidade, própria e
dos antecessores. A tal falta de articulação nada tem que ver com a estrutura.
Podemos não concordar com a estrutura e admito que para a modificar seja
necessário mudar a lei estruturante. Mas para articular os segmentos de qualquer
estrutura só é necessário saber e querer. A falta de articulação dos níveis de
escolarização, dos planos de estudo, dos programas e dos respectivos conteúdos é
a consequência óbvia de se entregar tal tarefa a uma multiplicidade de grupos "had
hoc", representativos de convicções e interesses dispersos, cujos horizontes não
ultrapassam os estreitos muros da própria quinta.
Só tem uma solução, que qualquer ministro esclarecido toma num fósforo:
substituir notáveis por profissionais, isto é, criar uma autoridade permanente
de desenvolvimento curricular que traga coerência e eficácia ao processo.
2. Qualquer analista atento identifica no discurso do ministro uma incoerência
recorrente: por um lado, afirma que os estudos estão feitos e os diagnósticos há
muito são conhecidos, mas, por outro, clama, ele próprio, por reflexão, mais
dados e mais estudos: ainda estuda o peso que os exames do 9º ano vão ter na
nota final, apesar de ter sido uma das suas primeiras decisões, ainda está em
processo de reflexão quanto à eventualidade de decidir por exames no 6º e aceita
que são precisos mais dados para dar utilidade às provas de aferição, etc., etc.
Sejamos claros, também, aqui. Na escolha de um ministro, um critério me parece
incontornável: a posse de conhecimento relevante e vasto sobre os problemas que
vai gerir. Sempre me pareceu tola a ideia de que os ministros necessitam de
tempo para se inteirarem dos "dossiers". Essa vertente operacional é para os
técnicos.
Os ministros têm de chegar ao lugar com convicções, com ideias precisas, com
doutrina estruturada. É isso que justifica, entre outros atributos,
naturalmente, que sejam escolhidos. Que dizer daqueles que, quase três anos
volvidos sobre as funções que desempenham, ainda estão em processo de reflexão
sobre matérias básicas?
3. Sempre que se mexe no tabu da medição do desempenho educacional somos
confrontados com reacções ora surpreendentes ora hilariantes, quase sempre
lamentáveis. Ministro e colaboradores especialistas, três anos depois da
concepção do instrumento de análise e da respectiva aplicação, reconhecem que as
provas têm tido pouca utilidade. Um desses colaboradores desfere o golpe de
misericórdia no processo dizendo dele que não permite conhecer as dificuldades
dos estudantes, tirar conclusões sobre a evolução das aprendizagens ou
contribuir para a modificação de processos.
Qualquer aprendiz de teoria de avaliação sabe que existem critérios de
construção dos instrumentos que permitem, no princípio, que não no fim,
acautelar a validade dos mesmos, a sua fidelidade e praticabilidade,
isentando-os de erros de medida tão grosseiros. Uma das constatações mais
evidentes das provas é a de que os resultados pioram à medida que se avança nos
anos de escolaridade e nos anos de aplicação, isto é, as provas de 2003 são
piores que as de 2002 e estas piores que as de 2001 e os alunos do 9º ano
demonstram regressão relativamente aos do 6º, que, por sua vez, têm resultados
inferiores aos do 4º.
Os níveis zero de desempenho têm aumentado exponencialmente, de ano para ano. As
percentagens de ausência de resposta ou de nota zero chegam aos 70 por cento
nalguns casos. De cavalo para burro? Talvez não! Puxem pela última réstia de bom
senso. No quadro de desresponsabilização vigente, por que deverão os alunos
esforçar-se por responder, logo que começaram a entender que as provas não
"contam para a nota" e nem sequer os identificam?
Quanto custou mais esta "experiência pedagógica"?
Onde estão os responsáveis pelo processo? Saíram de cena envergonhados?
Professor do ensino superior
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