OS ALUNOS portugueses passam mais tempo na
escola e têm mais disciplinas do que os
finlandeses. Mas, enquanto os primeiros estão
nos últimos lugares das avaliações
internacionais da OCDE, os finlandeses são
apontados como o caso a seguir.
Na Finlândia, as crianças entram para o 1º
ano quando têm 7 anos e até ao fim da
escolaridade obrigatória têm tudo gratuito: o
ensino, os manuais e os materiais escolares, uma
refeição quente diária e o transporte, quando a
escola fica a mais de cinco quilómetros. Quando
chegam ao primeiro ano (a pré-primária é
facultativa) já levam consigo o gosto por
histórias e pela leitura, transmitido pelos
pais.
Desde muito cedo familiarizam-se com o
computador e a Internet. O ênfase do currículo é
posto nas disciplinas nucleares: a língua
materna, a matemática e as ciências. A
experimentação começa logo nos primeiros anos do
ensino obrigatório na sequência de uma reforma
introduzida em meados dos anos 90, que
estabeleceu como meta a melhoria dos resultados
às disciplinas de matemática e de ciências.
Os professores, uma das profissões mais
respeitadas na Finlândia - só cerca de 15% dos
candidatos conseguem ingressar no curso, cuja
duração varia entre cinco e seis anos -
receberam então uma formação suplementar. Os
laboratórios foram modernizados e o ensino
passou a ter um carácter mais experimental e
prático.
Em Portugal, sucessivas reformas, quase
tantas quantos os ministros que tiveram a pasta
da Educação, não conseguiram inverter os
resultados internos e internacionais dos nossos
jovens. No ano passado, 70% dos alunos do 9º
tiveram negativa a matemática e nas conclusões
do PISA 2003 (relatório internacional que avalia
as competências educativas na OCDE), Portugal
ficou nos últimos lugares.
Algumas medidas da actual equipa da Educação
têm sido bem recebidas nos círculos ligados a
este sector porque, dizem, podem trazer algumas
mudanças nos desempenhos. Os professores do 1º
ciclo estão a receber formação suplementar a
matemática e o ensino de inglês foi alargado a
este nível de ensino.
Portugal adiado
. Com a divulgação do relatório assinado por
Andreas Schleicher (ver caixa) -
que mais uma vez apontou o caso finlandês como o
modelo a seguir pelos restantes países, por ser
precisamente na Educação que se joga a
competitividade da economia da Europa - o
EXPRESSO ouviu as opiniões de dois professores
da Universidade de Coimbra, José Manuel
Canavarro, especialista nesta questão, e Carlos
Fiolhais, um físico que tem reflectido sobre o
sistema de educação.
«A grande coesão territorial, o
facto do ensino obrigatório estar dependente do
poder local, a grande participação dos pais e
autonomia - há uma margem para definir o
currículo considerado mais adequado para os seus
alunos - contribuem para estes resultados»,
afirma José Canavarro, secretário de Estado da
Educação no último Governo do PSD/CDS.
Para Canavarro, os alunos portugueses
deveriam dispersar-se por menos disciplinas e
concentrar-se no português, matemática e
ciências e passar menos tempo na escola.
«No 3º ciclo temos 13 a 15
disciplinas, ou seja, um currículo às migalhas,
que não faz sentido», refere.
Carlos Fiolhais realça a importância da
formação dos professores na Finlândia, oferecida
exclusivamente pelas universidades.
«Em Portugal muitos professores do básico não
estão familiarizados com a matemática e as
actividades experimentais feitas nos seus
cursos, ditos superiores, deixam muito a
desejar». Outro aspecto que Portugal deveria
imitar é a importância dada às línguas.
«Os currículos também beneficiariam com mais
matemática (onde se desvalorizou a memorização e
a mecanização) e mais ciência», que tem de
ser experimental.
Mas a transposição mecânica do modelo
finlandês para Portugal «pode não
funcionar», devido ao atraso escolar, social
e cultural, alerta. «Teremos de
transpirar e fazer o nosso próprio caminho»,
conclui.