Diário de Notícias - 29 Mar 04

A glória feminina
João César das Neves

A mulher é no mundo a suprema criatura. Esta tese polémica é fácil de demonstrar. Não há dúvidas que a humanidade ultrapassa todos os entes do planeta; e na humanidade, a mulher tem o lugar superior. Superior pela beleza, pela sensibilidade e intuição, até pela energia e resistência. Não é por acaso que a média da sua duração de vida é bastante maior.

Esta excelência feminina nem sempre foi reconhecida. O homem, superior em força e lógica, tenta ofuscar a evidência. Apesar disso, as culturas afirmam-na nas deusas da antiguidade, nas damas da cavalaria medieval, na arte e poesia de sempre. Mas hoje precisa de ser proclamada, porque vivemos no tempo que mais distorceu e desprezou o lugar eminente da mulher. As dolorosas consequências revelam-se nos nossos piores dramas.

O processo de desenvolvimento dos últimos séculos teve consequências maravilhosas. Foi, antes de mais, um grandioso projecto de libertação. Libertação da doença, da miséria, da tirania, da ignorância. Mas trouxe também efeitos laterais nocivos. Um dos piores foi levar a mulher a adoptar critérios masculinos de sucesso.

Ao longo dos milénios o papel dos sexos foi bem delimitado. A mulher tratava do interior da vida; o lar, a educação, o consumo, a doença, a vizinhança, a paróquia, a comunidade. Claro que ambos os sexos sempre colaboraram, mas a mulher imperava. Os homens, pelo seu lado, dominavam o exterior: o campo, a mina, o mar, o fórum. Aí as mulheres eram em geral excluídas e, por isso mesmo, se descambou tantas vezes em lutas de poder, riqueza e intriga. E na guerra, que destrói homens e mulheres. Mas, ao menos, era ao ser superior que estavam entregues as áreas vitais, onde a humanidade se realiza, renova e desenvolve.

Com o progresso, a sociedade mudou e ficou fascinada com os temas masculinos. Hoje o sucesso de todos mede-se pela economia, carreira e política. Felizmente a mulher ganhou aí um papel de destaque, apesar de ainda segregada. A igualdade de direitos foi uma conquista e é uma necessidade evidente. Mas a imposição de igualdade de funções esbate a superioridade feminina. Quando a humanidade põe a sua confiança nos temas externos, perde de vista a identidade e o centro da vida: amor, família, lar, felicidade. Por isso vivemos num tempo de ambição, violência, sedução, sexo. Num tempo de machos. Nunca os temas masculinos tiveram tanta influência.

Quando a mulher, o ser superior, se rebaixa, as consequências são horríveis. Primeiro, o exterior determina o fundo da vida. A economia manda na gente, a lei regula a família, a política decide da felicidade. Como se pode considerar um progresso a mulher-soldado?

Segundo, o fundo da vida degrada-se. São hoje esquecidas e atacadas as duas razões mais próprias da glória feminina, o encanto da virgindade e a grandeza da maternidade. O engano é tal que vemos mulheres apreciar como ganhos a perversão da maternidade pelo aborto, da virgindade pela libertinagem, da família pelo divórcio. Cedem à promiscuidade e pornografia, velhas obsessões varonis. A promoção da homosse- xualidade baralha até os dados da natureza.

Felizmente que, apesar da tirania da opinião, grande parte das mulheres resiste à pressão e preserva a superioridade. A virgindade e a maternidade brilham ainda neste tempo confuso. E, juntas na mesma pessoa, cintilam no mais alto dos céus, acima de toda a criatura.

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