Público - 8 Mar 04

Portuguesas Adiam Maternidade e Têm Salários Mais Baixos
Por ANA CRISTINA PEREIRA

Em certos aspectos, a igualdade entre sexos permanece uma miragem em Portugal. Nos anos mais recentes, a população activa feminina cresceu, mas as mulheres ainda auferem de salários mais baixos, revela o último boletim informativo do Instituto Nacional de Estatística (INE). Muito por força das obrigações profissionais, a maternidade adia-se até perto dos 30 anos.

Longe parecem ir os tempos em que as portuguesas se realizavam pelo casamento e pela maternidade. "Portugal é, actualmente, um país de baixa natalidade e de baixa fecundidade", pode ler-se na breve análise de indicadores demográficos com que o INE se associa à celebração do Dia Internacional da Mulher, que hoje se comemora.

A tendência não é nova. A taxa de natalidade está em decrescendo desde os anos 60 - década marcada pelo invento da pílula contraceptiva. Em 2002, o índice sintético de fecundidade era inferior ao necessário para assegurar a substituição geracional (1,47 crianças por mulher), o que terá fortes implicações económicas e sociais.

Será por causa do aumento da frequência escolar e da entrada no mercado laboral que as mulheres tendem a adiar e a reduzir a maternidade. Em 2002, o nascimento do primeiro filho ocorria aos 27 anos. Atendendo às - cada vez mais frequentes - mulheres que só têm uma criança, a idade média subia para os 29 anos.

Em termos laborais, os dados do INE dão conta de uma evolução positiva. A distância entre sexos ainda existe, mas tem vindo a atenuar-se na última década: o diferencial na taxa de actividade (diferença entre a percentagem de homens e de mulheres que trabalham), que era de 15,3 pontos percentuais em 1993, ficava-se pelos 11,5 em 2003. Há cerca de 2,3 milhões de mulheres a exercer uma actividade económica (o que representa um crescimento de sete por cento face a 1998).

Apesar do caminho trilhado no sentido de uma sociedade mais igualitária, a taxa de desemprego permanece mais elevada entre as portuguesas - 183 mil mulheres para 162 mil homens. E os portugueses continuam a ter salários mais altos. No ano passado, o salário médio das mulheres empregadas era de 577 euros. Na mesma altura, os homens recebiam, em média, 687 euros.

A diferenças de género observam-se também no tipo de profissão. O ano passado, a maior parte das mulheres empregadas integrava a área de "pessoal dos serviços e vendedores"( 20,2 por cento). Os homens continuam mais apostados em ser "operários, artífices e trabalhadores similares" (29,1 por cento).

Envelhecimento da população

Há, todavia, indicadores demográficos favoráveis ao sexo feminino. Por enquanto, ainda há mais mulheres do que homens - 5,4 milhões a representar 51,7 por cento da população residente em Portugal. Mas a diferença tem vindo a diminuir, "devido ao aumento sucessivo de homens estrangeiros a residir em Portugal".

A população europeia está a envelhecer e Portugal não foge à regra. Em 1991, 15,7 por cento das mulheres tinham mais de 65 anos; em 2002, a percentagem era já de 18,8. Os homens mantinham-se abaixo (14,4 em 2002), simplesmente porque a taxa de mortalidade é mais elevada entre eles.

O INE prevê um agravamento do envelhecimento da população, com a esperança média de vida feminina (agora cifrada nos 80,6) a atingir os 85 anos em 2050.

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