1. Estamos mergulhados numa profunda dor, em
luto por Espanha. Todas as manifestações são pequenas para
tamanha desumanidade. Mas este luto fraterno deve alargar-se
pela nossa época. Há motivo para uma meditação que vá para além
das emoções do momento. As tecnologias dão ao homem do nosso
tempo um imenso poder. Ninguém pense que os poderes
jurídico-políticos do Estado podem manter só por si uma ordem
social e moral das sociedades, se não houver uma cultura
humanista de respeito absoluto pela vida. Quando se não respeita
absolutamente a vida, nem a própria como no caso do terrorismo
suicida, nem a dos filhos nas entranhas como no caso do aborto,
não restam outros limiares absolutos para a paz e a convivência
tolerante. O mais que se conseguirá, e em democracia, é
estabelecer convenções maioritárias em que as minorias podem
dizer com toda a validade: aceitamos ser tratados segundo os
vossos princípios, mas nós vos trataremos segundo os nossos
princípios mudando a lei quando chegarmos ao poder.
2. Há dias, os nossos bispos publicaram uma
meditação sobre a vida, de que retiro a seguinte transcrição. "O
único caminho para precaver todas as formas de violência sobre a
vida humana é o cultivo da sua beleza e dignidade e do serviço
generoso que lhe podemos prestar. Só amando e servindo a vida
evitaremos as violências sobre a vida. Não esgotemos no drama do
aborto os nossos deveres para com a vida. Esta meditação sobre a
vida é para fazer todos os dias porque servir a vida é adorar o
Deus Vivo e Criador".
Está aqui perfeitamente bem falar em Deus.
Sendo racional, a leitura cristã da vida é feita a uma certa
luz. E essa luz tem a mesma legitimidade epistemológica do que,
por exemplo, a que é reivindicada pela "sociologia crítica", ou
pelo actual "pós-modernismo", que partem de uma ideia ou tese
basilar de crítica ou de dúvida contra o "statu quo". Paradoxal
é que, por mero preconceito, não seja por vezes reconhecido aos
postulados racionais da fé o mesmo estatuto epistemológico
concedido aos postulados da chamada ciência crítica, sendo certo
que a prova ou evidência científica da diferença não é
demonstrada nem demonstrável. E especialmente grave é que esta
discriminação seja por vezes aceite pelos próprios católicos, e
até em público, sob pretexto da laicidade - conceito este que só
é compreensível se se referir à autonomia das autoridades, do
"político" como do "religioso", mas não para discriminar
pensamento, seja ciência ou doutrina.
3. O Santo Padre João Paulo II tem
ultimamente multiplicado as declarações sobre as questões da
vida e da família. Das suas declarações decorre expressamente
que a doutrina da Igreja, nestes assuntos, coincide com o
direito natural fundamental e universal. Pode assim tirar-se
que, nas pós-modernas circunstâncias, está aqui uma barreira
ética, cultural e civilizacional que, se ultrapassada, não
permite limitações que não sejam relativas, políticas, de
oportunidade; e por isso mesmo voláteis. Como, por exemplo, o
critério do sentido álgico para decidir a questão do início da
existência da pessoa humana no embrião, como pareceu valorizar
num artigo recente Sottomayor Cardia.
Há dias, o Papa pediu mais uma vez aos que
aprovam as leis que respeitem o "valor da vida humana desde o
momento da sua concepção até ao seu termo natural - vida que
ninguém pode violar sem que, não apenas se viole o direito de
cada ser humano, como ainda se destrua o próprio fundamento de
toda a convivência humana". E afirmou que este é um primeiro
"pilar da sociedade". O outro pilar que todo o legislador deve
defender "é o matrimónio, união do homem e da mulher aberta à
vida, que dá lugar à instituição natural da família". Estes
princípios - enfatizou - são "expressão dos mais elevados
valores da pessoa humana e, em última instância, procedentes de
Deus, supremo legislador". E acrescentou que "um católico não
pode apoiar leis contra a vida ou a família".
4. "É uma história arrepiante. O corpo de um
bebé foi encontrado no lixo, numa pizzaria". Mais palavra menos
palavra, foi isto o que eu ouvi no jornal da TVI, numa
sexta-feira à noite de Fevereiro passado. E interrogo-me,
pensando que pode ter sido um bebé abortado ou acabado de nascer
e assim abandonado: mas de que é que se arrepiam, quando não se
arrepiam dos bebés voluntariamente abortados deitados ao lixo
nos hospitais e depois levados para a incineradora, quando não
são vendidos à sucapa por alto preço para as indústrias de
cosméticos ou experiências de laboratório? Em substituição dos
ratinhos, para experiências "in anima vili"... Com efeito, qual
é, cientificamente provada, a diferença?
Se não se respeita absolutamente a vida e a
consequente intimidade da pessoa humana, é depois um tanto
artificial fazer tabu de sensibilidades epidérmicas ou estéticas
escondendo a morte e os mortos. Ao mesmo tempo que se mostram os
cadáveres nos telejornais, por vezes aos pedaços, nos desastres
e nas guerras? E cenas horrorosas de masoquismo e sadismo, como
já se tem visto na televisão, classificadas de "cinema de
qualidade"?
5. O Prof. Amaral Dias escreveu no PÚBLICO um
artigo com alguma sobranceria científica, ao fim e ao cabo
defendendo a adopção das crianças por parceiros homossexuais. E
citou numerosos nomes de autores e instituições, "pour épater le
burgeois". Mas não tem razão para qualquer sobranceria. Em
primeiro lugar, porque há estudos e instituições de igual
credibilidade científica que defendem o contrário do que ele
seleccionou. Depois, porque esta questão científica anda envolta
em muito proselitismo, no sentido do "ar do tempo", e por isso
convém manter alguma prudência. Finalmente, em ciência não se
pode citar apenas num só sentido, quando há mais, sem correr o
risco de se ser tomado como tendencioso.