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Público -
30 Mar 06
Exma sra. ministra da Educação Porquê, e para
quê, ciências?
Fernando Ornelas Marques
Enquanto vai indispondo o país com o encerramento de escolas para aliviar as
contas do Estado, bem podia ter alguém a tratar da reconversão dos programas de
ensino para contentamento de uma grande parte de nós: estudantes, pais e
professores. Os actuais programas de ciências são obsoletos e extensíssimos, e
têm sido responsáveis, em grande parte, pela fraca qualidade e eficácia do
ensino das ciências, e pela falta de qualidade dos manuais de ensino. Urge,
portanto, alterar radicalmente os programas, os manuais e os métodos de ensino.
Senhora ministra, como se alteram os programas de ciências? Se fizer como todos
os seus antecessores, acabará não fazendo nada ou cedendo a pressões de feudos
há muito comodamente instalados. Portanto, o ensino continuará em degradação
constante e inexorável. Há sempre a possibilidade de recurso às medidas
administrativas de melhoramento das estatísticas só para parecermos melhores do
que realmente somos junto dos parceiros europeus, mas não me parece ser esse o
seu estilo de actuação. Venho portanto fazer-lhe uma proposta, através de carta
pública, já que parece ser o único meio ao qual é sensível.
Comece por reflectir, ou mandar reflectir, profundamente sobre o ensino das
ciências, para de seguida estar (alguém estar) habilitada(o) a responder às
seguintes questões: o que é a ciência ou, mais simples, como se faz ciência? Por
quê (motivação) e para quê (objectivos) o ensino das ciências? O quê (programas)
e como (metodologias) ensinar ciências? Com quem (agentes de ensino) e para quem
(público alvo) o ensino das ciências? O que é relevante nas ciências para um
aluno que cumpre apenas o ensino obrigatório de nove anos? Quando souber dar
resposta a estas questões, está no bom caminho para elaborar excelentes
programas de ciências que prestem no futuro (médio/longo prazo) um grande
serviço ao seu país.
Entretanto, aproveito para lhe recordar alguns pontos básicos importantes do
ensino das ciências e, também, da matemática, para que no fim do processo de
revisão curricular esteja clara a sua grande importância e sejam ensinadas aos
nossos jovens todos os dias da semana. Ao contrário do que é comum ouvir, a
matemática não é importante para nos ensinar a fazer as contas da mercearia ou
outra banalidade qualquer; é principalmente porque nos ensina e nos habitua a
resolver problemas de forma lógica e racional. Deste modo, até se torna de
grande utilidade para a resolução racional e lógica dos problemas pessoais
diários. É uma questão de postura. Mas se é necessário saber resolver problemas
(o que não é o caso em Portugal, se acreditarmos nos resultados do Pisa!), não
menos é saber formulá-los. E este é um dos grandes papéis da ciência, e que é
preciso ensinar aos nossos jovens: como se formula um problema. Mas também é
necessário estimular a curiosidade, a imaginação, a criatividade, a capacidade
de relexão e o trabalho na forma de projecto. Nada melhor para tal do que
aprender ciência. O cientista mais bem sucedido é aquele que melhor sabe
formular um problema e o que maior imaginação e criatividade utiliza na pesquisa
de novos problemas e novas soluções. Afinal, o mesmo se aplica (ou devia
aplicar) ao comum dos cidadãos.
Se a revisão curricular for bem sucedida, os alunos passarão a gostar muito mais
da escola e, se tudo correr como é expectável, diminui-se o elevado grau de
abandono escolar e, quiçá mesmo, poderá reabrir algumas das escolas que tem
encerrado. Professor na Universidade de Lisboa e Investigador no Laboratório
Associado IDL
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