|
Diário de
Notícias - 27 Mar 06
Da burocracia à
exigência
João Morgado
Fernandes
O excesso de marketing pode ser tão fatal para a política como a sua
falta. José Sócrates tomou o gosto aos cerimoniais tecnomediáticos e não há
semana em que não anuncie um pequeno ou grande mundo novo, em actos que devem
tanto à Hollywood dos Óscares como à Silicon Valley dos microchips.
A oposição, à falta de argumentos sobre a substância, prende-se a essa deriva
propagandística e cai na armadilha que ela própria lança.
O País precisa, porém, de auto-estima. Precisa de outras coisas, é certo. Coisas
mais urgentes, como uma maior produtividade, para referir a mais premente. Mas
todos concordamos que a auto-estima anda um pouco por baixo. Somos os piores em
quase todos os rankings e, na verdade, ninguém sabe como dar a volta a
isto. Nesse contexto, faz bem o Governo em insuflar o marketing, nem que
seja apenas para criar o tal clima de confiança de que a economia precisa.
Perdoa-se, por isso, que o primeiro- -ministro, ao anunciar "os primeiros 333
passos" contra a burocracia, tenha incluído coisas que já vinham do guterrismo
(as caixas de correio electrónico), outras que já estão em funcionamento (o
Diário da República de acesso livre na Internet), e ainda outras que o tempo
se encarregará de dizer se são concretizáveis.
Perdoa-se o pecadilho do exagero, e mesmo o da vaidade, porque, globalmente, as
medidas anunciadas vão no caminho certo. O simples cidadão ou a mais promissora
empresa verão as suas vidas facilitadas e daí só pode vir bem ao mundo. Mas o
excesso de marketing em que a iniciativa foi mergulhada corre o risco de
deixar passar uma mensagem de facilitismo, perigoso em certos casos.
Alguma da burocracia que nos rodeia é puro ruído. Papelada inventada para
sustentar burocratas. Mas nem sempre assim é. Aquilo a que por vezes se chama
burocracia é, na verdade, um conjunto de passos, estruturalmente relacionados,
destinados a garantir direitos e a preservar bens comuns. O ambiente e o
ordenamento do território são disso exemplo - a necessidade de pareceres, por
vezes de entidades contraditórias, pode ter razão de ser. Ou, por exemplo, o
simples acto de fazer obras dentro de casa pode acarretar riscos imprevistos
para terceiros se não obedecer aos preceitos correctos. A burocracia é, por
vezes, um travão para o disparate.
A redução da burocracia implica responsabilidade acrescida para os agentes
envolvidos, a começar pelos beneficiários. Será que estamos preparados para esse
acréscimo de exigência?
[anterior] |