Diário de Notícias - 19 Mar 04

Os homens têm direito a cuidar dos seus filhos
P. V.

Considera que existe uma maior consciência por parte dos pais dos seus direitos e maior vontade de participar nas responsabilidades familiares?

Os homens começam cada vez mais a implicar-se nos cuidados às crianças, porque passam a beneficiar de um direito que lhes tem estado vedado ao longo dos séculos, que é o direito de participar na vida familiar. Até há pouco tempo a contribuição dos homens para a família era assegurar o rendimento. Hoje quem faz isso são simultaneamente os homens e as mulheres. E, por isso, todas as políticas devem ir no sentido de uma partilha equilibrada da vida privada e da vida pública. Isto é um benefício para os homens, para as mulheres e para as crianças. É fundamental para o desenvolvimento harmonioso da criança que o pai e a mãe participem em igualdade nos seus cuidados. Mas sabemos que ainda há desequilíbrio.

E a que é que, na sua opinião, se deve esse desequilíbrio?

Há uma tradição nos papéis da mulher e do homem que não se consegue alterar rapidamente. No entanto nas novas gerações a situação já não é a mesma e existe, efectivamente, maior partilha.

Acha que os homens, tal com as mulheres, começam a redefinir o conceito de sucesso, tanto a nível profissional como a nível familiar?

A própria harmonia da vida social passa pela convivência dos dois mundos. É interessante que a Declaração Universal dos Direitos do Homem, que foi adoptada em 1948, diz que os homens e as mulheres têm iguais direitos ao casamento, à escolha do trabalho, a uma igual remuneração, ao repouso e aos lazeres. Isto já foi há 50 e tal anos, mas, passar disto para a realidade é um processo que só agora começa a verificar-se.

E porquê?

Porque houve um grande acesso das mulheres ao mercado de trabalho e uma revolução nas mentalidades. Hoje em dia o cuidar das crianças pelos homens não é só um dever, é um direito que eles querem utilizar. Aqui na CITE nós temos uma Linha Verde de informação sobre os direitos e são muitos os homens que telefonam a pedir informações sobre os seus direitos como pais. E às vezes também há pedidos de informação sobre os direitos do pai por parte de algumas empresas.

No II Plano Nacional para a Igualdade (2003-2006) está prevista a elaboração pela CITE de um Guia de Boas Práticas destinado às empresas. Em que ponto está esse projecto e que tipo de recomendações vai fazer?

Ainda está numa fase preliminar. Em matéria de igualdade, e nós podemos incluir os direitos à protecção da maternidade e à paternidade na área da igualdade, o empregador deve informar o trabalhador sobre os seus direitos, deve afixá-los na empresa, como diz o Código do Trabalho. Estamos a pensar fazer uma divulgação das boas práticas nesta área.

A CITE participou no inquérito à Ocupação do Tempo feito pelo INE, em 1999, que permitiu, entre outras coisas, avaliar o tempo que os pais dedicavam aos cuidados das crianças. No II Plano Nacional para a Igualdade está prevista a repetição do inquérito. Quando é que ela terá lugar?

Está previsto que esse inquérito seja repetido mas não sei se o vai ser já ou apenas para o ano. O primeiro estudo foi realizado em 1999 e por isso já estamos num tempo em que seria oportuno repeti-lo, porque já é possível averiguar se houve alguma evolução na forma como os homens e as mulheres utilizam o seu tempo. Através desse estudo é possível perceber se passam mais tempo em casa ou no emprego e de que forma se repartem nos cuidados à família. Esse inquérito responde a todas essas questões.

No estudo de 1999 era possível verificar que as mães se ocupavam dos cuidados primários das crianças (alimentação, banho, vestuário) e os pais de tarefas mais relacionais (brincar). Acha que hoje o envolvimento dos pais no tipo de tarefas já é diferente?

Eu acho que em cinco anos deve ter havido uma evolução significativa. Os homens participam mais nos cuidados das crianças, mas em relação a outros cuidados, como tratar da roupa ou cozinhar, é capaz de se manter ainda bastante próxima a repartição do tempo. Mas eu tenho esperança que estejamos a caminhar para uma sociedade mais igualitária.

Os homens devem ser, cada vez mais, vistos pela sociedade como pais/maridos/trabalhadores.

Sim. Os homens não podem continuar a ser entendidos apenas como trabalhadores, devem ser vistos na sua integralidade.

[anterior]