Diário Digital - 29 Mar 04
O Direito à exigência pedagógica no ensino
Francisco Gonçalves
Os meus pais leccionaram em escolas muito problemáticas do concelho
da Amadora, no qual os discentes tinham enormes carências a nível
pedagógico, sendo, regra geral, provenientes dos países de expressão
portuguesa. Sempre pautaram o seu ensino pela exigência, rigor, e
pela transmissão da importância dos estudos, acreditando sempre que
os discentes tinham capacidades para ultrapassar as adversidades.
Porém, outros docentes, perante a dificuldade da empresa, pugnaram
pelo singular entendimento de que «eram coitadinhos» e atribuíam
automaticamente uma nota positiva. Nas últimas décadas, o direito à
educação tem sido interpretado, como o direito à atribuição
automática de uma determinada escolaridade ou grau académico
independentemente do grau de exigência, sendo esta filosofia
transversal em certos países (v.g. o Ministro Jack Lang, considera
que as minorias devem ter exames mais facilitados, devido às suas
«naturais dificuldades de aprendizagem»). Deste modo, é conferida a
primazia quase exclusiva à avaliação contínua, sendo qualquer tipo
de exame escrito considerado algo redutor da realidade e raramente
aconselhado. Ademais, perante a dificuldade da aprendizagem de
certas disciplinas, assiste-se à contínua proliferação de
disciplinas gongóricas, que por vezes, se norteiam mais pelas
necessidades dos docentes e não dos discentes.
Bastantes pessoas, verberam esta nova filosofia (v.g. Maria Filomena
Mónica, entre outros), a começar pelos docentes que querem preparar
os discentes para a vida, embora sejam imediatamente apelidados de
«querer voltar ao antigamente», e de outras verborreias linguísticas
fruto de manigâncias e soberbas intelectuais, de gente que julga
tudo saber e nada tem a aprender.
Esquecemo-nos muitas vezes de que a nossa vida (sobretudo
profissional), se decide em questão de minutos ou horas.
Efectivamente, certos postulados começam a fazer sentido quando
confrontados com a realidade, quando não sabem dar respostas
adequadas nas entrevistas de emprego a que constantemente se
candidatam, quando o patrão pediu-lhes uma opinião e não souberem
responder no momento, ou então quando dizem que não estão habituados
a lidar com a pressão. E depois pensam e interrogam-se: - se ao
menos alguém me tivesse preparado para este tipo de situações,
porquê é que nunca foram exigentes comigo? and so on...
Deste modo, qualquer solução terá de confluir numa aprendizagem
completa, que não se compadece com o laxismo. Se um discente tem
problemas na apreensão do Português, ou de qualquer outra matéria, a
solução terá indubitavelmente que acarretar o acréscimo de aulas,
pela definição correcta de um programa de estudos, pelo salientar da
importância dos estudos e nunca por atribuir automaticamente uma
nota positiva.
Que dizer da miríade de pessoas da geração de 60, que vieram de
aldeias perdidas no mapa, estavam inseridas num meio familiar
bastante humilde, tinham um acesso muito limitado à cultura...e no
entanto tiraram os seus cursos superiores numa época de grande
exigência pedagógica. Efectivamente, singraram na vida porquanto
tinham garra e vontade de triunfar sobre as adversidades. Quem fez
este trajecto, sabe que é possível a sua repetição.
Ou então das pessoas que vieram de bairros degradados, onde a
marginalidade impera, mas apesar de tudo conseguiram realizar-se
profissionalmente? Infelizmente tem-se imposto como leitmotiv, a
psicologia barata, de quem é marginal é devido a razões económicas e
ao ambiente social. O que importa é incentivar e dar publicidade às
pessoas que vivem nesses bairros (e que são a maioria) que não são
marginais, mas lutam todos os dias para obter reconhecimento.
Certas comiserações pelos discentes são alicerçadas numa filosofia
que em nome da igualdade e do combate à discriminação, os trata como
inferiores, e não acredita nas suas capacidades, pelo facto de serem
pobres ou diferentes... Convém trazer à colação dois exemplos: - Na
série «Uma família às Direitas», a personagem de Mike Stevik (Archie
apelida-o de meathead), é o paladino no combate ao racismo, mas esta
«luta» assume contornos assaz curiosos. Uma das críticas que Líonel
lhe endereça (o vizinho de cor) é que deixe de o tratar como se ele
fosse o representante da classe negra, para além de continuamente
mencionar a desmesurada empatia pelas necessidades das minorias. No
fundo, quer que o trate tal como se ele fosse um colega branco. A
personagem de Quino, a Susaninha, condenava o racismo, porquanto
afirmava que não bastava o facto de «eles» não serem iguais a nós,
pelo que, não podemos desprezá-los, mas temos que ser caridosos.
Nos EUA, bastantes sectores das comunidades negras e hispânicas
estão contra o sistema de quotas no ensino, porquanto consideram uma
forma de racismo disfarçado, advogando que pretendem ser tratados
como qualquer cidadão norte-americano não necessitando da «pena» do
status quo. Diversos alunos processaram escolas, em virtude da falta
de exigência pedagógica que lhes foi ministrada.
Para os meus pais (reformaram-se do ensino no ano transacto), nada é
mais gratificante do que ser reconhecido na rua, e agradecer-lhes a
exigência ministrada no ensino. É um orgulho saber quando um antigo
aluno que vive na Cova da Moura entrou na Universidade
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