29 de Novembro de 2000 - Ecclesia

Carta às Famílias
D. Jorge Ortiga


Para que Natal 2000 seja Festa para Jesus Cristo

Entrou nos costumes da sociedade moderna formular votos de Festas de Natal Felizes. Atrevo-me a bater à porta de todas as famílias - cristãs ou não -, para aí deixar uma proposta de peregrinação interior. Aceitando-a, estou persuadido, Cristo fará experimentar festa no coração de todos e todos oferecerão Festa a Jesus pela comemoração dos 2000 sobre o seu nascimento.
Pessoalmente, acredito que onde entra Jesus as coisas não ficam na mesma. Aí acontece mudança, aí surge a conversão.
Quero deixar - para cada semana - um pequeno pensamento que sintetizo num slogan. Formulo algumas perguntas. Só pretendo sugerir gestos concretos - pessoais e comunitários - que, oportunamente, serão colocados no Presépio para que algo de diferente aconteça.
Não conheço o itinerário que cada um seguirá. Sei que se a proposta foi, interiormente, acolhida, se as homilias as propuserem como sugestão de iniciativas a responder aos problemas reais da comunidade territorial, germinará um conjunto de atitudes - grandes ou pequenas - que gritarão que Cristo é de hoje.
Peço desculpa por este carta que poderá tornar-se um "jogo" a contar na linguagem ou na comunicação social. Não haverá vergonha de conversar partilhando o que realizamos como "prenda" ao Amigo? Tudo se tornará estrela a mostrar que é urgente e possível um mundo diferente.
Vamos percorrer, em Diocese, este itinerário? Só assim a festa do Jubileu acontecerá. Eu procurarei caminhar. Não sei se serei capaz de ir na primeira fila. Mas ninguém irá ou está só pois eu estou com aqueles que, por Jesus, em tempo de Advento, descobrem gestos para perpetuar a Sua presença.
Na mesma família e partilhando na única mesa do Amor de Cristo para O manifestar.

+Jorge Ortiga, Arcebispo


JUBILEU 2000, E DEPOIS? 
O primeiro Natal, mistério da Encarnação do Filho de Deus e Advento do Messias foi precedido e preparado pelo anúncio de João Baptista que sofreu o destino dos profetas: a sua mensagem não foi acolhida, a sua pessoa foi rejeitada. "Uma voz clama no deserto" (Lc 3,5) é a frase que define a actividade deste precursor e a resposta dos ouvintes.
Eis o grande risco do Jubileu comemorativo dos 2000 anos desse primeiro Natal: muitas iniciativas, numerosas participações mas o terreno da vida pessoal e comunitário pode continuar árido porque fechado à acção renovadora.
O Advento e Natal podem tornar-se graça para recuperar, porventura, o tempo perdido. Há, porém, sempre uma hora onde o dom de Deus pode tornar fértil o deserto como no encontro de Jesus Cristo com Zaqueu (Lc 19, 1-10) ou com a Samaritana (Jo 4, 1-41).
Repassando o itinerário que o Santo Padre foi propondo à Igreja na preparação e na celebração do Jubileu, ouso deixar quatro palavras como referências para uma séria reflexão. Não será oportuno tornar este tempo novo e diferente? Teremos capacidade de inverter o sentido e intensificar o ritmo da caminhada? 

1.ª Semana: Quero conhecer a Palavra: "Eu não trairei" 
Na plenitude dos tempos, Deus faz ouvir a Sua Palavra definitiva na história dos homens (Gl 4,4; Heb 1,1-3). A Sua voz ecoou nas montanhas e lagos da Palestina pela pregação do Seu Filho. A ressonância da Sua mensagem acompanha todas as épocas. Nada perdeu da sua actualidade na vertigem da mudança das correntes de pensamento; a verdade que ela encerra permanece viva e sempre orientadora de sentido. 
Hoje a concorrência ideológica e a força da publicidade ameaçam abafar e confundir. Cristo continua presente e a Sua voz pode ser captada na confusão das ondas hertzianas ou na modernidade da navegação.
É neste contexto que deve crescer o interesse pela Palavra. Precisamos de a entender para a colocar como luz no caminho. Necessitamos de a aprofundar na leitura meditada, no estudo exegético para nos situarmos nas suas razões e construir sobre alicerce firme (Mt 7, 24-26). Ao mesmo tempo urge aprender a"ouvir" a Palavra silenciosa dos acontecimentos, a decifrar os sinais dos tempos. Aí, dum modo particular, Cristo comunica a Sua mensagem, interpela-nos. É a escuta da Palavra de Deus, proclamada na Escritura, que nos ensina a captar a Sua voz nos acontecimentos. 
É mais fácil e cómodo abandonar e adaptar-se. Convido os cristãos a persuadir-se da maravilha da fidelidade.
No íntimo da consciência, nos espaços dos grupos, nos comportamentos diários, marquemos este Advento e este Natal com a alegria de repetir, na multiplicidade das situações : "Eu não trairei" a Palavra que me esforço por conhecer. 
Como acolho a Palavra dominical? A Eucaristia deixa-me um "programa"? Que tempo dedico à leitura da Palavra de Deus? Possuo a Sagrada Escritura? Tenho a coragem de a ler e meditar alguns minutos diariamente? Já tive a coragem de me encontrar com outros para efectuar a Lectio Divina? Encontro-me em grupo para interiorizar e reflectir nos conteúdos? As reuniões dos grupos iniciam-se com uma pequena leitura como ponto de referência? Vivo preocupado(a) com a formação? Participo em cursos, encontros, conferências? Interesso-me, positivamente, pelas coisas da doutrina cristã ou navego na opinião dos outros ou da comunicação social? Dá-me gosto meditar e guardar a palavra como Maria? 
Onde poderei aceitar uma proposta? Que compromisso assumir a partir de agora e como marca do Jubileu? Não deveria conhecer melhor para nunca "trair" a fé? Sou traidor ou anunciador? 

2.ª Semana: Quero viver Cristo no irmão: "Eu não me distrairei" 

Na Encarnação Cristo fez-se Homem entre os homens (Jo 1,14). O mistério da Encarnação revela-se na experiência de Jesus que se fez um entre tantos para carregar sobre si os dramas e perplexidades de todos (Mc 10,45). Também para Ele a vida não foi fácil, mas viveu atento às necessidades, descobriu-as, foi ao encontro e não se contentou com palavras de consolação. Agiu: servindo, libertando, fazendo o bem, dando a vida (Jo 10,11; Act 10, 38). 
O mundo moderno oferece-nos maravilhas, deslumbra-nos com as suas conquistas. Apetece viver e como é belo gostar de viver saboreando as maravilhas diárias. Ainda temos tantas lamentações e esquecemos o positivo e maravilhoso que habitam connosco.
Mas a nossa sociedade é de contrastes. Poderia ser gáudio para todos mas os problemas não o permitem. Há sofrimento e dor nas nossas ruas, a fome e a falta de cuidados elementares escandalizam, as zonas sombrias das cidades envergonham, os rostos de algumas crianças escondem sofrimento e miséria, os passos lentos dos idosos carregam solidão e tristeza, o trabalho infantil ainda aflige, o ambiente de trabalho com os ordenados em atraso ou suscitando necessidade de novos empregos são constantes, as famílias endividam-se e vivem enganadas com as promessas fáceis de quem detém o poder dos meios e das decisões... O "rosário" das misérias poderia continuar e o Natal nega-se todos os dias. Muitos não podem usufruir da paz anunciada, as "palhas frias" continuam a ser o único aconchego de tantos. 
Surpreendente é que neste meio nos contentemos com as prendas! Corremos e procuramos. Damos para receber. Trocamos coisas entre nós, em gestos convencionais de estação. 
Como não descobrir a "caridade" cristã e assumir a identidade a partir dos comportamentos diferentes? É possível e necessário.
Penso que poderemos viver distraídos. Tudo parece bem num olhar das aparências. Contentes com o que se tem, passamos alheios aos problemas dos outros e intervimos pouco. 
Na caridade como sinal marcante do Ano Santo, quero pedir a todos : "Não me distrairei". 
Que lugar ocupam os outros na minha vida? Como considero os meus familiares e amigos? Sou amigo ou espero dos amigos? Construo amizade ou sou oportunista? Aceito a todos ou tenho privilégios denunciadores dum racismo ou duma xenofobia? Sou concreto nas delicadezas ou exigente no que considero os meus direitos? No trabalho tenho sensibilidade e respeito pela dignidade ou acomodo-me ao pessoal e particular? Exploro e insulto? Julgo ou minto? Como luto pela dignificação de todos, em todas as idades e ambientes?
Que predilecção dedico aos pobres? Empenho-mo para que a miséria moral ou material desapareça ou se atenue na minha rua ou aldeia? Marginalizo os mais pobres ou provoco exclusão social? Vivo distraído e deixo correr o destino de muitos na fome, na miséria, nas casas indignas, na falta do indispensável? Que coração sensível possuo?
Não terei outras opções concretas na vida para dizer que Cristo entrou na minha vida e quero viver, como Ele, para os outros? Intervenho ou vivo distraído perante a vida dos outros? 

3.ª Semana: Quero tomar consciência das desigualdades e injustiças: "Não me resignarei" 
Não poderemos dar um "depois" ao Ano Santo? É importante. 
O mundo é propício às críticas e denúncias dos erros dos outros. Acontece na Igreja e na sociedade. Não falta quem dê ordens e se situe no direito de se pronunciar a propósito de tudo. 
Para toda a pessoa humana é fundamental pensar no que seria necessário para uma vida mais digna. Qualquer sociedade se propõe um programa de maior equilíbrio e realização das aspirações dos seus membros. Na verdade, estamos sempre marcados pela nostalgia do mais e nunca nos satisfazemos. 
Por outro lado, o quotidiano atesta situações que negam a experiência da felicidade e manifestam a imperfeição como companheiro. As coisas correm mal no sector pessoal, no público e no eclesial. Há gritos e dramas que não nos deixam tranquilos. Queremos mais e melhor e urge denunciar os fenómenos de exploração e oportunismo que fazem dos mais fracos as suas vítimas.
É necessário semear a esperança como ideal e como caminho. Pensar a esperança traduz-se em descortinar um lado diferente, em habituar-mo-nos ao positivo para com ele fazer história nas nossas conversas e desaires. Com este pensar devemos agir em esperança, alegria, acreditar que o mundo da justiça, da fraternidade, da igualdade, está a germinar. Há uma aurora dum povo mais unido e dum mundo mais humano que nos apaixonou. 
Semear esperança é colher alegria do que foi sonhado. Discernir o positivo latente na família, na vida pessoal, no ambiente de trabalho, na sociedade, na Igreja, na paróquia é hino de louvor à acção silenciosa de Deus presente na história da humanidade. Urge falar, escrever, anunciar, proclamar o positivo da história actual e encher os nossos encontros e conversas nesta orientação.
"Não me resignarei" ao ambiente negativo das injustiças e negativista dos pessimistas. 
Não será triste a sociedade que me rodeia? A comunidade a que pertenço respira amor e comunhão? Acredito que é possível e urgente mudar muitas coisas? Sou pessimista e crítico em relação a tudo e todos deixando o compromisso escondido no comodismo? Não me fecharei resignando-me a situações - próprias ou alheias - que poderiam ser diferentes e mais humanas? Não me incomoda muita coisa? Estou contente com a paróquia e com a comunidade civil? Sou estranho ao mundo e percorro a estrada do fechar os olhos? Não vejo a miséria que me rodeia? Não descortino situações de desigualdade gritantes? Não me apercebo da exclusão social? Não sou sensível aos dramas da droga, das famílias divididas, do álcool, da exploração?
Por Cristo não me resignarei e agirei com coragem de quem sabe que muita coisa pode mudar. 

4.ª Semana: Quero mostrar, no mundo, que o cristão é diferente: "Não me acomodarei" 
Cristo marcou, com o Seu nascimento, uma nova era. O tempo adquiriu um novo significado e a graça agiu na transformação da sociedade. O Reino de Deus iniciou-se e os "novos céus e a nova terra" (Ap 21,1) principiaram a ser vislumbrados entre os homens e por causa dos homens.
A sociedade e a Igreja estão dominadas por uma certa anemia ou pouco empenho para acreditar na transformação e mostrar que é necessário e possível mudar muita coisa. Urge intervir e trabalhar para que a mudança aconteça e para que a história readquira um ritmo novo. As águas correm num sentido de comodismo e de engano. Só trabalhando, em contracorrente se vislumbrará o projecto iniciado por Cristo. Ele está presente na história mas a plenitude ainda não aconteceu.
Cristo quis protagonizar um mundo novo em favor da humanidade. Para isso, propôs caminhos, empenhou-se e denunciou. Não pactuou com as situações de injustiça social e política. Consciencializou-se e viveu da intervenção opondo-se ao poder injusto e ao ritualismo opressor da religião reinante. Agiu dum modo diferente e acreditou no valor do homem por si colocando a religião ao serviço da sua salvação. Estava com todos e libertava. Falava e denunciava recebendo aplausos ou aceitando juízos e condenações.
Precisamos de maior coragem para intervir - na Igreja e na sociedade - e marcar outro estilo. Aqui ousaria dizer : eu farei a diferença. Adaptar-se é permitir que tudo continue na mesma ou que progrida no mal. Ser espectador é cómodo e pode enganar. Não é possível tolerar a passividade eclesial e civil. Cristo não deixou a história na mesma. Deu-Lhe o seu cunho particular, único, insubstituível. Hoje falta a minha palavra e a minha acção para que algo, talvez lentamente, mude. As pressas são ilusórias. Importante é nunca perder de meta a dignidade do ser humano. 
Marcarei o Jubileu com a atitude de "não me acomodar" à mentalidade corrente dizendo que é possível ser diferente. 
Acredito que é necessário tornar a Igreja e o mundo diferentes? 
Por Cristo e com Cristo não poderei dar o meu contributo para que o amanhã seja melhor por causa do Jubileu? Os talentos que Deus me deu não podem ser insubstituíveis na minha comunidade? No meio ambiente onde vivo não terei muito para realizar com um pouco de vontade? Serei tão incapaz que me limite a cumprir ordens de quem ordena? Sou participativo e luto para mudar o mundo? Onde estará a coragem de quem acredita no amor de Cristo? 
Fazer a diferença pode ser a grande conclusão do Jubileu.
"O Verbo fez-se carne e habitou entre nós". 
Alegria. Festa. Paz. Aurora de um Mundo Novo.
Bom Natal com Jesus Cristo para todos.

+ Jorge Ortiga, Arcebispo 
 

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