Diário de Notícias - 25 Mar 04
A via fiscal
Francisco Sarsfield Cabral
Nos «100 compromissos» para apoiar as famílias que o Governo
anunciou há medidas justas e necessárias - assim elas se
concretizem. Mas não estão ali incluídos apoios fiscais,
designadamente para famílias numerosas. É que, disse o
primeiro-ministro, o sistema fiscal está ser revisto na concertação
social. Além disso, «a política de família deve fazer-se mais por
prestações sociais do que por um regime fiscal em que ricos e pobres
não seriam diferenciados; queremos dar mais a quem precisa e
diferenciar as famílias mais pobres e numerosas».
Dois reparos. Primeiro, não se vê que na concertação social se possa
objectar à necessidade óbvia de estimular a natalidade através dos
impostos. E de pôr fim à penalização fiscal sofrida pelas famílias
que têm mais de três filhos. Não se trata de fazer discriminação
positiva a favor dessas famílias, mas de acabar com a discriminação
negativa de que são alvo.
Segundo, não é de desprezar a função redistributiva da fiscalidade.
Os impostos directos devem favorecer os contribuintes de menores
recursos. Poderia haver, até, impostos negativos - isto é, subsídios
- para os rendimentos mais baixos. As prestações sociais são também
necessárias, sem dúvida. Mas implicam pesadas burocracias, de
eficácia duvidosa e que, em regra, desvirtuam as melhores intenções.
O Ministério da Segurança Social reconheceu há dias não possuir
dados suficientes sobre as pessoas que passam fome, de outra forma
seriam localizadas e alimentadas. Se o Estado não sabe quem passa
fome, parece prudente não apostar muito em prestações sociais para
travar a pobreza e as desigualdades. A via fiscal é capaz de ter
mais vantagens do que parece. Desde que haja vontade para as
aproveitar. [anterior] |