Público - 24 Nov 03

Propinas, Uma Vergonha!
Por JORGE QUEIROZ

Se alguém ainda tinha algumas dúvidas de que o sistema de gestão das nossas universidades não funciona, o recente, e triste, espectáculo das propinas, foi, e continua a ser, bem esclarecedor. São estes os doutores de amanhã? São estes os líderes de amanhã? Como é que é possível acontecer o que todos nós temos vindo a assistir?

Tendo dedicado 26 anos ao ensino universitário, suspendi a minha actividade docente há apenas dois anos, mas não posso ficar indiferente ao que se está a passar nas universidades.

Apesar do significativo tempo de antena, e das muitas páginas de jornais, dedicados ao tema, será que os portugueses sabem o que está verdadeiramente em causa? Permito-me duvidar.

Como acontece em muitas outras situações, noticia-se, de uma forma repetida, vezes sem conta, o que é espectáculo e omite-se o essencial. As imagens dos alunos a fechar com cadeados as portas da universidade passou em todos os canais televisivos, nalguns casos, de hora a hora, durante dias. Apesar disso, se efectuarmos uma sondagem concluiremos, com toda a segurança, que os portugueses apenas sabem que os alunos não querem pagar as propinas.

Agora, se perguntarmos aos portugueses o que verdadeiramente está em causa, isto é, quanto pagam, quanto devem passar a pagar, quanto se paga no ensino superior privado, quanto custa o ensino superior público, estou certo que a maioria esmagadora dos portugueses, mesmo daqueles que vêem diariamente as televisões e lêem os jornais, não sabem. E não sabem porque não é a preocupação de informar e esclarecer, mas sim o "dramático" problema das audiências.

Então vamos ao esclarecimento.

Os portugueses sabem que actualmente um estudante do Ensino Superior Público paga por ano, o que um estudante do Ensino Superior Privado paga por mês?

Os portugueses sabem que a nova propina anual que os estudantes do Ensino Superior Público se recusam a pagar, é inferior, em média, ao que um estudante do Ensino Superior Privado paga em dois meses?

Os portugueses sabem que hoje em dia, na sequência das restrições de acesso ao Ensino Superior Público, as médias de acesso são tão elevadas, que quase só entram, salvo excepções, os filhos das famílias com mais recursos, que são as únicas que podem pagar bons colégios e a explicadores particulares, para que os seus filhos consigam obter as elevadas médias necessárias para a entrada no Ensino Superior Público?

Os portugueses sabem que, pelo que acima referi, são cada vez mais as famílias com menos recursos que se vêem forçadas a fazer enormes sacrifícios para manter os seus filhos nas universidades privadas, porque não conseguem
as médias para entrar nas públicas?

Os portugueses podem não saber, mas a comunicação social tem a obrigação de saber e, a partir daí, teria a obrigação de informar e esclarecer os portugueses. Isso é que seria exercer o direito à informação.

Ainda recentemente um canal televisivo prestou um mau serviço ao País ao disponibilizar-se para fazer uma visita guiada às degradadas instalações da Universidade de Coimbra, com o Presidente da Associação Académica. A mensagem que deveria ter sido passada era a de que o degradado estado das instalações da Universidade de Coimbra, e muito provavelmente de muitas outras universidades portuguesas, se deve precisamente ao facto de as propinas pagas até hoje serem manifestamente insuficientes. O direito à informação deveria ter levado o referido canal televisivo a concluir a reportagem com uma pergunta muito simples: "depois do que vimos ainda será possível que alguém, minimamente consciente e sério, ponha em causa o pagamento das novas propinas? Não serão, pelo contrário, insuficientes?"

Uma última questão: será que sem o protagonismo e a visibilidade que a cobertura, nomeadamente, a televisiva, lhes deu, e continua a dar, as associações de estudantes gastariam os milhares de euros que estão a gastar?

Professor Universitário

Vereador da C. M. de Gaia

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