Diário de Notícias - 08 Out 07
ENTRE OS HORRORES DO FANATISMO E
DO RELATIVISMO
João César das Neves
A universidade não costuma ver-se no centro de
questões candentes. Ocupada no ensino e elaboração
do saber, são-lhe mais próprias as discussões
académicas. Mas dois acontecimentos recentes
envolveram duas vetustas escolas nos dramas actuais.
A 24 de Setembro, o Presidente do Irão visitou a
Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Na
apresentação de Mahmoud Ahmadinejad, o presidente da
instituição prof. Lee C. Bollinger, citando críticas
pertinentes, insultou o seu convidado chamando-lhe
"ridículo" e "ditadorzinho cruel". Em resposta, o
político muçulmano, que é doutorado em Engenharia,
manteve a compostura e afirmou: "No Irão, quando
convidamos alguém para casa, tratamo-lo com
respeito."
O episódio, sendo menor, é muito simbólico. Por um
lado um professor de Direito, especialista em
liberdade de expressão, cobriu-se de vergonha,
violando as elementares regras de cortesia e
recebendo lições de educação do hóspede. Os
muçulmanos têm justificadas razões de queixa, a
juntar aos cartoons nórdicos, que aliás se repetiram
essa semana na Suécia. Os ocidentais, ditos
civilizados, parecem não saber a diferença entre
liberdade de expressão e insulto soez e gratuito.
Mas desta vez não se ouviram protestos ou ameaças
contra a universidade ou o professor.
Por outro lado, o primeiro regime teocrático xiita
da História não é uma ditadura desmiolada. É uma
democracia que há quase três décadas manobra com
argúcia na cena mundial. Mas o programa nuclear do
Irão constitui o problema mais sério da situação
presente.
Há um ano, a 12 de Setembro de 2006, o Papa Bento
XVI visitou a sua Universidade de Ratisbona e fez
uma conferência aos antigos colegas intitulada "Fé,
razão e universidade: Recordações e reflexões".
"Essa lição é um dos textos fundamentais do nosso
tempo. Quase o primeiro que realmente entende as
dimensões totais daquilo que o nosso tempo é
intelectualmente" (cf. J. V. Schall, The Regensburg
Lecture, St. Augustine's Press, Indiana, 2007, p.
9). Nesta abordagem sintética e brilhante feita por
uma das maiores personalidades contemporâneas à
nossa questão mais candente, o mote sucessivamente
repetido é: "Não agir razoavelmente é contrário à
natureza de Deus." Partindo deste princípio, o Papa
desarma as duas maiores ameaças da actualidade.
O nosso mundo está refém de duas terríveis formas de
obstinação. De um lado, a intolerância totalitária
de uma fé imposta pela força; do outro a
desorientação confusa de um agnosticismo arrogante.
Os dois universitários que se enfrentaram em
Columbia há dias representam bem essas duas
posições. Perante ambos, vemos a figura serena de
Bento XVI, que na sua lição de Ratisbona ilumina com
sabedoria os dois erros.
Face à ameaça fundamentalista, cita o imperador
bizantino Manuel II Paleólogos em 1391: "A fé nasce
da alma, não do corpo. Quem quer que conduza alguém
à fé precisa da habilidade de falar bem e de julgar
adequadamente, sem violência ou ameaças... Para
convencer uma alma razoável, não é preciso um braço
poderoso, ou armas de qualquer tipo, ou qualquer
outro meio de ameaçar uma pessoa de morte."
Face à desorientação da academia moderna diz: "No
mundo ocidental domina largamente a opinião de que
só a razão positivista e as formas de filosofia nela
baseadas são válidas universalmente. Contudo, as
culturas do mundo profundamente religiosas vêem esta
exclusão do divino da universalidade da razão como
um ataque às suas mais profundas convicções. Uma
razão que é surda ao divino e que relega a religião
para o âmbito das subculturas é incapaz de se
inserir num diálogo de culturas."
Neste texto genial, Bento XVI traça em poucas
páginas a evolução que nos trouxe ao terrível dilema
actual, entre os horrores do fanatismo e do
relativismo. A única salvação é aderir à razão
serena e ao Deus do amor, como diz a grande maioria
dos muçulmanos e americanos. Mas nesse caminho
frágil não é nada bom sinal que o único destes três
académicos que foi criticado brutalmente, nas ruas
islâmicas e nas revistas ocidentais, tenha sido o
Papa