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Público - 8 Mar 04
E o Talento
Por FERNANDO ILHARCO
Um dos aspectos marcantes das sociedades contemporâneas mais desenvolvidas
é a fuga a um pensamento radicalmente livre, o qual, diz-nos não apenas a
história mas nós mesmos, em escassos ou tantos momentos conformes ao mundo
e aos significados em que cada um de nós vive o seu tempo e se projecta
nas possibilidades que tem para ser, é o que essencialmente cada um de
nós, homens, é. Hoje, nos alicerces da chamada sociedade da informação, do
conhecimento ou da tecnologia, corre um imenso processo que tudo toca e
que tudo lança numa corrida constante em que os meios, o dinheiro nomeada
e principalmente, é tomado como um fim. Desse modo, a vida, como fim, como
o fim, é tomada como um meio. Pensando meios como fins, ou seja, actuando
com base no que organiza e no que facilita, tomamos como bom o que os
outros tomam como bom e tendemos a questionar coisa nenhuma, excepto os
desalinhamentos de outros com a grande pequena feira das vaidades que
desfila nos media globais. Conhecimento é ajustamento ao que corre como
corre. E o talento?
É neste quadro, ou também neste quadro, que a revolução da informação,
como revolução que genuinamente é, só agora começa a ganhar alguma atenção
em Portugal. Aquela, respeita a uma vaga de inovação, genuinamente
diferente das que a precederam, desde as finanças, aos serviços e à
indústria. Na revolução que hoje toca a vida pessoal, familiar,
profissional e social, o conhecimento é central, decisivo, vital. Mas o
talento também. Em termos rigorosos, e não apenas metafóricos, sempre
assim foi. Nas actividades humanas, o conhecimento sempre foi o
anti-recurso por excelência. Em todas as sociedades, um certo tipo e grau
de conhecimento determinou as formas como foi possível combinar, utilizar,
explorar, manipular todos os outros bens, dádivas, condições, ou, como há
cerca de 300 anos, com a revolução tecnológica, começaram a ser
entendidos, recursos. Recursos, hoje como ontem, obviamente para qualquer
outra coisa, evento, processo, objectivo ou desejo, que nos guiava e nos
guia. A forma como os recursos são combinados - os recursos financeiros,
as matérias-primas, os equipamentos, o espaço, as patentes, as tecnologias
e, estranhamente, até as próprias pessoas transformadas em recursos,
recursos humanos - depende da forma como é gerado, desenvolvido, absorvido
e colocado em acção o conhecimento. Em principio é assim, mas não só. O
talento, em todas as épocas, permite aos homens um vislumbre do seu
próprio destino. No talento, talvez mais do que em qualquer outra faceta
mundana, o homem toca as fronteiras da perfeição.
Mais do que pelo eventual carácter verdadeiro, certo ou correcto da sua
natureza, a relevância do conhecimento tem sido basicamente determinada
pela capacidade de possibilitar a diminuição das quantidades de todos os
recursos necessários para atingir os mesmos ou melhores objectivos. Quanto
melhor e mais sofisticado é o conhecimento em determinada área, menos
recursos, digamos, tradicionais, são necessários para gerar o que se
pretende. No limite, no final deste percurso tecnológico, está,
obviamente, uma utopia: tudo, o que quer que seja, dos recursos mais
iniciais ao produto final, instantaneamente, ao mais baixo custo e com a
mais alta qualidade. Isto no domínio mais terreno da sociedade
organizacional e tecnológica, porque num plano mais fundo, em termos da
modelação do próprio destino de uma humanidade que se tem a si mesma para
ser, o conhecimento que somos, na sua ligação tímida, mil vezes tentada e
sempre por esclarecer, à problemática da informação, tem vindo a explorar
a tese de que a informacionalização do mundo, da ciência, da sociedade, do
homem, pode um dia equivaler ao conhecimento de tudo, e, por isso, com
total conhecimento de qualquer nada se possa fazer qualquer tudo.
Este desafio, percurso simples da intencionalidade de biliões de acções
diariamente, assenta principal e fundamentalmente na apenas possível, mas
geralmente assumida como certa, relação linear entre o conhecimento e a
informação, factual, objectiva e amplamente distribuída. Sendo certo que
esse entendimento tem sido útil, não é menos certo que a inovação, a
originalidade, o sucesso e a diferença sempre estiveram ligados à
descontinuidade, à excepcionalidade e ao talento. É sobretudo este último
aspecto, para o qual de alguma forma aponta os outros dois, que tem sido
mais esquecido nos caminhos da acção e da teorização actuais. O
conhecimento e a sofisticação tecnológica pouco servem quando confrontados
com o talento. Em qualquer actividade, o talento, aquele toque raro, de
brilho, que só alguns transportam, reduz o esforço dos melhores a uma
corriqueira normalidade. Aliás, uma cultura do talento, o que, nestes de
tempos de massificação, é tanto mais difícil de cultivar quanto menos
"democrática", à partida, parece ser a distribuição do talento, é por
ventura o cerne do próprio desafio de uma sociedade do conhecimento. Isto,
porque no mais fundo, o talento é mais excepcional manifestação do
ajustamento humano à perfeição de tudo o que é.
Mas aqui e ali, de vez em quando, timidamente, a própria expressão "knowledge
worker" tem sido substituída por "talent worker". Qual a relação entre o
talento e conhecimento? Se calhar, nenhuma. O talento parece ser algo que
sempre já lá esteve, de inato, ou nem sequer isso, apenas algo de súbito,
que se manifesta de uma tal forma simples e exagerada que se perde a noção
de qualquer tipo de relação entre o esforço e o resultado. Quanto ao
conhecimento, sendo certo que pelo menos uma boa parte dele é
transparente, tácito, só visível em acção e por isso algo desconhecido de
nós próprios, parece poder ser marcado por alguma linearidade. O esforço,
o estudo, o trabalho, a prática, tudo isso influencia a forma como o
conhecimento se cimenta, como base que é, como cimento, pedra de onde vem.
A forma precisa, singular, dessa sedimentação, no entanto, a sua forma
exacta e individual, deve contudo depender de algo prévio a esse processo,
isto é, deve depender do talento. Por isso como despertar, libertar o
talento?
Numa época em que o politicamente correcto tudo tende a censurar, visando
tudo igualar e todos homogeneizar, vê-se mal como poder colocar-se no
centro do debate, para não dizer no que realmente conta, no modo de fazer
as coisas, o incentivo e a promoção do talento, ou seja, o deixar ser e
desenvolver do talento individual. Em termos históricos, tanto quanto o
conhecimento de hoje nos diz, na Grécia e Roma antigas, o talento era uma
medida de peso. Com as trocas de metais preciosos, avaliadas por aquela
media, o talento tornou-se uma unidade monetária. Talento, há muito, era
dinheiro. E talvez hoje se esteja a fechar o circulo, e o talento esteja
de novo pular o conhecimento, porque no fundo sempre foi isso que fez.
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