Público - 7 Mar 04

A Expansão das Casas Pequenas Numa Cidade Grande
Por CATARINA SERRA LOPES

Lisboa está a tornar-se cada vez mais uma cidade de casas pequeninas. Depois dos antigos apartamentos de múltiplas assoalhadas, próprios para albergar famílias em crescimento, a cidade vive agora a expansão dos T0 e T1's, espelho de uma sociedade que a cada dia que passa cresce mais sozinha.

As novas tendências são bem claras: para lá das casas tradicionais, com vários quartos, uma sala ampla, duas casas-de-banho, marquises e "halls", hoje em dia no centro de Lisboa é cada vez maior a oferta de pequenos apartamentos de um só quarto, uma "kitchenette" e uma casa-de-banho. Privilegia-se o conforto, os recantos acolhedores, a centralidade. Troca-se mais uma assoalhada por uma bonita vista sobre o rio, prescinde-se de mais 20 metros quadrados numa sala por um lugar de garagem.

A verdade é que em Lisboa, num reflexo tanto do resto do país, como de muitos outros mundos, vive-se cada vez mais sozinho e os espaços diminuem cada vez mais. Os números não escondem os cerca de 400 mil celibatários que existem em Portugal. O casamento chega cada vez mais tarde, a independência económica feminina é um dado já adquirido, os divórcios continuam a subir em flecha, a média de filhos por mulher não ultrapassa 1,5.

Quem o diz é Sofia Abecassis, socióloga e partidária da teoria que Portugal está cada vez mais a seguir o exemplo dos países nórdicos. "Hoje em dia os portugueses apostam muito mais na carreira do que propriamente no casamento e nos filhos. Antes só saiam de casa dos pais para casar, hoje saiem de casa para viver sozinhos pois o casamento só chega muito mais tarde e o divórcio mais cedo. E se é para viver sozinho, quem é que precisa de uma casa grande?"

Na verdade qual é a necessidade de se ter uma casa grande se só se precisa de um quarto para dormir, talvez uma sala, uma cozinha? O espaço de cada um não se restringe às quatro paredes, a vida hoje em dia é muito mais do que isso, o mundo vibra lá fora, as escolhas são múltiplas, as opções variadas. Enquanto as distracções são cada vez mais, os empregos também roubam muito do tempo antigamente confinado ao lar. Chega-se tarde a casa, janta-se qualquer coisa, sai-se à noite, vai-se ao cinema, dorme-se pouco, vai-se trabalhar cedo.

Uma nova maneira de estar na vida a que o mercado imobiliário não tem fechado os olhos. O Grupo Amorim, por exemplo, está desde o mês de Julho a vender 74 estúdios bem no centro de Lisboa. Um grande palacete, reconstruído de raiz, onde cada apartamento tem em média 40 metros quadrados divididos num quarto/sala, "kitchenette", casa-de-banho e varanda. Como bónus, um lugar de garagem por apartamento, por preços totais que vão dos 150 mil euros aos 300 mil.

Apesar dos preços não serem propriamente módicos, a vendedora imobiliária Fátima Proença, garante que 90 por cento destes T0 já estão vendidos. Um caso de sucesso absoluto que leva a que novos projectos estejam já prestes a ser lançados no mercado, tanto em Lisboa - na zona do Parque das Nações e da Estrada da Luz -, como, por exemplo, na Covilhã, no Porto e em Coimbra.

"Existem cada vez mais pessoas a viver sozinhas e, como tal, a procura tem sido enorme. Principalmente por parte de estudantes, jovens à procura da primeira casa, médicos, arquitectos, engenheiros, classe-média e média alta em geral", explica Fátima Proença. Quanto à idade do típico comprador de apartamentos desta tipologia, a vendedora imobiliária sublinha que, "embora a grande maioria se situe numa faixa etária entre os 25 e os 40 anos, também existem muitas pessoas idosas que, pelo facto de terem ficado viúvas, ou por simplesmente já não terem os filhos a viver com elas, preferem mudar-se para uma casa mais pequena que não dá tanto trabalho a limpar e arrumar."

Em comum, estas pessoas têm no entanto o facto de "gostarem de viver no centro da cidade, perto de tudo, com transportes à porta e a um passo do Chiado, do rio, das zonas principais", acrescenta a vendedora. Para lá destas características comuns, "existe ainda mais um pormenor que é inerente a quase todos os compradores de casas pequenas que é o facto de serem mulheres", confidencia Fátima Proença.

Um dado que não é de todo despropositado se se tiver em conta que num total de 199 961 divorciados, 130 603 são mulheres. Ou seja, por cada 100 pessoas separadas ou divorciadas, 64 são mulheres e 36 são homens. Números que, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), se devem ao facto de existir uma maior esperança de vida para as mulheres e pela tendência que os homens têm de voltar a casar em menor espaço de tempo.

Quanto ao número de pessoas que vivem sós, os valores do INE são também bastante significativos: as famílias unipessoais foram as que registaram maior variação entre 1991 e 2001, apresentando um crescimento de 44,9 por cento. Sendo que 65 por cento das pessoas que vivem sozinhas são mulheres.

Será esta uma tendência em crescimento? Estaremos destinados a viver cada vez mais em espaços individuais, confinados à nossa própria existência, longe dos padrões convencionais de família, contribuindo para uma sociedade envelhecida e individualista? Ou serão estes períodos de transição para uma outra forma de estar? Nem pior, nem melhor, mas apenas diferente.

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"A casa podia ser só uma cama e um 'home cinema'"

"Uma casa maior? Não obrigada, esta é mínima e está sempre desarrumada, então se fosse maior não sei como estaria", confessa Carlos Lima Monteiro, 34 anos, orgulhoso proprietário de um T0 no Príncipe Real, bem no centro de Lisboa.

Jovem gestor, solteiro, "semi-descomprometido", simpático, divertido, "com um bocadinho de aversão a casamentos e afins", Carlos ficou felicíssimo quando encontrou uma casa à sua medida. Isto é, uma casa onde praticamente só cabe uma cama pois esta é no fundo, segundo afirma, a sua utilidade máxima. "A casa podia ser só uma cama e um 'home cinema' pois eu só lá durmo e vejo televisão", diz sem rodeios.

"Mas queriam o quê? Que eu depois de um dia de trabalho, chegasse a casa às onze da noite e me fosse pôr a fazer um cozido à portuguesa só para mim?", questiona de olhos muito abertos. "Quando chego a casa, quero é dormir e quando não estou a dormir a última coisa que quero, é estar metido em casa", confessa, despachado.

Para Carlos, a vida está tão longe de se resumir a uma casa que só saiu do aconchego do lar paterno por imposição. Lá foi ficando, vendo o tempo passar, "cama, roupa lavada, comidinha da mamã, uma maravilha", até que um dia acordou com uma voz que o chamava para a realidade. "Disseram que gostavam muito de mim mas que achavam que eu com trinta anos já estava em boa idade de comprar a minha casinha, aprender a fazer as minhas coisas e pronto, lá me tive que pôr a andar", conta sem grandes enredos. "Ao princípio fiquei um bocado chateado, não me estava a ver a comprar uma casa e a começar a passar os dias metido em lojas de decoração à procura de mobílias, por isso este apartamento foi mesmo um achado."

Um achado que se resume a 40 metros quadrados, quarto e sala conjunta, casa-de-banho, kitchenette e garagem, "tudo o que um homem precisa", sublinha. "Quanto mais coisas, mais trabalho dá. A palavra de ordem hoje em dia é simplificar, caso contrário damos em doidos e doidos já somos todos um pouco", remata com uma gargalhada.

C.S.L.
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"Já meti 32 pessoas nestes 49 metros quadrados"
Maria tem 33 anos, uma empresa de marketing relacional, um apartamento de brincar e um sorriso que parece querer abraçar o mundo. Num jeito rápido, com gestos largos e sem meias-tintas, desenrola em poucos minutos uma história de uma vida e de uma casa. Em pinceladas largas, com sonoras gargalhadas a rematar cada frase, conta a história de uma juventude vivida ao segundo, de um casamento tão rápido quanto apaixonado e de um divórcio tão repentino quanto sofrido.

Para curar mágoas e apagar passados, pôs-se de imediato à procura de uma casa como quem procura a vida e por paixão foi atrás de um sonho. Assim, de repente, 49 metros quadrados de madeiras, focos de luz, uma cozinha mínima onde tudo encaixa, recantos pensados ao pormenor, uma "mezzanine" de contos de fadas. "Foi amor à primeira vista, comprei-a no mesmo dia em que a vim ver. Estive para aqui uma hora com o dono e quando sai, já me sentia cá dentro, foi instantâneo", recorda com um olhar de miúda.

"Nunca tinha tido uma casa só minha, mesmo durante o casamento vivi com o meu marido em casa dos meus pais à espera que a nossa casa estivesse pronta. Quando finalmente me vi num canto só meu nem queria acreditar, ainda por cima em Campo de Ourique, onde sempre quis viver", confessa radiante.

Para Maria, o tamanho da casa nunca foi muito importante. Aliás, talvez fosse importante se fosse uma casa grande "pois tinha que gastar muito mais dinheiro a mobilá-la e, obviamente, que não poderia comprar coisas tão boas como as que comprei."

Em pouco espaço, raciona-se as tentações, compra-se simplesmente o que faz falta, não se armazena lixo, não se guarda coisas desnecessárias e pode-se gastar muito mais dinheiro na decoração, é a teoria defendida por esta empresária para quem uma casa pequena pode ter tantas vantagens como até afastar quem está a mais. "Como o espaço é mínimo só caibo cá mesmo eu e os meus amigos, duas pessoas a viver aqui só com muito boa vontade", confessa, com uma gargalhada.

Mas para os amigos, para os que lhe chegam ao coração, para esses a porta da rua está aberta de par em par. "Já meti 32 pessoas nestes 49 metros quadrados", revela com orgulho. "Foi logo na festa de inauguração da casa, havia pessoas que já entravam e saiam pela janela. Depois disso, ainda houve festa da inauguração da casa-de-banho, festa de inauguração das cadeiras, festa de inauguração da máquina de lavar loiça...", vai enumerando num rol sem fim.

E depois de todas as festas, será que Maria pensa mudar para uma casa maior?
"Não", responde de imediato.

"Quero um dia mudar de casa, mas só porque quero uma com piscina, mas pode ser do mesmo tamanho que esta que está óptimo", afirma. Mesmo assim, "vou ficar sempre com este apartamento, não vou vendê-lo mesmo quando arranjar outra." "Podem ser apenas 49 metros quadrados mas são a minha casa, o meu espaço, o sítio onde eu sou feliz", acrescenta.

C.S.L.
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"Numa casa pequena também a solidão parece menor"
"Já nem sei como é que surgiu a ideia de vir viver para um T1, mas que foi o melhor que me aconteceu, isso foi", confessa Amélia Oliveira, 78 anos, mãe de quatro filhos, avó de dez netos.

Depois de cinquenta anos a viver num casarão de sete assoalhadas numa zona antiga de Lisboa, há três anos resolveu fazer as malas e trocar as paredes de uma vida por cinquenta metros quadrados à beira-rio. "Para poder abrir as janelas e receber o sol, para olhar os barquinhos lá longe", explica de sorriso aberto, enquanto se apressa a elucidar as mentes mais complexas que "mudar de uma casa grande para um pequeno apartamento não é sinal de senilidade, mas sim de juventude."

Uma juventude que Amélia, de cabelos brancos e olhos de um azul água, não quis passar o resto da vida a recordar num casa velha cheia de memórias. Quadros, fotografias, recantos com donos próprios, corredores com vozes de antigamente. "Viver é uma tristeza se deixamos de viver o presente para estarmos só a viver o passado", afiança, em jeito de avó.

"Quando o meu marido morreu, dei por mim a viver na nossa casa, enfiada num cadeirão perdida em recordações. Tudo ali me lembrava a nossa vida, os nossos tempos de juventude, recém-casados, o nascimento dos filhos, o passar dos anos, os Natais... Meu Deus, que tristeza, estava a ficar cada vez mais deprimida", conta Maria Amélia, com uma sombra no olhar.

"Um dia voltei-me para mim própria e disse: Basta!. Não fui feita para sofrer, se Deus quisesse que eu tivesse morrido também, ter-me-ia levado. Se é para viver, então é para viver bem, com um sorriso." E assim foi. Maria Amélia informou os filhos que queria ir à procura da felicidade e que para isso era imperioso mudar de casa.

"Que jeito tinha continuar a viver sozinha numa casa onde já tínhamos vivido seis pessoas? Era só para passar o dia a andar pelos quartos vazios e a sentir-me cada vez mais só. Além disso, alguém imagina o trabalho que dá a uma pessoa da minha idade arrumar e limpar uma casa gigante?".

Ao principio os filhos foram contra. "Estavam ainda mais presos às recordações do que eu e não queriam que eu me desfizesse de nada." Mas quem tem força, tem força . "Eu é que sou mãe deles por isso quem dá ordens sou eu." A mudança foi feita logo em dois meses. "Fui sozinha procurar casa, sentia-me uma miúda de vinte anos em começo de vida, foi engraçado", relembra com um sorriso gaiato.

Depois foi amor à primeira vista. Um pequeno apartamento com um quarto e uma sala, uma vista estonteante, desde a Barra até ao Bugio. "Um bocadito caro - 200 mil euros - mas com a minha idade já me posso dar a luxos, não é verdade?"

E a verdade é que naquele seu cantinho novo, Maria Amélia voltou a sorrir. Deitou fora as coisas velhas, decorou a casa de novo, comprou coisas mais modernas, mais leves, menos pesadas e, principalmente, pouca coisa, "para não andar para aí a tropeçar em entulho." "Qualquer dia estou com as pernas todas bambas e tenho é que pensar que tenho que ter poucos obstáculos dentro de casa", afirma sem pudor.

Ao fim de três anos, até os filhos já estão convencidos que a mudança foi para melhor e os netos, esses, "querem cá estar sempre pois acham que isto é uma casinha de bonecas." "Quanto a mim estou feliz, tenho o meu espaço, pequenino como deve ser nesta idade, pois aprendi que numa casa pequena também a solidão parece menor", remata.

CSL

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