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Diário de Notícias
- 09 Out 06
Os abandonados
Helena Garrido
O sobreendividamento começa a fazer as suas
vítimas. Como se esperava e várias vezes foi sendo
alertado. Há caminhos que poderiam ser evitados, mas
as autoridades financeiras e governamentais insistem
em ser mais liberais que os liberais e em abandonar
à sua sorte um país maioritariamente marcado pela
ignorância económica.
O crescimento dos leilões de casas de que hoje o DN
dá conta é a face visível de um drama que tenderá a
agravar-se. O Banco Central Europeu aumentou na
semana passada, pela quinta vez em menos de um ano,
as taxas de juro que servem de referência às
operações de crédito e depósito dos bancos. E
promete que vai prosseguir nesse caminho. É o outro
lado da boa notícia da recuperação económica na
maior economia da zona do euro, a Alemanha.
Para Portugal, este agravamento do preço do dinheiro
chega demasiado cedo. A economia ainda não está a
crescer o suficiente para gerar subidas no poder de
compra que impeçam a "falência" financeira de
famílias que estejam no limite da sua capacidade de
endividamento. Neste momento nem é possível admitir
que o próximo ano será melhor.
Desde que no final dos anos 90 as taxas de juro
começaram a descer por via da adesão ao euro e
desencadearam a euforia consumista, foram feitos
vários avisos sobre a necessidade de alertar
famílias e empresas para os riscos de
sobreendividamento.
Os portugueses nunca foram habituados a fazer
escolhas nas suas finanças pessoais pura e
simplesmente porque não havia nada para decidir. No
Estado Novo como nos primeiros dez a quinze anos
após o 25 de Abril, grande parte da economia estava
regulamentada. As taxas de juro eram fixadas
administrativamente e a concessão de crédito
limitada.
Regras de liberdade individual nas escolhas
financeiras aplicadas repentinamente num país com
uma cultura marcada pelo paternalismo exacerbado
criam inevitavelmente problemas. O
sobreendividamento é um deles. Por incrível que
pareça, havia quem acreditasse que as taxas de juro
não subiriam. As críticas que por vezes são feitas
às virtudes do funcionamento do mercado são em
grande parte o resultado dessa falta de preparação
para escolher.
Criticar o que não se fez no passado é em regra uma
perda de tempo. Só vale a pena relembrar os erros
para encontrar remédios que ainda podem ser
aplicados.
Hoje ainda vamos a tempo. Basta que se aposte
seriamente na educação financeira dos portugueses em
campanhas e nas escolas. |