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O pacote inclui medidas como trabalho a tempo parcial,
reforma parcial e apoios às famílias que mantenham os idosos
em casa
O primeiro-ministro apresentou ontem um "pacote" de 100
compromissos programáticos para uma política da família, que
inclui medidas como trabalho a tempo parcial na
Administração Pública, reforma parcial ou apoios às famílias
que mantenham os idosos em casa.
"Os 100 compromissos para uma política da família passam a
ser uma orientação vinculativa para o Estado e Função
Pública", explicou Durão Barroso, durante a apresentação
pública do documento, que ocorreu precisamente no mesmo dia
em que se assinala o 10º aniversário do Dia Internacional da
Família.
A apresentação dos "compromissos programáticos" da política
para a família decorreu no Teatro D. Maria, em Lisboa, tendo
estado presentes o ministro do Trabalho e da Segurança
Social, Bagão Félix, o ministro da Cultura, Pedro Roseta, e
o ministro-adjunto do primeiro-ministro, José Luís Arnaut.
Depois de assistir à actuação de um coro infantil, o
primeiro-ministro subiu ao palco para explicar que algumas
das medidas de apoio às famílias estão já a ser aplicadas -
como a abolição do imposto sucessório ou o rendimento social
de reinserção – e que os novos compromissos serão levados à
prática "proximamente", entre 2004 e 2006.
IDOSOS EM CASA
No "pacote" de compromissos está o apoio às famílias que
mantenham os idosos em casa, a aprovação do regime jurídico
da reforma parcial (que permitirá que as pessoas se reformem
mais cedo, embora recebendo menos) e a adopção de medidas
que permitam o trabalho a tempo parcial na Administração
Pública, por forma a permitir que os pais possam dedicar
mais tempo aos seus filhos.
Além destas medidas destacadas por Durão Barroso, o "pacote"
inclui também a prioridade às crianças no acesso às creches
nos casos em que os pais estejam a trabalhar, a redução do
custo dos manuais escolares e a possibilidade da sua
reutilização.
AMAS E AJUDANTES
A promoção de formação credenciada de amas e ajudantes
familiares, a criação de Bancos de Voluntariado (para
promover o voluntariado de apoio à família), a introdução da
tarifa familiar de água e a melhoria das acessibilidades
(tendo em atenção as pessoas com deficiências, idosos e
equipamentos destinados a crianças) são outras medidas
previstas no "pacote".
De acordo com um comunicado do Ministério da Segurança
Social e do Trabalho é também intenção do Governo criar
incentivos para a contratação de mulheres desempregadas nos
12 meses seguintes ao termo da licença da maternidade, criar
Centros de Noite para idosos e promover o mecenato familiar.
O documento ontem divulgado publicamente realça ainda que os
compromissos assumidos pelo Governo têm em conta aspectos
como a conjugalidade e parentalidade, infância, juventude e
velhice, e ainda as questões relacionadas com trabalho e
lazer.
"Com esta iniciativa pretende o Governo valorizar a família,
destacar as suas funções, realçar os fins que prossegue e
evidenciar as responsabilidades que lhe incubem", lê-se no
documento.
UMA OBRIGAÇÃO
Na sua intervenção, Durão Barroso sublinhou que estes
compromissos irão traduzir-se, em alguns casos, em "medidas
concretas", tendo ainda declarado que todos eles passam a
constituir "uma obrigação" para todos os organismos.
À saída desta iniciativa, Durão Barroso assegurou ainda aos
jornalistas que estes compromissos se destinam a todos os
tipos de famílias (incluindo as monoparentais e as uniões de
facto).
"Temos consciência de que as famílias mudaram muito ao longo
dos tempos", concluiu Durão Barroso.
O primeiro-ministro defendeu que a diferenciação das
famílias deve ser concretizada através de medidas sociais,
ao justificar a inexistência de incentivos fiscais no plano
"100 compromissos para uma política de família".
"A diferenciação da família faz-se no âmbito social,
procurando resolver situações de maior urgência e pobreza.
Esta via é melhor que a diferenciação generalizada em sede
fiscal", declarou o chefe de Governo.
PRESTAÇÕES SOCIAIS
Antes, durante a apresentação do documento, o
primeiro-ministro reconheceu que o programa em causa "não
contempla incentivos fiscais", explicando que tal se deve ao
facto de o Governo estar em sede de concertação social, para
rever os "princípios basilares" do sistema fiscal".
"A política de família deve fazer-se mais por prestações
sociais do que por um regime geral fiscal, em que ricos e
pobres não seriam diferenciados. Queremos dar mais a quem
mais precisa e diferenciar as famílias mais pobres e
numerosas", sublinhou o chefe de Governo.
Na sua intervenção, o primeiro-ministro realçou o papel do
Estado na protecção às famílias advertindo, no entanto, que
essa via, por si só, é insuficiente.
"O Estado e o Governo nada poderão fazer se não tiverem a
ajuda das pessoas e da sociedade.
O essencial tem de passar pelos valores que se transmitem às
crianças na infância, valores como o respeito e o carácter",
sublinhou o primeiro-ministro Durão Barroso, acrescentando
sentir o dever de alertar para essa questão.
Falta de apoio fiscal é «lacuna grave»: Um dos delegados da
APFN na Região regista atenção deste Governo à família
A Delegação da Madeira da Associação Portuguesa de Famílias
Numerosas (APFN) aplaude o documento divulgado pelo Primeiro
Ministro com «os 100 compromissos para uma Política da
Família». Um dos delegados da Associação, João Correia,
reconhece que este Governo tem demonstrado, «efectivamente,
algumas preocupações em relação à família, invertendo deste
modo o défice de atenção dado à gestão da política familiar
pelos sucessivos governos».
João Correia não conhece em pormenor o documento oficial,
mas acredita que o mesmo concorre para «valorizar a família,
desejo certamente inerente a todos, mas alguns estão
impedidos de o levar à prática porque o sistema de trabalho
e de apoio social não lhes dá condições para cuidar não só
dos seus filhos como também dos seus pais, já idosos».
Apesar de registar esta atenção de Durão Barroso à família,
João Correia lamenta, porém, que o mesmo "pacote" não
contenha qualquer referência aos benefícios fiscais, facto
que classifica de «lacuna grave». O delegado recorda que
este ponto tem sido muito defendido pela APFN, basicamente
devido a «uma questão de justiça social».
A APFN sempre reivindicou uma maior dedução fiscal no âmbito
das despesas de educação. Não se trata de criar privilégios
de forma arbitrária. Trata-se de uma «questão de justiça
porque, em relação às despesas de educação, cada filho de
uma família numerosa deduz muito menos do que aquela que só
tem um filho».
Por outro lado, João Correia lembra que, «dado o
enquadramento populacional do nosso País, em que não há
crianças suficientes para rejuvenescer a população, o
Governo deveria até favorecer as famílias numerosas. Mas nem
é isso que se pede, mas sim que se faça justiça social».
Aliás, os últimos dados disponíveis revelam que Portugal, em
contra-corrente com o que se verifica na maioria dos países
da União Europeia, tem menores deduções ficais ao nível das
despesas relacionadas com a educação.
A ausência de condições para o acompanhamento familiar, para
além do problema estrutural do envelhecimento da população,
tem igualmente contribuído para desencadear outros
«problemas, tais como a droga, a delinquência juvenil, o
insucesso escolar» e outros flagelos que mancham a sociedade
contemporânea.
Esta tomada de posição do Governo em defesa da família,
particularmente na sua ligação com o mundo do emprego,
acontece também a reboque de outros países que há muito vêm
implementando políticas deste género, sendo a Suécia apenas
um dos exemplos. Confrontado com esta realidade, João
Correia comenta dizendo que «as coisas boas chegam
normalmente tarde», já que Portugal, em cotejo com outros
Países, «está um pouco retardado, mesmo em relação ao espaço
europeu».
Rosário Martins |