|
Público - 01 Mar 06
Amanhã
Joaquim Fidalgo Crer para Ver
As paredes eram brancas, brancas, brancas, as luzes brancas, o tecto branco, a
cama de colcha branca, só o chão de uma espécie de oleado azul escuro, tudo
muito liso, tudo muito limpo. E ao fundo uma janela. Na mesinha uma jarra com
uma flor de plástico, um copo meio de água, uma volta de pescoço com uma
medalhinha redonda, ao pé da cama uns chinelos de xadrez desbotado. E ao fundo
uma janela.
- Vamos à janela um bocadinho, sr. António?... Sempre se distrai a olhar para a
rua...
Agora não, talvez mais logo. Até porque já estava na hora das visitas, às tantas
era hoje que vinham buscá-lo, a filha tinha prometido, já lá iam uns dias, nem
sabia ao certo quantos, mas também a vida, sabe-se como é, muita canseira,
coitada, anda a trabalhar a dias tão longe de casa, e à noite ainda arranja umas
roupas para fora, e depois os filhos, três criancinhas pequenas...
- Eu sei, eu sei, o sr. António está sempre a falar dos netinhos, é pena não ter
uma fotografia... Mas olhe que a sua filha se calhar não vem. Já dizia o mesmo
ontem, e anteontem... Vamos lá um bocadinho até à janela.
Não, ela deve vir hoje, pode vir mais tarde porque mora muito longe, e depois já
se sabe, isto dos transportes públicos atrasa sempre, ou pode ter tido que
fazer, mas eu acho que ela vem hoje, eu até já estou bom, não estou?
Estava, estava bom. Tinha tido alta já lá ia mais de uma semana, agora era só
esperar, olhando aquelas paredes sempre tão brancas, o tecto sempre tão branco,
branco de dia e branco de noite, sempre tudo muito limpo, um esmero, mas não há
como estarmos em casa. E se não é em nossa casa, porque a não temos, que seja em
casa da filha, claro que é pequenina, só duas divisões mais a cozinha, mas uma
camita lá num canto sempre se arranja, um velho afinal já não dá muito que
fazer, só aquelas dores na perna de vez em quando, e a falta de ar, a falta de
ar...
- Mas agora já não tem tido falta de ar, pois não, sr. António?
E ele que sim, que ainda um pouquito de vez em quando (não, não era verdade, mas
que se há-de dizer a uma enfermeira, numa cama de hospital, quando não se tem
para onde ir?), se calhar até era melhor ficar mais uns dias, continuar o
tratamento, sempre dava mais segurança.
- E então a sua filha não vem buscá-lo?...
Claro, claro que vem, mas às tantas não lhe dá jeito hoje, afinal até pode ser
melhor assim, fico até amanhã, tomo os remédios, o senhor doutor ainda me vê
amanhã outra vez, de noite costumo sentir uns apertos no peito, até gostava de
lhe pedir que me fizesse uma chapa, só para ter a certeza, talvez seja melhor
ficar mais um dia pelo menos, não vá dar-me alguma coisa depois lá fora, e
entretanto a minha filha vem buscar-me, se não veio hoje, vem amanhã.
- Está bem, sr. António... Eu falo com o médico...
Obrigado.
E ao fundo a janela, não, era melhor não, olhar lá para fora, ver árvores, ruas,
gente, pais com filhos, vida a caminhar, o melhor era ficar pela cama, fechar os
olhos daquele tecto branco, daquelas paredes brancas, descansar um bocadinho,
quem sabe dormir, dormir, dormir. Dormir até amanhã. Jornalista
[anterior] |