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Público - 8 Mar 04
Neo-feminismo Precisa-se!
Por GRAÇA FRANCO
Mulherzinhas... lembram-se deste título na literatura da adolescência? Não
li. "Falta de cultura geral!" dirá a minha irmã mais velha se me ler.
Admito a falta. Mas o título sempre me irritou... sempre antevi que por
ali haveriam de passar uma série de temáticas de que andava arredada.
Coisas de "mulherzinhas" que se refugiam em desgostos de amor, trapos e
bolos. Nos últimos anos o tema "das empregadas" foi felizmente eliminado
pela acção conjugada dos baixos ordenados e da escassez da mão de obra,
para sossego e higiene do género.
Lembrei-me disto porque, passados não sei quantos anos de iniciado o
abençoado processo de emancipação, é esse o estatuto que globalmente
continuamos a ter na nossa sociedade... mulherzinhas! Basta olhar o
auditório do convento do Beato na apresentação do Compromisso Portugal
para ver como estamos, também nesta matéria, a milhas dos nossos parceiros
comunitários. A fina flor dos executivos modernos apresentou-se em peso no
género masculino. Sofia Galvão foi a única oradora em todos os painéis
para uma assembleia de cinzentões e cinzentinhos (os escassos sub-quarenta).
Se a capacidade de inovação se avaliasse pela de se vestir de forma
minimamente diferente, o desastre seria total.
Um batalhão de meninas "dos serviços de apoio" e uma boa dezena de
jornalistas (profissão onde as mulheres claramente dominam!) eram quase em
exclusivo as presenças femininas na sala. Notou-o, já no final dos
trabalhos e para lamentar esse facto, uma das poucas participantes do
encontro. Ficaram assim de fora 55,4 por cento dos quadros superiores
nacionais, com destaque para quase 67 por cento dos licenciados em
ciências, 74 dos licenciados em matemática e estatística e 54 dos
licenciados em administração e técnicas comerciais ( Expresso do último
sábado).
Os numerus clausus ao seleccionarem pela nota a entrada nas faculdades
permitiram um autêntico assalto feminino aos cursos de cariz técnico
científico - os que mais falta nos fazem - e acabaram por garantir a nossa
total supremacia nessas áreas. As universidades estão cheias de mulheres,
da medicina à astro-física, sem esquecer a matemática. Mas ficam-se por
lá... na direcção das empresas, nos partidos, nos sindicatos, nas
estruturas do poder continuam a dominar os homens. É certo que quem
dominar essas áreas de saber dominará a prazo o futuro mas, vamos ter de
continuar a esperar...
E querem saber o que isso nos custa em termos de decisão política?
Deixo-vos um exemplo. Na última sondagem RR-Expresso-SIC foi perguntado ao
eleitorado como avaliavam a actuação dos ministros e, as notas negativas
foram para: Celeste Cardona, Graça Carvalho, Manuela Ferreira Leite (três
mulheres dadas como as piores e que não escapam à avaliação das suas
pares) seguindo-se, Luís Felipe Pereira, Carmona Rodrigues, Figueiredo
Lopes e Paulo Portas. As opiniões dos homens eram contudo bastante
diferentes das mulheres. As mulheres davam também nota negativa a Sevinate
Pinto, Pedro Roseta e Bagão Félix. Em contrapartida os homens chumbam,
ainda que marginalmente, o ministro da Educação a que as mulheres concedem
saldo positivo. Como serão os homens a decidir, de facto, qualquer
remodelação... está tudo dito!
E porque estamos aqui? Culpa nossa. Durante anos refugiadas num discurso
tontinho de igualdade quando era de diferença, de genuíno direito à
diferença, que deveríamos ter falado. Porque igualdade não é tratar como
igual o que é diferente mas, exactamente o contrário!
Ter o direito à igualdade não é poder trabalhar oito horas como qualquer
um dos nossos companheiros e mais quatro em casa para cuidar da casa, da
comida, das crianças, das roupas e do descanso "deles". Toda aquela série
de coisas que feitas profissionalmente podem ser desempenhados por
cozinheiros, empregados de copa e mesa, costureiros, engomadeiras, baby
sitters e afins...
O facto é que nós próprias estamos tão pouco convencidas da justeza da
causa que, somos as primeiras a rotular como " umas pobres a viverem às
custas do marido... sem fazer nenhum!" outras mulheres que começam a
trabalhar às sete e acabam à meia-noite, sem direito a folgas, ou feriados
e, para cúmulo, sem direito a salário, ao reconhecimento social do seu
trabalho, ou às alegrias de uma carreira profissional. Apenas porque fazem
tudo isso, dentro de portas.
Enquanto estivermos convencidas disto, a guerra está perdida.
Continuaremos a anos luz do que se passa na Suécia ou na Finlândia onde o
poder efectivo é hoje partilhado por homens e mulheres, em verdadeira
igualdade. Mas, precisamente para que isso se torne possível elas gozam de
um sem número de direitos acrescidos que, por cá, soariam à chamada
discriminação positiva. Porque, uma coisa é o direito a poder escolher a
actividade que queremos exercer (e esse direito _ nunca é demais
agradecê-lo às nossas mães e avós - está firmemente conquistado), outra
coisa é fingir poder-se escolher o que, em rigor, por falta de condições
económicas, apoios à maternidade, legislação permitindo uma efectiva
igualdade de progressão na carreira nos é, absolutamente imposto. Ou seja,
o duplo ou triplo emprego por toda a vida!
Mas, para mudar este tipo de coisas urge agora, de novo, uma revolução
feminista. O chamado neo feminismo que, tal como os neo-liberais ou os
neo-conservadores, proponha uma coisa substancialmente diferente da
corrente filosófica original. Essa, a do feminismo histórico, teve o
mérito de nos trazer até aqui (e não foi nada pouco!) pelo que, não só não
convêm rejeitar como é bonito preservar, embora remetendo-a discretamente
para a gaveta. Quando surge no léxico social um "neo", é sabido, os
originais reduzem-se naturalmente à categoria de bonzões ultrapassados.
No caso do feminismo, por exemplo, ficariam nessa categoria algumas das
Crónicas Femininas da Inês Pedrosa por quem nutro pessoalmente a maior
simpatia mas, confesso terem, de vez em quando, o condão de me irritar
pelo seu excesso pretensamente feminista. São textos magníficos do ponto
de vista literário mas, convenhamos, um pedacinho démodées do ponto de
vista dos conceitos. Vide a carta aberta escrita à filha neste último
sábado, a pretexto do dia de hoje (Dia internacional da mulher), onde
repega o estafado discurso pró-aborto da geração de sessenta pouco
familiarizada com os progressos da contracepção.
Fala da morte de uma mulher em Março de 68 " porque não queria ter mais
filhos". Vítima da proibição do aborto em França a que chama "proibição da
operação cirúrgica (já então relativamente simples) de tirar a semente de
um filho da barriga de uma mulher". Esta imagem poética da semente não
fica muito aquém da cegonha em matéria de educação sexual.
É bom lembrar à criança que as verdadeiras sementes, não fecundadas,
desfeitas ao ritmo mensal, as mulheres não podem de facto evitar ... mas
elas não são filhos. Filhos não são coisa imposta à mulher. Não nascem nas
nossas barrigas por obra e graça do acaso. E as mulheres que não querem
ter mais filhos têm hoje um sem número de maneiras de responsavelmente os
evitar. O aborto não é, nem pode ser apresentado como mais um método
anti-conceptivo.
Aliás, a tal "semente de filho" pode não ser querida, mas é exactamente
igual à semente que amigos e familiares, transformados em pais babados,
chegados de uma primeira ou segunda ecografia, mostram enlevados, como "a
primeira foto do bebé dentro da barriga da mãe"! [anterior] |