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Expresso - 25 Mar 06
Educação - um projecto de responsabilidade
Cassiano Reimão
A educação é sempre um projecto de futuro,
pondo-nos e pondo o presente em causa, propondo a instauração de critérios que
permitam expressar a dignidade do homem como pessoa
«A interrogação de todas as interrogações para a
humanidade - o problema que subjaz a todos os
outros e que mais do que qualquer outro suscita
o nosso interesse - é a determinação do lugar
que o homem ocupa na natureza e a determinação
das suas relações com o universo das coisas»
T. Huxley
EDUCAR consiste em oferecer e transmitir um modo
de viver e de entender a vida, em torno de um
projecto responsável; educar é acreditar na
perfectibilidade e no desenvolvimento do homem, na
sua capacidade para se aculturar; é possibilitar a
emergência de uma subjectividade livre, autónoma e
solidária em cada um.
Numa sociedade em rápida e profunda mutação
cultural, política, económica e social, onde surgem
novos saberes, novas concepções e novas práticas
educativas, exige-se uma reflexão, contínua e
aprofundada, em torno das diversas questões do
domínio da educação; as problemáticas da exigência,
da disciplina e do rigor são algumas delas. Estas
dimensões são intrínsecas ao acto educativo, uma vez
que este implica dois seres pessoais (o educando e o
educador), livres e autónomos e, consequentemente,
responsáveis; segundo Miguel Torga, a liberdade é
«disciplina, consciência e autolimitação».
Na modernidade, a liberdade foi considerada «o
fundamento de todas as virtudes». Mas não pode ser
exercida sem exigência, sem responsabilidade e sem
disciplina. Esta constitui a forma de nos
respeitarmos a nós mesmos e aos outros, não só como
experiência, mas também como modo de estar na vida.
A educação é uma viagem com o outro, na
construção da história de cada um; é, por isso, um
processo que exige tempo, disciplina, rigor,
disponibilidade e responsabilidade, promovendo uma
renovação corajosa e sapiente, incutindo um impulso
criador, numa interrogação constante, orientando
para a descoberta da verdade, na fidelidade de cada
um a si mesmo, apontando para o sentido profundo das
coisas, num reconhecimento pleno da alteridade,
possibilitando a incorporação da perspectiva do
outro na própria identidade.
Contrariando o instituído, a educação é sempre um
projecto de futuro, pondo-nos e pondo o presente em
causa, propondo a instauração de critérios que
permitam expressar a dignidade do homem como pessoa;
por isso ela é, em si mesma, um combate pelo homem.
Dominado pela massa gigantesca da informação,
encandeado pelo imperativo da investigação e
condenado pelo ritmo da história à acção incessante,
o homem tem de ser fiel a si mesmo, reagindo contra
todas as tendências em reduzi-lo, como se a natureza
se confinasse a uma mera função instrumental na
sociedade da concorrência e como se a história
pudesse ser pensada em termos de destino.
Procurar manter esta fidelidade ao homem e à
própria humanidade é da competência de uma reflexão
profunda estabelecida em torno da educação, uma vez
que nada há de verdadeiramente humano que não seja
expressão da vida do espírito ou da força da
actividade do pensamento que rompe a clausura do
espaço mental, liberta o tempo da dispersão e do
transitório, repondo o sentido de um diálogo aberto
e responsável nas grandes encruzilhadas da condição
humana, sobretudo face ao imprevisível dos choques
da História.
Afirmar uma reflexão filosófica, crítica,
profunda e objectiva, no contexto da educação,
enquanto projecto de responsabilidade, numa
sociedade em permanente transformação, é potenciar a
fidelidade a essa dimensão integral do homem,
tentando reencontrar e activar todas as forças vivas
do espírito para que, tanto na ordem do
conhecimento, como na da ética, a sede e o sentido
da verdade, bem como as exigências da sua busca
constituam fermento activo na cultura do tempo
presente.
Viver em disciplina e em responsabilidade é viver
de um modo humanista; pois o humanismo consiste em
permitir a tomada de consciência da nossa plena
humanidade como condição e interrogação, como
situação e como projecto; o humanismo apresenta um
programa de vida, apoia-se nos factos, mas
orienta-se pela força de um ideal (contém uma
proposta de sentido); constrói itinerários de
esperança. Só deste modo o educando define um
sentido para a sua vida e estrutura a sua
identificação pessoal, de modo a assumir um papel no
mundo.
Uma educação, como projecto de responsabilidade,
é uma educação ética; e uma educação para a ética
impõe-se, hoje, como um dos deveres maiores da
escola, ao propor apostar na perfectibilidade e na
esperança, num interrogar constante, orientando para
a descoberta da verdade, na fidelidade de cada um a
si mesmo, no contexto de uma cultura.
Uma educação centrada nos valores comuns e, em
particular, nos valores éticos, tendo como base a
pessoa, fundar-se-á em relações, orientar-se-á pelo
futuro da esperança e será alicerçada no sentido do
serviço aos outros e nos princípios de uma sólida
cooperação. Numa época em que, na sequência do
«desencantamento» da sociedade, apesar de um notório
crepúsculo do político, os Estados vêm assumindo o
monopólio da definição absolutizante da formação dos
cidadãos, anulando o real «espaço público» e
ameaçando a democracia a partir do interior dela
mesma, qualquer projecto educativo só terá sentido
no total respeito da pessoa e da sua liberdade e
independência; é por isso que a problemática dos
valores e a reflexão ética em torno da educação são,
hoje, urgentes e necessariamente fundamentais; há,
na verdade, que viabilizar as possibilidades de um
«espaço público» comum, onde a educação, enraizada
no passado, situada no presente e atenta ao futuro,
decorra num movimento pedagógico (sério, rigoroso e
exigente) de procura e de construção do saber que,
em contacto com a vida, atenda às coordenadas
multidimensionais da existência humana, implicando
mudanças radicais: de uma cultura da contabilidade
para uma cultura da responsabilidade; de uma
pedagogia da instrução para uma pedagogia da
justiça; de uma cultura do individualismo para uma
cultura da participação; e de uma cultura da apatia
para uma cultura da esperança.
Só assim será garantida a permanência de uma
identidade cultural; pois uma cultura sem esperança
e sem utopias, impossibilitada de se transmitir, é
uma cultura que decide morrer.
Professor
universitário, ex-membro do Conselho Nacional de
Educação
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