Correio da Manhã - 28 Mar 04

Famílias: Bagão Félix reconhece carga fiscal em excesso
OBCECADOS PELO FISCO

"Ninguém se divorcia para pagar menos impostos ou deixa de ter mais filhos por falta de incentivos fiscais. A fiscalidade é importante, mas não devemos andar obcecados por essa questão". É esta a resposta do Governo, pela voz do ministro da Segurança Social e do Trabalho, Bagão Félix, às preocupações das famílias numerosas relativamente à política fiscal que penaliza as pessoas casadas, em geral, e as famílias com mais de três filhos, em particular.
Manuel Moreira
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Bagão Félix desvaloriza as preocupações fiscais das famílias
Bagão Félix falava no 2.º Congresso Europeu das Famílias Numerosas, que ontem decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian. Na ocasião, reconheceu que a família é fiscalmente penalizada e falou na necessidade de se reduzirem os impostos. Disse ainda que o caminho a percorrer tem de seguir pela via social e não pela via fiscal.

Por seu turno, o Presidente da República, Jorge Sampaio, enviou ao congresso uma mensagem escrita em que defendeu que as famílias numerosas não podem ser prejudicadas, pelo contrário, devem ser reconhecidas para que possam desenvolver sem constrangimentos a sua abertura à participação social.

No decorrer do congresso foram apresentados dois estudos sobre a fiscalidade das famílias, documentos que levaram o presidente da Associação das Famílias Numerosas, Fernando Castro, a referir que a fiscalidade portuguesa "penaliza quem se casa" e "quem tem filhos", beneficiando "fortemente quem se divorcia".

De facto, os estudos da consultora Deloitte revelam isso mesmo: a carga fiscal num casal com três filhos é quase o dobro daquela que pende sobre duas pessoas divorciadas com dependentes. Um casal com um rendimento bruto total de 70 mil euros, paga de IRS 10 673 euros, se for casado. Se for divorciado e o pai pagar uma pensão de alimentos de 8121 euros, por filho, pagará de imposto 5632 euros, quase metade. O estudo incidiu sobre 12 países europeus revelando a impossibilidade das pessoas casadas declararem individualmente os seus impostos em apenas três países - Portugal, Bélgica e França.

Discriminação também sentida na aplicação da taxa do IVA. Este estudo compara uma lista de produtos e serviços dos "Quinze" quanto a alimentação e bebidas, comida para bebés, serviços médicos, roupas, roupa de criança, transporte de passageiros e educação pública.

"JUSTIÇA PER CAPITA"

João Cabral é gestor de empresas. Tem quatro filhos e só em despesas de educação paga mil euros por mês. A mulher está no desemprego e a empresa onde este gestor trabalha caminha para a falência. Ontem foi até à Gulbenkian, ouviu o ministro Bagão Félix e sentiu necessidade de o questionar. Tentou fazê-lo à saída, mas as coisas não correram da melhor maneira tendo sido facilmente afastado por uma assessora do ministro. Este pai, que também nasceu no seio de uma família numerosa, queria apenas interpelar o Governo sobre aquilo a que chamou de "justiça per capita".

"Só pode haver justiça fiscal tendo em conta cada membro da família", referiu João Cabral que é o 7.º de 13 filhos. "Não é a dar dinheiro que se resolvem os problemas, é fazer justiça através da fiscalidade".
Manuela Guerreiro

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