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Diário de Notícias - 12 Mar 06
Mais
violência e jovens dos 12 aos 16 anos no crime
Ana Mafalda
Inácio Rodrigo Saias
Ocrime está a mudar em Portugal. De acordo com as autoridades policiais, tem
novas características: mais violência e mais jovens em idades muito precoces,
dos 12 aos 16 anos, a praticá-lo. Os dados disponíveis ainda não permitem
identificar se os actos violentos pertencem sobretudo a esta faixa etária, mas
apontam para a existência de uma nova tendência que associa a juventude à
violência e que está a ganhar terreno em Portugal. É que, em 2005, a PSP
registou um aumento de quase sete por cento da criminalidade juvenil e a PJ
investigou mais casos de assaltos à mão armada com adolescentes.
A situação é preocupante. Aliás, e segundo apurou o DN, esta questão foi uma das
que dominaram as reuniões entre as forças policiais com competências na
investigação criminal, que decorreram no âmbito da preparação dos relatórios de
2005 sobre segurança, entregues ao Ministério da Administração Interna, em
Fevereiro. O documento final, pelo Gabinete de Segurança Interna, está a ser
ultimado e será apresentado ao Parlamento, no final do mês.
A PSP, GNR e PJ já estão a analisar o fenómeno. O chefe de Divisão de Análise de
Informações Policiais da PSP, Alexandre Coimbra, afirmou ao DN que o Gabinete de
Estudos Criminológicos, recentemente criado, se encontra a estudar a situação,
justificando o facto com o aumento de 2005, o que só tinha acontecido em 2000 e
2003. A Judiciária também solicitou ao seu instituto a avaliação de casos
ocorridos no ano passado que fugiram aos padrões normais. Para a GNR, que
registou uma descida na criminalidade juvenil, em relação a 2004, "a tendência é
uma preocupação e deve continuar a ser estudada", garante o tenente-coronel
Albano Pereira, chefe da Investigação Criminal.
Crime da geração espontânea
No fundo, já todas as entidades revelam ter identificado o fenómeno, sobretudo
urbano. Há até quem lhe chame "o crime da geração espontânea". Isto porque é
praticado por jovens, muitos menores de 16 anos, que actuam em grupo, com
motivações quase sempre económicas e de afirmação social, que não hesitam em
usar armas de fogo e a violência para atingirem os objectivos imediatos.
Para o director nacional adjunto da Polícia Judiciária, Carlos Farinha, esta
prática traduz uma alteração qualitativa nos padrões de actuação, no que toca
aos crimes contra o património, e justifica maior violência contra pessoas e
bens. "É uma prática desordenada que tem vindo num crescendo nos últimos anos, e
com especial incidência em 2005", diz. "Antes, os agressores estudavam os alvos
e planeavam os actos, tentando diminuir os riscos. Agora, partem para os actos
com o que chamam 'fezada' e fazem razias pelos locais por onde passam durante
uma noite. Tanto faz que sejam restaurantes, bombas de gasolina ou outros
estabelecimentos comerciais. Mas se as coisas correm mal, não hesitam em usar a
arma de fogo e partir para a violência." Por outro lado, os agressores mais
jovens apenas seguem a linha da auto-estrada,"receiam afastar-se do meio que
conhecem".
O crime, garante, não é pensado e serve para satisfazer as necessidades do
momento, que tanto podem ser uns ténis, uns jeans ou o prestígio. "É o
crime da oportunidade, mais rápido e imediato, que não dá muito trabalho",
salienta Carlos Farinha. Talvez, por isso, marcado pela dita violência gratuita.
Esta pode surgir para responder ao descontrolo das situações, contra vítimas ou
autoridades, ou tão-só para se "obter mais poder" ou "estatuto social", explica
a psicóloga do Instituto da Polícia Judiciária(IPJ) Cristina Soeiro.
Percursos sem sucesso
De acordo com o perfil traçado até agora, a maioria destes jovens provem de
bairros degradados, sujeitos a fenómenos de imigração, marginalização, de
famílias disfuncionais, em que falha a supervisão, com percursos escolares
problemáticos e de baixas habilitações profissionais.
A entrada no crime nada tem a ver com questões culturais ou sociais, mas
ambientais, justifica o sociólogo do IPJ Eduardo Ferreira. "São adolescentes que
encontram no mundo do crime tudo o que sonham, até valorização social", afirma.
Alguns iniciam as experiências criminais aos 12 anos, e aos 13 já são líderes de
grupos. O reconhecimento social pelos pares sustenta um pensamento: "Eu tenho
importância, tenho uma identidade e não sou um ser social desvalorizado."
A partir daqui, e se o entendimento for este, o factor de risco para que um
adolescente se mantenha no mundo do crime é elevado. Até porque não pensam em
consequências a longo prazo. "As consequências são as imediatas: se conseguem ou
não a mercadoria ou se são apanhados", argumenta Cristina Soeiro. Acrescentando:
"Sabem que até aos 16 anos a pena maior são os centros de emergência da
Segurança Social ou os educativos da justiça", de onde fogem. O facto de
actuarem em grupo serve-lhes também de auto-protecção. "A responsabilidade de
cada um é atenuada e distribuída por todos", especifica a psicológa.
Os casos de reincidências são muitos. A única solução para estes jovens parece
ser a de respostas diferentes para uma vida diferente, tanto a nível da
prevenção como da reinserção. O presidente do Instituto de Segurança Social,
Edmundo Martinho, afirmou ao DN que tem havido um esforço nesse sentido. "É
nossa obrigação apoiar as instituições para que sejam dadas respostas mais
adequadas, mas também é obrigação da comunidade estar atenta aos sinais de
jovens em risco para se fazer prevenção atempada."
O Instituto de Reinserção Social foi contactado pelo DN para comentar o fenómeno
há mais de uma semana, mas não obtivemos resposta.
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