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Público - 8 Mar 04
Entre Leis e Sugestões
Recentemente, o nosso Presidente da República, Jorge Sampaio, fez uma
afirmação que passou mas não despertou as devidas atenções: "Não se pode
ter a ideia de que as leis são sugestões, umas vezes são para cumprir,
outras não."
Chega-se ao extremo de se respeitar as leis e sermos gozados ou
desaprovados. Por exemplo, por ter parado num sinal de Stop, fui alvo de
buzinadelas do carro que me seguia!
Não são raros os exemplos de pessoas que se gabam por ter feito esta ou
aquela tropelia à margem da lei, mas, como se isto só por si já não fosse
alarmante, estes indivíduos em vez de reprovados são idolatrados e tidos
como pessoas de respeito. Esta atitude só vai prejudicar ainda mais a
sociedade em geral, porque serve como incentivo.
Ora, para mentalidades como esta, o nosso sistema judicial não precisa de
ser o mais avançado do mundo, mas de ser respeitado e não atropelado. O
próprio Estado, por exemplo, quando os seus funcionários interpretam a
legislação vigente de modo a não serem multuados por estacionamento
indevido ou quando não procede à liquidação das facturas dos seus
fornecedores, mas exige o atempado pagamento dos impostos.
Fugir e fintar a legislação é encarado como desporto nacional e pouco se
faz por forma a garantir o seu cumprimento... Até agora ainda estão para
demonstrar os benefícios de se ter um elevado grau de legislação, quando
esta é encarada como mera sugestão, e não há meios que transformem estas
sugestões em imperativos a seguir.
E os anos que passam para a resolução dum contencioso em tribunal? De
pouco serve ter legislação se depois a justiça tarda em chegar.
É proibido sujar a via pública... mas todos os dias vemos donos cuidadosos
a levar os seus animais de estimação para a rua, para estes fazerem as
suas necessidades...
É a falta de respeito ao mais alto nível pelas leis que regem o nosso
país, a começar no Estado e a acabar no canto mais recôndito de Portugal.
João Futscher
Lisboa [anterior] |