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Público - 13 Mar 06
Salvem o Calvin!
Graça Franco
A11 de Fevereiro (ou terá sido a 10?) " duas crianças, por causa de uma
bicicleta, mataram uma terceira". Foi em Portugal, na Aldeia do Bispo, concelho
de Penamacor. Mas o caso foi silenciado. Talvez para não nos inquietarmos demais
com os desvios da juventude. Não sei a idade exacta da vítima nem dos pequenos
assassinos. Sei só do motivo fútil do crime. Desconheço as circunstâncias e a
violência associada ao acto. E os leitores, se não forem da Aldeia do Bispo,
provavelmente nem isto sabiam. Um telefonema do Coronel Roma Torres, a pedido do
" senhor director-geral da Informação" , feito na madrugada de 12 de Fevereiro
para o JN, impediu que a notícia saísse no dia seguinte... Foi há exactamente 32
anos. "Vivia-se habitualmente" .
Durante quase cinquenta anos garantiram-nos que "não havia rapazes maus" . Não
porque os amassem demais como o bom Padre Américo mas para que não nos
maçássemos com a sua existência. E de tanto não sabermos, convencemo-nos que
eles nunca existiram! Nessa altura, já pelas bandas do Parque Eduardo VII, em
Lisboa, a vida nocturna era atribulada. A 12 de Agosto de 72, durante numa rusga
policial, foram presos 24 indivíduos "entre vadios, prostitutas e homossexuais".
Mas, como lembrava o Tenente Teixeira, podia falar-se "nos vadios e nas
prostitutas, mas não nos homossexuais".
O Regime assegurava assim, duplamente, que crimes como o da trágica morte de um
sem abrigo no Porto por um bando de pré-adolescentes nunca existiriam. E damos
por nós a pensar que esta coisa ruim só pode ser nova! Fenómenos circunscritos a
grupos de jovens em risco que de maltratados transitaram directamente para
maltratantes. Sem que o Estado e a instituição à guarda do qual teoricamente se
encontravam, tivessem sabido ou podido inverter esse nexo fatal.
Talvez sejam potenciados por fenómenos como a televisão de que os jovens
delinquentes eram ávidos consumidores, talvez dando razão às teses de Popper
sobre os riscos da nossa passividade face à violência mais óbvia e à ausência de
valores nos conteúdos difundidos. Com isto preferimos ignorar uma realidade
muito mais incómoda. A de que a "violência" está presente na infância em doses
muito superiores às desejáveis e não se resume às pequenas frases ou gestos
cruéis que todos nós, alguma vez na vida, sofremos enquanto vítimas ou
proferimos enquanto carrascos.
Preferimos ignorar, por exemplo, o fenómeno da violência na escola (o bullying
como dizem os anglófonos para designar o massacre sistemático e continuado dos
mais fracos nos recreios).
Admitir que o fenómeno, não sendo novo, pode assumir novas proporções porque o
espaço escolar deixou de apresentar as características de segurança que o
exercício efectivo da autoridade lhe concedia, é uma realidade incómoda.
Preferimos pensar que "no passa nada!". Como continuamos a jogar à cabra-cega
com a intolerável cultura praxista entre os jovens universitários. Talvez acabe
quando tivermos a foto de um primeiro-ministro com orelhas de burro, ou com a
cabeça imersa num penico, para ilustar o dia da respectiva tomada de posse... É
essa a geração que daqui a meia dúzia de anos nos há-de governar.
Dos meninos de Vila do Bispo a Censura não nos deixou saber nada. Dos meninos do
Porto talvez tenhamos ficado a saber demais, pondo em causa o anonimato a que
tinham direito para permitir a sua reconstrução e reabilitação social. Os
jornais ingleses parece terem protegido melhor a identidade dos jovens que
torturaram, até há morte um bebé de dois anos e que, depois de cumpridos os oito
anos de pena em regime fechado especial, já saíram em liberdade. Os jornais
belgas deixaram-nos apenas saber que eram da mais vulgar classe média os
pequenos de 8, 9, e 13 anos ( dois dos quais irmãos) que a 18 de Abril de 2000
em Aiseau-Presles fizeram intencionalmente descarrilar um comboio de
passageiros, provocando um morto e dezenas de feridos.
Titulava então o L"Express a propósito do caso, "Et si votre enfant faisait une
trés grosse bêtise?" No interior, voltava-se ao século XVIII e à "culpa de
Rousseau" com as suas teses do homem naturalmente bom que a "sociedade
perverte". Alertava-se para o problema dos filhos da geração de sessenta,
incapazes de admitir "interditos" ou de fixar " limites" à sua escassa prole.
Falava-se da falta de autoridade parental e do demissionismo de muitas famílias,
e do próprio Estado, face às crianças que lhe estão confiadas. Em Portugal são
15 mil os "filhos" do Estado ...
E a cada caso fala-se da televisão e dos seus efeitos perversos, enquanto
veiculo de "banalização" da violência junto dos mais pequenos sem grande
capacidade ainda para distinguir "ficção de realidade". Impossível não reler
Karl Popper e não nos recentrarmos na sua concepção de Estado de Direito. Este
"consiste antes de tudo na eliminação da violência (...) Mas, quando aceitamos
reduzir a nada a aversão geral inspirada pela violência, sabotamos o Estado de
direito (...). E ao mesmo tempo, sabotamos a nossa civilização" .
Talvez valha a pena reconsiderar a sua extensa defesa das vantagens da regulação
televisiva (em vez de enveredar por este delírio legislativo que dá à nova
entidade reguladora poderes policiais manifestamente excessivos para quase tudo,
distraindo-a daquilo em que até podia ser útil). Popper falava contra os efeitos
perversos de dependência criada nos mais jovens, enquanto principal factor da
sub-utilização dos tempos livres. Com o risco de se transformar, como recorda
Jean Baudouin, resumindo-lhe o pensamento "na instância de socialização
principal senão mesmo exclusiva das crianças, que destrói qualquer sentido
critico, já não educa para valores positivos (...) e impede a formação de
espíritos curiosos e vigilantes". Ora, como Popper recordava em Viena ainda em
88, "Não podemos esperar de uma sociedade democrática que seja mais democrática
do que os seus habitantes". Se esses cidadãos se fecharem no mais puro egoísmo e
desconhecem deveres de cidadania, entre os quais os de solidariedade e respeito
pelos mais vulneráveis, mais fracos e mais pobres, crimes como os do Porto, há
muito possíveis, serão cada vez mais prováveis.
Isto sim, valia aproveitar para pensar ou repensar. Sem entrar nas orgias
securitárias reflectidas nas respostas dadas pela maioria dos portugueses à
ultima sondagem Expresso/Sic/Renascença. Aí, a maioria defende a redução da
idade de imputabilidade dos 16 para os 14 anos. Que se ganha com isso no actual
sistema judicial?
Mais grave ainda me parecem as teses do senhor Sarkozi. Pretende ele, com base
num relatório do Instituto Nacional de Saúde francês, levar a cabo um "rastreio"
junto de todas as crianças de 36 meses para que possam ser cientificamente
avaliados os seus traços de caracter como "frieza afectiva, tendência para a
manipulação, o cinismo , a agressividade (...) falta de docilidade e
impulsividade".
Estes "indicadores de moralidade baixa" permitem identificar um potencial
delinquente. Ele não chegará a existir se a criança for de imediato sujeita a
tratamento psicológico e psiquiátrico e, caso este não baste, a medicação (com
recurso a anfetaminas, o célebre Ritaline em França). Foi isso que nos últimos
anos aconteceu nos EUA com as prescrições destes medicamentos a duplicarem de
cinco em cinco anos e um exército de 7 milhões já dependente da droga (75 mil
crianças).
O ministro francês quer acabar com o Calvin. Que todos nós sabemos que existe e
conhecemos bem. Os leitores do PÚBLICO não devem deixar. Se ele voltar a
encontrar-se com o ministro Costa vamos todos ao MAI em manif pelo direito à
birra e ao disparate! Sem ter de pagar tributo à indústria farmacêutica.
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