| Público - 16 Mar 04
"O Mais Devastador É Que 50 por Cento dos Portugueses Dizem Não
Querer Aprender Mais Nada ao Longo da Vida"
Por ISABEL LEIRIA
"Os indicadores portugueses são catastróficos. Fico com a ideia de
que os outros estão a andar e nós um bocadinho parados", começa por
comentar o ex-ministro da Educação Marçal Grilo e actual
administrador da Fundação Calouste Gulbenkian sobre as últimas
estatísticas educativas da União Europeia e que confirmam o atraso
do país.
Para Marçal Grilo, é certo que os progressos em educação demoram
necessariamente muito tempo a ser conseguidos, que a pesada
burocracia ou a inexistência de um sistema de avaliação que distinga
os melhores e os piores não tem ajudado. Mas existem sobretudo "três
valores que são absolutamente devastadores e que mostram o país que
somos", considera o ex-ministro, que assumiu a pasta da Educação
entre 1995 e 1999.
"Sessenta por cento da população portuguesa adulta tem no máximo
seis anos de escolaridade. Oitenta por cento dos empresários têm no
máximo o 9º ano de escolaridade. E o dado que, para mim, é o mais
devastador tem a ver com um inquérito que foi revelado recentemente,
segundo o qual 50 por cento dos portugueses expressam não querer
aprender mais ao longo da vida. Combinam-se estes factores e a
situação torna-se muito mais difícil."
A culpa do atraso não será tanto dos governos mas do funcionamento
da sociedade. "Os distritos do país onde as taxas de escolarização
são mais baixas são aqueles onde existem as indústrias assentes na
mão-de-obra barata e desqualificada. O país ainda não conseguiu
livrar-se deste modelo económico, que suga do sistema educativo
estes jovens - diria que mais de 200 mil jovens estão no mercado de
trabalho sem ter concluído a escolaridade obrigatória. Há que fazer
um esforço enorme para recuperar estes jovens e colocá-los na pista
de uma carreira profissional, mais assente no conhecimento e menos
nas mãos que têm."
Para isso é fundamental que se criem mais apoios fiscais e
financeiros às empresas que apostem na formação e fazer algo que
"existe pouco em Portugal" e que se traduz na compensação dos
trabalhadores que investem em si próprios, sustenta Marçal Grilo.
O país do "mais ou menos"
Sobre o sistema educativo, o ex-ministro considera que é fundamental
actuar-se desde logo sobre o ensino básico. "Parece-me que os alunos
estão a terminar a formação básica sem terem os instrumentos
necessários para progredir na sua carreira. A situação na Matemática
e na Língua Portuguesa - para não ir mais longe - é dramática."
Outra das pechas reflecte-se na "baixíssima cultura científica dos
portugueses". Não se trata de saber muito de Física ou de Química,
explica Marçal Grilo, mas de saber olhar para os problemas, estudar,
testar e descrever. "Continuamos a ser o país do 'mais ou menos', 'é
parecido', 'não é exactamente assim mas não importa muito'."
O ensino secundário é outro dos "calcanhares de Aquiles", que sofre
as consequências de manter "alguma indefinição" e de continuar a ser
mais um "corredor de passagem para o ensino superior" do que um
ciclo de estudos com "objectivos próprios". Seria ainda importante
apostar mais na formação profissional, acrescenta o ex-ministro.
"Não me incomodaria que fosse logo a partir do 6º ano."
Não é que o país seja "atavicamente atrasado", mas existe uma enorme
heterogeneidade, afirma. "Há escolas com resultados muito
aceitáveis, têm um projecto, uma liderança forte, impõem disciplina,
autoridade e são rigorosas consigo próprias. Depois há outras, com
uma liderança fraca, um corpo docente instável e completamente
desmotivado, com professores que também não fazem nada para se
motivar e pais que não se interessam."
Apesar de pouco optimista, Marçal Grilo acredita ainda assim que,
"no dia em que se instalarem mecanismos de estímulo, recompensa,
rigor e exigência, os portugueses serão iguais aos europeus". Algo
que não se faz por decreto do Governo, mas que tem de partir da
vontade das pessoas e das instituições, que têm de produzir trabalho
de qualidade, conhecimento e investigação.
"Uma das coisas mais importantes e uma das vantagens que os Estados
Unidos têm é o facto de as pessoas acreditarem que a educação é
importante, que aprender é fundamental", conclui. [anterior] |