| Público - 16 Mar 04
Resultados na Educação Continuam a Ser "Medíocres"
Por ISABEL LEIRIA
Apesar de "recentes iniciativas para melhorar a qualidade do
ensino", os resultados na área da educação "continuam a ser
medíocres", com Portugal a apresentar a mais elevada percentagem de
abandono escolar precoce da União Europeia (UE) - 41,1 por cento,
bem mais do dobro da média comunitária.
A avaliação consta do último relatório da Comissão Europeia sobre a
concretização dos objectivos definidos na "Estratégia de Lisboa" e
que será apresentado ao próximo Conselho Europeu da Primavera, a
realizar no final do mês.
Quatro anos depois do Conselho de Lisboa, quando foi estabelecida a
meta de, até 2010, tornar a Europa "na economia baseada no
conhecimento mais dinâmica do mundo, capaz de garantir um
crescimento económico sustentável, com mais e melhores empregos e
com maior coesão social", os "progressos realizados pela UE são
manifestamente insuficientes", lê-se no relatório.
No caso de Portugal, os indicadores relativos à educação e formação,
não sendo os únicos, são dos que mais fazem afastar o país da média
dos Quinze. Veja-se o caso do chamado "abandono escolar precoce" -
número de jovens entre os 18 e os 24 anos que apenas têm, no máximo,
o 9º ano de escolaridade e que não estão a frequentar acções de
formação ou educação.
Em 2003, a média da UE atingiu os 18,1 por cento, valor ainda muito
distante dos dez por cento que se quer obter até 2010. Em Portugal,
a percentagem ascendeu aos 41,1 por cento. Se se atender aos números
relativos apenas aos rapazes, conclui-se que quase metade (48,3 por
cento) dos jovens portugueses não estudaram para além do ensino
básico. Em toda a Europa dos Quinze ou mesmo na Europa alargada, há
uma única situação comparável: Malta.
É certo que os valores têm decrescido, mas a progressão é lenta. Em
dez anos, a Espanha - actualmente o segundo Estado-membro mais mal
classificado - conseguiu reduzir o abandono escolar precoce em oito
pontos percentuais. Portugal conseguiu baixar 5,6 pontos
percentuais. Exige-se pois uma "intervenção urgente", apela a
comissão.
Jovens mais instruídos
O problema torna-se mais complicado quando o atraso educativo de
Portugal é de tal ordem que mesmo progressos assinaláveis e sem
paralelo entre os Estados-membros continuam a deixar o país no fim
da tabela.
É o que acontece com a evolução da taxa de conclusão do ensino
secundário, no que é reconhecido pela Comissão Europeia como um
"acentuado aumento do nível de instrução dos jovens" e destacado
entre um dos aspectos mais conseguidos na prossecução da "Estratégia
de Lisboa" - tal como a "concretização de acções para fomentar a
utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação, as despesas
em investigação e desenvolvimento e a inovação".
Entre 1999 e 2002, o número de jovens entre os 20 e os 24 anos que
completaram o 12º cresceu em média 1,8 pontos percentuais por ano.
Ainda assim, o panorama é este: enquanto menos de metade (47,3 por
cento) da população portuguesa desta faixa etária têm o ensino
secundário, a média da UE é de três em cada quatro jovens com esta
habilitação. A média dos futuros Estados-membros (os dez que entram
a 1 de Maio mais a Roménia e a Bulgária) ascende aos 88,3 por cento.
Não é, no entanto, por falta de dinheiro investido que Portugal
merece os reparos da Comissão Europeia. A percentagem do produto
interno bruto (PIB) gasto em educação (5,89 por cento em 2001) é
superior à média comunitária e à de países como o Reino Unido, a
Espanha, a Irlanda, a Holanda ou a Alemanha. Mas ninguém bate o
investimento realizado pela Dinamarca (8,4 por cento), Suécia ou
Noruega.
Já no que respeita às despesas em investigação e desenvolvimento, a
situação portuguesa inverte-se. Só a Grécia gasta menos do que os
0,8 por cento do PIB português e está-se muito longe dos dois por
cento da média comunitária. Também em relação a outros indicadores
estruturais, como o número de diplomados em ciências e tecnologias
ou a aprendizagem ao longo da vida, Portugal coloca-se no extremo
inferior da escala.
Serão então os dados relativos à educação (e também à produtividade,
à população em risco de pobreza e outros) que levam a Comissão
Europeia a concluir que, na análise à progressão dos Estados-membros
desde 1999, Portugal "apresenta resultados decepcionantes". O mesmo
acontece com a "Alemanha, o Luxemburgo, e a Áustria", por oposição
aos "progressos assaz positivos da Bélgica, França e Grécia". [anterior] |