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Ecclesia - 29 Mar 04
Famílias Numerosas atacam política fiscal portuguesa
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A Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN) defende que a
actual política fiscal em Portugal não garante que as pessoas possam
ter o número de filhos que desejarem sem serem penalizados
economicamente. Hoje em dia, no nosso país, um casal com três filhos
paga quase o dobro dos impostos do que dois divorciados com o mesmo
número de dependentes. Esta situação não é, contudo, valorizada pelo
ministro da Segurança Social e do Trabalho, Bagão Félix. "Ninguém se
divorcia para pagar menos impostos ou deixa de ter mais filhos por
falta de incentivos fiscais. A fiscalidade é importante, mas não
devemos andar obcecados por essa questão", referiu o ministro no II
Congresso Europeu das Famílias Numerosas, que decorreu este sábado
na Fundação Calouste Gulbenkian.
Já hoje, a APFN reagiu em comunicado, afirmando que "nunca mais
referirá este ponto, até porque todos os casais com filhos poderão
beneficiar de generosas deduções fiscais até um máximo de 8100 EUR
por filho sem terem que se divorciar, recorrendo à simples separação
judicial, para o que não só não é necessário zangarem-se, como,
muito menos, algum deles ter que sair de casa, até para garantirem
nenhum impacto no equilíbrio psicológico dos filhos". No decorrer do
II Congresso Europeu das Famílias Numerosas foram apresentados dois
estudos sobre a fiscalidade das famílias, documentos que levaram o
presidente da Associação das Famílias Numerosas, Fernando Castro, a
referir que a fiscalidade portuguesa "penaliza quem se casa" e "quem
tem filhos", beneficiando "fortemente quem se divorcia".
O Presidente da República, Jorge Sampaio, enviou ao congresso uma
mensagem escrita em que defendeu que as famílias numerosas não podem
ser prejudicadas, pelo contrário, "devem ser reconhecidas para que
possam desenvolver sem constrangimentos a sua abertura à
participação social". Na ocasião, Bagão Félix reconheceu que a
"política fiscal não tem sido neutral" e disse ainda que o caminho a
percorrer tem de seguir pela via social e não pela via fiscal. Nesse
sentido, a APFN recomenda a actualização do abono de família com a
mesma lógica que foi seguida na actualização das propinas do ensino
superior, "o que dará 120 EUR mensais por filho, independentemente
do rendimento familiar, curiosamente o valor médio do abono de
família nos restantes países da União Europeia", como foi mostrado
no II Congresso Europeu de Famílias Numerosas. Os estudos da
consultora Deloitte para este Congresso revelam que a carga fiscal
num casal com três filhos é quase o dobro daquela que pende sobre
duas pessoas divorciadas com dependentes. Um casal com um rendimento
bruto total de 70 mil Euros, paga de IRS 10 673 Euros, se for
casado. Se for divorciado e o pai pagar uma pensão de alimentos de
8121 Euros, por filho, pagará de imposto 5632 Euros, quase metade.
O estudo incidiu sobre 12 países europeus revelando a
impossibilidade das pessoas casadas declararem individualmente os
seus impostos em apenas três países: Portugal, Bélgica e França. O
II Congresso Europeu de Famílias Numerosas, que se realizou sob o
lema "Famílias Numerosas: Primavera numa Europa Envelhecida",
terminou com a aprovação de uma Declaração. No documento, as
famílias numerosas pedem aos governos europeus que lhes garantam o
direitos de ter filhos "sem serem discriminados ou penalizados
economicamente". Apelam ainda para que sejam dados sinais
positivos, através de medidas concretas, "de reconhecimento da
contribuição da família para um desenvolvimento equilibrado e
saudável da sociedade". [anterior] |