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Diário de Notícias - 10 Mar 06
De ser mulher
Maria José Nogueira Pinto
Abraão saiu sozinho da tenda para ouvir a voz de Deus, mas foi a Sara que coube,
afinal, cumprir a profecia de uma descendência tão numerosa como as estrelas do
céu. Desde sempre as mulheres ordenaram o mundo, proveram às necessidades dos
demais, geriram conflitos, acalentaram os sonhos alheios, cuidaram do quotidiano
como se fosse uma glória, atenderam ao detalhe sem perder de vista o fundamental
e alicerçaram o futuro da tribo nos pequenos gestos que tornaram hábeis, por uma
pessoalíssima inteligência do coração de que, como se sabe, são as principais
detentoras. A tudo isto, as mulheres do meu tempo juntarem a capacidade e a
disponibilidade de gerarem filhos na dor e ganharem o pão, também dos outros,
com o suor do rosto.
O feminismo do século XXI não lhes presta homenagem que valha. E nem sequer a
essa mulher sem tempo próprio, a vida em camadas sobrepostas de solicitações e
responsabilidades, esticada entre tarefas múltiplas, deveres que a dividem e que
não consegue dividir, complexos de culpa que atormentam as suas vigílias,
segurando os afectos, a logística e os compromissos como um malabarista cansado.
É por isso que jurei não ser "feminista". É o meu modo de lhes demonstrar a
minha admiração.
Criei-me num casarão predominantemente feminino. A minha avó cuidava, zelava e
provia; a minha tia dominava a História, a Geografia e a Mitologia clássica; a
minha mãe personificava a alegria e o glamour exercitando com aguda
inteligência o sentido mais lúdico da vida; a minha ama, que tivera uma
existência aventurosa, grande contadora de histórias, cozia a realidade e a
fantasia. Todas falavam do humano e do divino, do estado do mundo, cientes da
sua importância, diria, da sua imprescindibilidade. Os homens da casa eram,
claro está, consideradíssimos. Nenhuma disputava com eles estatuto de igualdade
porque se consideravam aptas para qualquer desígnio.
Foi esta exuberância feminina que vi mais tarde exemplarmente descrita por
Nélida Piñon ao decretar peremptoriamente que a narrativa é das mulheres, fiéis
depositárias da memória, guardiãs do seu fio condutor, da sua trama, sem as
quais nem Homero, nem Shakespeare, nem Cervantes teriam escrito coisa alguma.
Mas os últimos 30 anos de feminismo, marcados pelo desiderato da igualdade pura
e dura entre géneros, ocultaram a diferença essencial e o essencial da
diferença. O resultado é inquietante e paradoxal: por um lado, as mulheres de
extractos socioeconómicos baixos lutam, ainda, por uma igualdade básica e
indissociável de um estatuto de dignidade. São as herdeiras das operárias
norte-americanas que se manifestaram num longínquo 8 de Março, tentando reduzir
os seus desumanos horários de trabalho, tendo sido violentamente reprimidas. São
elas que, em última análise, homenageamos neste dia mundial. Um lembrete que se
mantém actual por outro, todo o discurso feminista parece esgotar-se na luta
pelo poder, pelo domínio dos centros de decisão. E foi no âmbito desta disputa
que a igualdade se assumiu como uma condição da almejada paridade.
Confesso que esta lógica dominante me escapa. É o direito à diferença que urge
reivindicar. É a afirmação e não a paridade. São os resultados e não as medidas
de discriminação positiva que conduzirão seguramente à mudança. É que o
objectivo não é o de desalojar os homens, mas o de transformar esses domínios de
rituais e regras masculinas em espaços onde a dimensão do feminino se manifeste
como a mais-valia que é. Os homens, pela sua natureza, são pouco atreitos a
integrar os aspectos do quotidiano, o detalhe e o real. Só as mulheres podem, no
intervalo de uma reunião, decidir telefonicamente trocar as almôndegas do jantar
por um rolo de carne, lembrar que é preciso regar as plantas ou passar na
tinturaria. Só elas podem, no meio da discussão de uma importante medida
legislativa, escrevinhar, sem perder o fio à meada, a lista do supermercado. São
também elas que gostariam de poder deitar mão aos horários desordenados, ao
desperdício de tempo, aos modos de funcionamento ineficazes. São elas que
misturam com gosto racionalidade e emoção, cuidam da parte sem perder de vista o
todo. Com elas, em regra, o combate político é mais aberto e franco, os
consensos mais fáceis e o trabalho mais grupal. Felizmente são hoje numerosos os
exemplos que temos destas mulheres polifacetadas e multimodais. Mulheres que, em
muitos países e organizações internacionais, revestiram a política com humor,
sensibilidade, convicção, razoabilidade e um orgulhoso sentido de diferença. E
só com elas e através delas a mudança se operará.
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