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Público - 12 Mar 04
Ensino Fraco, Pouca Inovação e Má Justiça Impedem Desenvolvimento do
País
Por LUÍS MIGUEL VIANA
"Não vou falar da conjuntura ou se a retoma aí vem", disse Vítor
Constâncio, à laia de gracejo, no início da intervenção com que ontem
abriu a conferência do Banco de Portugal (BP) sobre "Desenvolvimento
Económico Português no Espaço Europeu". Centrado no médio prazo, o
governador do BP dedicou-se antes à questão central de Portugal - o
desaceleramento sistemático nos últimos anos da taxa de crescimento
potencial da sua economia: "Parece que, tendo chegado a um patamar
intermédio de desenvolvimento, já não nos conseguimos desenvolver mais",
disse.
Porque é que o crescimento não descola? Não é por falta de investimento,
elucidou Constâncio, porque "temos já taxas muito elevadas" e uma
utilização intensiva da mão-de-obra disponível. Portanto, "a única
possibilidade de acelerar o crescimento é aumentar a produtividade".
Apesar de ter crescido um pouco acima da média europeia, esta mantém-se,
"por razões um pouco inexplicáveis", comentou, muito aquém dos principais
correntes: a Grécia, por exemplo, tem mais ou menos o mesmo Produto
Interno Bruto (PIB) que Portugal, mas consegue-o com muito menos
trabalhadores.
É habitual ver-se atribuir a razão dessa baixa produtividade ao
"excessivo" investimento em construção. Porém, o governador do BP não vê
fundamento nesse argumento, uma vez que "o volume de investimento em
construção tem vindo a descer nos últimos vinte anos" - isto para além,
disse também Constâncio, do nível de infra-estruturas nacional ser
inferior à média da OCDE, excepto nas telecomunicações. Mais convincente
como explicação parece ser, por conseguinte, o peso crescente do emprego
nos serviços e na Administração, sectores em que a produtividade é
tradicionalmente baixa: Portugal foi o único país da União Europeia em que
a Administração Pública cresceu entre 1990 e 2001.
A importância das instituições
Expostas as coordenadas do problema, Vítor Constâncio falou então do
trabalho de alguns economistas internacionais, os quais têm concluído que
a qualidade das instituições de cada país é a variável fundamental para
explicar o grau de desenvolvimento das suas economias. Há até modelos que
mensuram essa mesma qualidade - e, segundo estes, por cada um por cento de
melhoria das instituições, a produtividade dos trabalhadores aumenta cinco
por cento.
Vejamos de que instituições falava Vítor Constâncio: estabilidade
monetária; grau de abertura da economia; mercados (tanto de produtos como
de trabalho) eficientes, com concorrência, regulação e menos burocracia;
administração pública independente e qualificada; recursos humanos e
educação; tecnologia e investigação e desenvolvimento (I&D); Estado de
Direito: justiça e direitos económicos.
Quanto às primeiras (apesar das deficiências que qualquer português
conhece), Portugal não aparece mal colocado nos "rankings" internacionais
- isto apesar de, só para dar um exemplo, o preço da electricidade ser
muito superior à média internacional. O problema da baixa produtividade
nacional está - quase todo - nos três últimos tipos de instituições.
"Na educação é um desastre", lamentou o governador: "Estamos no fim da
lista da OCDE e muito abaixo dos dez países que vão entrar na UE,
sobretudo no secundário." O pior é que Portugal é dos que mais gasta com a
educação (está em quinto lugar), é o primeiro no "ratio" professor/número
de alunos - e, ainda por cima, é dos países onde há o maior retorno
comparativo para os licenciados em termos de carreira e de remuneração.
Isso não evita, todavia, que quando se avalia o nível de resultados
obtidos o país caia para os últimos lugares da lista: 25º ou 26º.
"Há uma grande perplexidade quando olhamos para estes números. E uma
grande angústia, porque é um problema que demora muito tempo a resolver."
Vítor Constâncio acabaria por propor reformas que autonomizem e
responsabilizem as escolas e, para os professores, "uma diferenciação de
remuneração e de progressão na carreira em função de resultados".
Os outros pontos fracos do desenvolvimento português são o investimento
tecnológico - "No investimento em I&D em percentagem do PIB estamos no
fundo da tabela liderada pela Suécia e pelos Estados Unidos" - e a
eficácia da justiça, "muito abaixo da média europeia" quer em termos
gerais, quer em termos de questões contratuais. "A melhoria nestes
indicadores daria um contributo muito grande para a melhoria da nossa
competitividade", concluiu o governador. "Precisamos de trabalhar mais, de
inovar mais e de reformar mais." [anterior] |