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Expresso - 25 Mar 06
Síbaris
Luís Fernando Veríssimo
A monogamia e a abstinência sexual eram
consideradas perversões imperdoáveis e punidas com chicotadas, nos raros dias do
ano em que o chicoteador oficial não faltava ao serviço
«Sibarita. (Do gr. Sybarites, pelo lat.
sybarita). Adj. 2 g. 1. De, ou
pertencente ou relativo à antiga cidade grega de
Síbaris (Itália). 2. Diz-se de pessoa dada à
indolência ou à vida de prazeres, por alusão aos
antigos habitantes de Síbaris, famosos por sua
riqueza e voluptuosidade» (Novo
Dicionário da Língua Portuguesa, Aurélio Buarque
de Holanda Ferreira).
Se você imaginar a Itália como uma grande e bem
torneada perna feminina, então o Golfo de Taranto
fica naquela parte de baixo, a mais sensível a
lambidas, do pé da Itália. Síbaris era ali onde a
Costa de Taranto faz uma curva suave, e nas noites
de Verão o vento traz o perfume dos jasmineiros de
Alexandria. Os muros de Síbaris eram cobertos de
heras afrodisíacas. Os Guardiões do Portal - uma
casta cuja principal função era apalpar quem entrava
na cidade, não para descobrir qualquer coisa
escondida mas pelo prazer de apalpar - faziam um
teste com quem quisesse a cidadania sibarita,
envolvendo questões de matemática e das artes da
indústria e do comércio. Quem passasse no teste era
mandado embora. Quem não passasse entrava. Quem
tentasse subornar os Guardiões entrava por
aclamação.
A alfândega de Síbaris era rigorosa: só deixava
passar supérfluos. As coisas úteis era apreendidas e
mandadas para a cidade vizinha de Crotona, onde
todos trabalhavam e eram conscienciosos e correctos.
Mas Síbaris era mais rica do que Crotona porque era
lá que os crotonenses gastavam seu dinheiro nos
fins-de-semana. Por lei, todos os crotonenses tinham
que estar fora de Síbaris ao amanhecer de
segunda-feira, senão seriam presos. A lei raramente
era cumprida porque a polícia de Síbaris nunca
acordava antes do meio-dia.
Cada sibarita podia ter sete concubinas e sua
mulher um escravo etíope, mas às vezes trocavam. As
orgias duravam vários dias e só terminavam quando os
sibaritas começavam a cantar suas próprias mulheres,
sinal de que já não enxergavam mais nada. A
monogamia e a abstinência sexual eram consideradas
perversões imperdoáveis e punidas com chicotadas,
nos raros dias do ano em que o chicoteador oficial
não faltava ao serviço. No caso do infractor ser
sadomasoquista, sua punição era ficar olhando
enquanto o chicoteador oficial chicoteava outro.
Sexo grupal era qualquer acto envolvendo mais de 50
pessoas. A justiça, em Síbaris, era dividida. Havia
juízes togados para os casos de direito e juízes nus
para os casos de paixão. O bestialismo era tolerado,
salvo excepções como o sexo com abelhas.
Era Rei de Síbaris Flanfo, chamado o Sete
Queixos, que vivia imerso numa banheira com óleos
aromáticos. Foi lá que, certo dia, Flanfo recebeu um
emissário de Crotona, que propôs a fusão das duas
cidades. Flanfo, chamado o Sete Queixos, mastigando
um pardal caramelizado, perguntou que vantagens
teria Síbaris juntando-se a Crotona.
- Traremos o nosso dinheiro - disse o emissário.
- Nós já temos o vosso dinheiro - disse Flanfo.
- Traremos a indústria, a ciência, a
contabilidade e as armas.
E então Flanfo, porque estava na hora da sesta
que tirava de meia em meia hora, fez um gesto
desrespeitoso que o emissário tomou como uma
negativa, e um insulto. E só depois de acordar da
sesta, inalando o seu pó de papoilas, Flanfo foi
informado que Crotona declarara guerra a Síbaris.
Mandou chamar o seu primeiro-ministro, Badan, para
saber o que fazer.
Badan foi encontrado na cama com duas concubinas
e um cabrito e convocado ao palácio, onde informou
ao rei que Síbaris precisava se preparar para a
guerra. Os homens deveriam se armar e erguer
barricadas. As mulheres deveriam desfiar suas sedas
caras e fazer ataduras. E o rei Flanfo deveria sair
da sua banheira e fazer um pronunciamento ao povo,
mobilizando-o para a defesa. Com grande dificuldade,
Flanfo foi até a ágora para conclamar o povo à
guerra. Mas não havia ninguém na ágora. Estavam
todos na praia. Quando parou de falar, o rei Flanfo
só ouviu o silêncio, o borbulhar das fontes e os
cachorros. Voltou para o palácio, porque estava na
hora da sua sesta.
Síbaris foi invadida e destruída por Crotona em
510 a.C. Não sobrou nenhum vestígio da cidade. Só
recentemente, em 1965, uma expedição arqueológica
conseguiu determinar a sua localização exacta, ali
onde a Costa de Taranto faz uma curva suave, e nas
noites de Verão o vento traz o perfume dos
jasmineiros de Alexandria. Parece que descobriram
cântaros para vinho, algumas estranhas estatuetas
com formato lúbrico e uma garra de ouro na ponta de
uma longa haste, que, segundo os pesquisadores, só
podia ter sido usada para coçar o pé.
Mas até hoje ninguém localizou as ruínas da
cidade de Crotona.
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