|
Diário de Notícias - 14 Mar 06
Cartão para famílias numerosas contribui para
fixar população
O município de Vila Real "matou dois coelhos com uma só cajadada". Com a criação
do cartão da família numerosa - que permite a casais com três ou mais filhos
aceder a descontos até aos 50 por cento -, arranjou forma de fixar população
numa região que padece da desertificação e facilitou a vida às famílias que,
devido à extensa prole, se vêem em dificuldades com as despesas mensais.
A autarquia possibilita a estas famílias um decréscimo para metade da factura da
água. Mas não se fica por aí, abrangendo taxas e licenças municipais, bilhetes
para o teatro, piscinas e campos de férias. Para além de um subsídio para
material escolar, têm reduções no Conservatório de Música, nas refeições e ATL
da rede pública de ensino.
Lagos e Vila Nova da Barquinha foram os mais recentes municípios a aprovar a
tarifa familiar da água - uma das lutas mais insistentes da Associação
Portuguesa das Famílias Numerosas (APFN), que defende a fixação do custo em
função do consumo per capita e não do consumo total . São apenas vinte as
autarquias "amigas da família" (Sintra, Coimbra, Lisboa, Porto, Ribeira Grande,
Condeixa, Aveiro, Portimão, Évora, Vila Real, Ponta Delgada, Viseu, Câmara de
Lobos, Odemira, Famalicão, Gaia, Leiria e Torres Vedras), as restantes "insistem
num tarifário que penaliza casais com mais de dois filhos", diz Fernando Ribeiro
e Castro, presidente da APFN.
Segundo a associação, as pessoas casadas, com três ou mais filhos, são
discriminadas fiscalmente, na habitação, saúde e educação. A propósito, cita um
estudo europeu de 2004 (Consultora Deloitte & Touch) que conclui que Portugal é
dos poucos países onde os casados pagam mais impostos do que os divorciados.
A penalização "é mais grave" no caso das pensões de alimentos, considera a APFN.
Comparando a situação de um casal e de duas pessoas separadas com os mesmos três
dependentes, com um rendimento bruto total de 70 mil euros, em que o pai efectua
um pagamento (a cada um dos dependentes) de uma pensão de alimentos no valor de
8 283 euros, a carga fiscal total incidente sobre o agregado familiar é
totalmente desproporcionada: enquanto os casados pagam 15 331,54 euros, os
separados ficam-se pelos 7 816,20, contesta a APFN, que defende a consagração do
rendimento per capita em todas as aferições do rendimento da família. Daí alguns
casos em que as pessoas se divorciam, embora prossigam um projecto de família.
"É o chamado planeamento fiscal", ironiza Ribeiro e Castro.
Outra crítica remete para o abono de família. A APFN pede a sua actualização
pelo mesmo critério das propinas, os arrendamentos e os impostos sobre o
património imobiliário. Considerando que contribuem para o Estado Social com
descontos e os próprios filhos, a APFN defende que este "pormenor" devia ser
indexado às reformas, acabando com uma carreira contributiva "profundamente
injusta". Na educação, não poupa críticas ao "escândalo dos livros escolares,
caríssimos e substituídos todos os anos".
[anterior] |