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Público - 8 Mar 04
O Dinheiro e Os Vícios
Por POR LUÍS SALGADO DE MATOS
Segundo o nosso Programa de Estabilidade e Crescimento para 2003-2007, em
2010 teremos que aumentar os impostos em cerca de um quarto para evitarmos
que o nosso Estado Social abra falência. Como um tal aumento não terá base
política, o nosso modelo social está condenado.
Quem o demostra é o Dr. Medina Carreira, num estudo publicado a semana
passa no Diário Económico. O fiscalista, que à política económica tantos
serviços tem prestado, desafia «os mais altos responsáveis políticos» a
apresentarem-nos um modelo viável.
Nas últimas décadas, o crescimento da riqueza desacelerou em Portugal ao
mesmo tempo que o Estado tem um papel cada vez maior: já lhe passa pelas
mãos quase metade do Produto Interno Bruto (PIB), designação técnica da
riqueza que produzimos.
O aumento das despesas públicas traduziu a necessidade de aumentarmos a
dimensão social do Estado que, a 25 de Abril de 1974, era fraca e estava
bastante abaixo da média europeia. Subiu o número de funcionários públicos
que ensinam e prestam cuidados de saúde. Cresceu também o valor das
pensões de reforma e de aposentação. Os empregados do Estado conseguiram
aumentos de ordenados sem relação com a produtividade. O mesmo aconteceu
com empregados permanentes das empresas privadas.
O acréscimo da riqueza que produzimos é cada vez menor. Ao mesmo tempo,
redistribuímos cada dia mais riqueza. Esta redistribuição é feita pelo
Estado que não conseguirá cobrar os impostos necessários para os
subsídios. Mais ano menos ano, o Estado cessará pagamentos.
Há a este respeito uma enorme irresponsabilidade. A recente desaceleração
económica tem sido apresentada como uma hecatombe. Quando repararmos que a
riqueza clandestina aumentou, chegaremos à conclusão que não houve crise.
Mas o discurso da crise venceu - e venceu porque não há um modelo social
alternativo.
A irresponsabilidade portuguesa é mais chocante no caso dos partidos e
sindicatos que dizem defender os trabalhadores por conta de outrem e os
reformados. Estes grupos serão os mais prejudicados se o Estado português
falir. Gestores de empresas e quadros qualificados emigrarão para o
Brasil. Assistentes administrativos e pensionistas não têm mobilidade e
passarão fome.
Nos últimos anos adquirimos os hábitos dos ricos e conservámos os recursos
dos pobres. Ganhámos vícios sociais demasiado caros para a nossa bolsa.
Símbolo deste desequilíbrio é o aumento paralelo do desemprego e da
imigração: os nossos desempregados acham que os postos de trabalho
disponíveis estão abaixo deles.
O problema financeiro não é só dos assalariados. O Estado de Direito
resistirá à cessação de pagamentos? O leitor terá vantagem em recordar que
a Monarquia, no 5 de Outubro de 1910, e a 1ª República, no 28 de Maio de
1926, sucumbiram ambas à crise financeira.
Temos de mudar de rumo enquanto é tempo. [anterior] |