12 de Novembro de 2000 - Jornal de Notícias

A sorte do colo de uma ama legal 

FERNANDO BASTO

Uma mão muito pequenina, toda colorida, estampada numa folha de papel é a recordação que a ama legalizada Felicidade da Glória guarda do Daniel, uma das primeiras crianças que recebeu em sua casa.
Foi sempre doméstica e ajudou a criar os seus sobrinhos. Ficou-lhe o gosto pelo trabalho com crianças, o que a levou, há quatro anos, a candidatar-se ao Programa de Amas da Segurança Social.
O primeiro grupo de bebés que recebeu já está no infantário, por terem todos completado três anos de idade.
"Afeiçoámo-nos muito uns aos outros e, por isso, os pais preferiram que as crianças ficassem aqui, em vez de irem para uma creche. Agora, sempre que podem, vêm cá visitar-me regularmente", contou.
À sua volta, giram quatro novas "aquisições". A primeira chega, habitualmente, às 7,30 horas e a última faz as despedidas às 19,30 horas. 
Tem a ajudá-la a sua madrinha, que vive com ela. Como uma espécie de avó, reparte a atenção por todas as crianças, ajudando-as na suas brincadeiras, cuidando da higiene e preparando as refeições.
E quando o tempo o permite, leva-as a passear até ao jardim mais próximo, pois sabe que é importante fazê-las apanhar um pouco de ar e Sol.
"Chego ao fim do dia cansada, mas também satisfeita, porque gosto muito de crianças", referiu.

Recibo verde
A sopa de legumes e carne já estava nos pratos. À volta da mesa, os quatro petizes, todos com um ano de idade, abriam a boca às colheradas que a ama repartia, desembaraçadamente, por todos. Uma tarefa que também exige paciência, principalmente quando há uma boquita menos afeita à comida.
Maria da Livração, de 50 anos, ganhou o gosto pelo trabalho com crianças num centro social, onde era vigilante. Deixou o emprego para ajudar o marido no seu estabelecimento comercial, mas sempre que via crianças de um qualquer infantário a passear pelas ruas vinham-lhe as saudades dos pequenitos.
Há um ano que trabalha para o Serviço de Amas. A primeira criança chega às 8 horas e a última sai às 19. É uma jornada longa, na qual cooperam, por vezes, o marido e o filho, de 22 anos, ajudando as crianças a brincar.
Gosta do trabalho, mas lamenta que as amas sejam pagas como trabalhadoras independentes, sob recibo verde e sem direito aos subsídios de férias e Natal.
"Dos 112 contos que recebo, ainda desconto para a Segurança Social e o que sobra é pouco, atendendo a que as instalações são oferecidas por mim. Só mesmo pelo amor às crianças é que me dediquei a este trabalho", referiu. 

Ensinar os pais
Recebe frequentemente a visita dos pequenitos, que exigem aos pais uma ida à casa da Deda. São estes afectos conquistados ao longo de cinco anos que motivam o trabalho da ama legalizada Adélia Almeida.
Reconhece o valor do seu trabalho e da formação que lhe foi dada. "Muitas vezes, não só educamos as crianças, como os próprios pais, quando estes descuidam a higiene e outros cuidados que são essenciais aos filhos", realçou.
Referiu que este trabalho com os pais também é muito importante. "Muitas vezes, recebemos crianças filhas de mães solteiras muito jovens ou de pais de extractos sociais muito baixos. E é fácil detectar que não existem regras de higiene: os miúdos raramente tomam banho e andam sempre com a mesma roupa", referiu.
Nestes casos, Adélia age com tacto e procura, sem ferir sensibilidades, mostrar aos pais a necessidade de mudarem os seus hábitos.
"É uma alegria grande ver os êxitos que obtemos com as crianças ao longo do tempo que estão connosco", concluiu. 
 

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