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Diário de Notícias - 8 Mar 04
Duas modestas propostas
João César das Neves
A gravidez indesejada é a questão central no debate do aborto. Realmente
há poucas surpresas mais angustiantes e assustadoras. Mas esta questão é
sempre tratada de forma apressada. O desejo da gravidez tem muito que se
lhe diga. Por exemplo, nos momentos iniciais toda a gravidez é desejada.
Pode não se saber que vem aí, mas naqueles instantes os envolvidos fazem
avidamente tudo para que ela comece.
Depois, como em tantas coisas na vida, pode vir o susto, a aflição e, em
alguns casos, a rejeição. Mas há uma altura em que toda a gravidez é
indesejada. Cerca de 15 anos depois de começar, não há nenhuma gravidez
que não tenha problemas. É que, mesmo com dores, dificuldades e alarmes,
os primeiros cinco anos são os mais belos. Não há gravidez que nesse
período não seja delicada, encantadora, ternurenta. O pior vem depois.
Após dez, 15 anos, toda a gravidez se torna desobediente, teimosa,
arrogante ou, pelo menos, atrevida e inconveniente.
Nessa altura, mais de uma década após o início, se alguém quiser praticar
a interrupção voluntária dessa gravidez, as dificuldades são enormes. Só
mesmo os muito ricos é que conseguem tratar do assunto sem consequências,
e mesmo esses são muitas vezes apanhados. É nesse estado tardio da
gravidez, e não nas primeiras semanas, que as mulheres (e homens) são
condenadas à prisão sem piedade, apenas por se libertarem dela. Por medo
disso, tantas mulheres pressionadas não têm remédio senão suportar a
gravidez que não querem.
A minha modesta proposta é que as forças pela despenalização do aborto
alarguem a extensão da actuação. Porquê limitar a permissão da interrupção
voluntária da gravidez às insignificantes dez, 14 ou quaisquer semanas?
Tudo isso é mínimo comparado com a real dimensão do problema. Até que a
gravidez se complete e o embrião saia de casa, a mulher tem direito ao seu
corpo, nível de vida, ao seu sono e paz, ao seu bem-estar! Avancemos até
aos 18 anos!
Já agora, alarguem também o âmbito. Além do aborto, não podemos negar que
há pedofilia clandestina. O melhor é legalizá-la em estabelecimentos
autorizados. Assim as crianças terão tratamento higiénico e psicológico
adequado.
Foi há 275 anos que Jonathan Swift apresentou a sua celebérrima «Uma
Modesta Proposta». Também ele, como os abortistas, queria resolver o
problema dos «pedintes do sexo feminino, seguidos por três, quatro ou seis
crianças, todas em farrapos, importunando os passantes por esmolas (...),
prevenir os abortos voluntários, e essa prática de mulheres matarem os
seus filhos bastardos». Para o resolver, o irlandês fez investigações e
concluiu «que uma criança jovem e saudável, bem criada com um ano, é um
alimento muito delicioso, nutritivo e substancial, seja frito, assado,
cozido ou refogado, e penso que poderá igualmente servir-se em fricassé ou
guisado». Assim, a sua «modesta proposta para impedir que os filhos das
pessoas pobres sejam uma carga para os seus pais e a nação,
transformando-as em benefício para o público», é simplesmente usá-los na
alimentação como outras carnes.
Neste nosso tempo pateta e mesquinho, é talvez preciso explicar que a
proposta de Swift (tal como a outra) é sarcástica e mordaz. Porque hoje,
com o uso de embriões abortados, clonagem terapêutica e outras infâmias,
ela parece assustadoramente real. Aqui a História repete-se, mas primeiro
como farsa e só depois como tragédia.
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