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Rui Rosas da Silva - 2 Fev 04
O SÍNDROME DO IRMÃO DESEJADO
Não sei, em abono da
verdade, se algum psicólogo ou psiquiatra infantil já definiu o
Síndrome do irmão desejado. No entanto, se não constitui tal
designação uma descoberta da ciência, quase se poderia deduzir a sua
existência real. Para o efeito, bastaria ler uma entrevista concedida por
um conceituado neuropsiquiatra italiano, Giovanni Bolea. Pôde verificar
experimentalmente que, num país carente de natalidade, muitas das crianças
que os pais condenaram a ser filhos únicos, acabam por brincar com os
irmãos que não têm, através da extraordinária e fácil imaginação da sua
fase etária.
Não é difícil
congeminar a existência de um rapazito, filho único, objecto do carinho
atencioso e exclusivo do pai e da mãe, dos quatro avós e de não sei
quantos mais familiares, que confessasse com aparente naturalidade que os
seus pais não lhe tinham querido dar um irmão, a fim de que ele não
ficasse privado de tudo aquilo que eram forçados a dividir por mais
filhos, se os viessem a conceber. Observaria com duvidoso orgulho que
assim era melhor, porque tinha tudo quanto queria, já que os pais não lhe
podiam negar nada.
Achava-se, porém,
muito sozinho e bastante contestado na seu ambiente escolar. Detestava os
colegas, que considerava agressivos e brutos. Falava com poucos e
mostrava-se sempre receoso de mostrar o que trazia de casa. Por isso, não
achara melhor sítio para comer as guloseimas que escondia na sua sacola do
que o quarto de banho, com as portas bem fechadas. Outro lugar da escola
taxaria de perigosíssimo, porque os seus colegas, chatos e cretinos,
sempre queriam que as compartilhasse com eles. Confidenciaria ainda que
era observado por um psicólogo e também por um psiquiatra, a fim de que a
sua integração no centro de ensino se processasse sem sobressaltos.
Entretanto, os seus pais, muito preocupados, atafulhavam-lhe o quarto com
mais jogos de computadores, mais brinquedos e deixavam no frigorífico
todas as vitualhas com que uma criança gosta mais de sonhar do que - quem
sabe? - saborear.
Pois na Itália, a
criatividade deste ser isolado, filho único à força, parece exímia a
imaginar situações em que convive com um irmão. Tem tudo o que de
materialmente se exige. A televisão, com a sua boca escancarada, conta-lhe
histórias sobre histórias, apresenta-lhe heróis e heroínas que ele
assimila como padrões da sua cultura e do seu modo de ser.
Não sendo esse mundo
real, eis a criança entregue à sua solidão enfermiça. Dela sai triste e
até enjoada para, de seguida, abrir o frigorífico e comer não sei que
coisa boa.
Coisa boa? Não há
disso quando a náusea e o fastio duma vida sem relação faz nascer no seu
protagonista todos os temores, todas as dúvidas e todas as incertezas, que
dão trabalho a rodos aos nossos psiquiatras.
Será difícil de
perceber que o facto de uma criança imaginar, no ermo frio e silencioso da
sua casa, que assiste a um programa com outra que a estime, com quem fale,
ou mesmo até, com quem bulhe, e a quem possa chamar irmão, é uma
manifestação do que há de mais íntimo nos seus anseios, apesar de o receio
da partilha lhe haver sido incutido pelos pais, como uma espécie de vacina
de egocentrismo preventivo? E se, com a sua fantasia característica, a
“baptiza” com um nome próprio, não pretende dar assim mais realidade ao
seu desejo e fugir do horizonte de anacoreta compulsivo a que os pais a
sujeitam?
Giovanni Bolea não
hesita em afirmar que muitas das suas consultas terminam sempre com uma
terapêutica simples, que ele prescreve dum modo literal, perante, talvez,
a perplexidade dos pais, que esperavam, provavelmente, um tratamento
sofisticado, acompanhado de um sem número de leituras e de acções
complexas, a que eles deveriam prestar o maior cuidado.
Mas não. Tudo se
resume a uma decisão simples, que dará novo sentido à vida familiar.
Poderá torná-la, possivelmente, um pouco mais exigente, mas nem por isso
menos atractiva. É um tratamento antigo, altamente ecológico, porque
obedece às leis da natureza humana e evita todos os problemas de quem,
neste aspecto muito específico, odeia a ecologia ou a põe de parte, como
se ela não fosse uma realidade a ter em conta.
O que receita,
então, Giovanni Bolea? Tão só: um irmão, o mais tardar dentro de um ano.
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