Público - 21 Out 07
Por que ri a hiena?
António Barreto Retrato da Semana
A democracia europeia é uma ficção oca, sem
substância, sem sociedade e sem vida
A glória e a euforia são de rigor. O sorriso aberto
e satisfeito. A sensação de vitória vê-se na
linguagem do corpo. Sócrates venceu. Portugal
venceu. A Europa venceu. Todos e cada país venceram.
Como previsto, Barroso, Merkel e Sarkozy venceram.
Prodi também. E os gémeos polacos igualmente.
Percebo por que tanta gente ri de alegria e prazer.
Percebo, mas não compreendo. O monstro acabado de
criar não dá motivos para rir. Nem sequer sorrir.
Mas o Dr. Frankenstein também sorria.
Depois de ter prometido a
ultrapassagem da América nos domínios do
crescimento, da ciência, da inovação e do emprego, a
"Estratégia de Lisboa" foi um monumental fiasco.
Segue-se-lhe o "Tratado de Lisboa", adornado de
ainda mais euforia e de ainda mais ilusões
vencedoras. Este desastre de Lisboa não ficará
conhecido por aqui se ter decretado uma Europa
federal, comandada por franceses e alemães, distante
dos povos, alheada dos problemas sociais e políticos
do continente e contrária à diversidade secular dos
seus povos. Não será isso, pela simples razão de que
essa Europa federal nunca terá existência. O
desastre de Lisboa ficará na história porque aqui se
assinou um tratado que consagrou a não democracia
como regime europeu e consolidou a burocracia e a
Nomenclatura europeias. Ao fazê-lo, confirmou a
caminhada futura para uma ilusão senil, irrealizável
e não democrática. Ao tentar construir uma
impossibilidade, prepararam a destruição do
possível. Ao querer uma União federal, eliminam a
hipótese de uma verdadeira Comunidade.
Os povos estão distantes da União e
afastados da política. As instituições são fechadas
e inacessíveis. A Constituição é ilegível e absurda.
Os políticos são execrados pelos cidadãos. Os
eleitores perderam a confiança nos seus
representantes. Os europeus não conhecem, nem querem
conhecer o Parlamento Europeu, uma das maiores
inutilidades de que o engenho humano foi capaz. As
instituições democráticas nacionais estão a definhar
e alguns direitos fundamentais são postos em causa
na Inglaterra, em França, na Polónia ou em Portugal.
Ao mesmo tempo, as instituições europeias ganham
poderes e competências, mas sem povo nem
reconhecimento, sem tropas nem magistrados, sem
aceitação pública nem experiência. A democracia
europeia é uma ficção oca, sem substância, sem
sociedade e sem vida. Este hiato, agora reforçado,
entre a estratosfera europeia e as realidades
nacionais e sociais é perigoso a todos os títulos. A
Nomenclatura europeia criou um paraíso artificial e
chamou-lhe União.
Sei que há muita gente que persiste
em afirmar que tantos dirigentes, tanta
inteligência, tanta capacidade diplomática não se
podem enganar. Nem nos podem enganar a todos. Mas
também sei que a melhor inteligência da Europa, as
mais fantásticas capacidades científicas e
tecnológicas e a mais ilimitada esperança na paz e
no progresso fizeram, em 1914, uma das mais absurdas
guerras que a humanidade conheceu. E sei que os
alemães, vanguarda cultural, científica e industrial
do mundo inteiro, tinham a certeza de que fundavam
um império para mil anos e uma raça para a
eternidade, e vejam o que fizeram. E também sei que
os russos, com recursos ilimitados, com formidáveis
elites políticas e intelectuais, quiseram, em
tempos, criar uma sociedade sem classes, uma
democracia total e um desenvolvimento económico e
científico incomparável, e vejam o que fizeram.
Como sei que os americanos, que
concentram nas suas mãos mais poder, mais
capacidades e mais inteligência do que qualquer
outra nação na história, quiseram fundar a
democracia no Vietname, há quarenta anos, agora no
Iraque, e vejam o que fizeram. No Iraque, muitos
erraram. Muitos se enganaram. Muitos enganaram. E
muitos mentiram. E eram os mais inteligentes, os
mais poderosos, os mais sabedores e os que de mais
informação dispunham. Os dispositivos militares e
políticos americano e britânico concentram
inteligência e capacidades sem rival nem
precedentes. Mesmo assim, erraram.
A questão não é, obviamente, de
inteligência ou de informação. É de política e de
interesses. Não é muito diferente do que se passa
com os dirigentes europeus. Eles não estão
enganados. Enganam e mentem porque acreditam no que
dizem. A Alemanha quer comprar. A França quer
mandar. Juntas, pagam o que for preciso. Pagam para
liquidar a agricultura e as pescas de outros. Pagam
para investir nos outros países, para lhes comprar
empresas e lhes fechar outras. Pagam para poder
exportar. Pagam para submeter o continente às suas
opções, sobretudo energéticas. Pagam para construir
uma fortaleza diante das veleidades russas. Pagam
para resistir ou domesticar as multinacionais. Pagam
finalmente para evitar os referendos, para evitar
que os povos se exprimam sobre a Europa que eles
querem fazer. Pagam para construir, nas nuvens, uma
ficção, a que já chamam a mais importante realização
política do século XX. Tal como o Império britânico.
Tal como o Terceiro Reich. Tal como o comunismo
soviético.
Os europeus de hoje, isto é, os seus
dirigentes políticos, com medo dos seus povos e dos
seus eleitores, com receio dos americanos, ameaçados
pelas multinacionais, apavorados com o terrorismo,
aterrorizados pela imigração, impotentes perante o
comércio asiático, têm também ao seu serviço uma
capacidade intelectual, política e diplomática sem
precedentes. Querem uma Europa unida ou os Estados
Unidos da Europa. Vejam o que fizeram, uma
Nomenclatura. Uma União que é a mais poderosa
entidade na Europa actual e é também a menos
democrática.
Tal como a euforia foi grande,
também a crise agora vencida era enorme. Não havia
crise na Europa, nem na maior parte dos seus países.
Não havia crises sociais e económicas graves. Não
havia democracia ou estabilidade em risco evidente.
Não havia diferendos militares. A paz não estava
ameaçada. Havia crise, isso sim, entre eles, entre
os dirigentes políticos, entre os Estados, entre as
Nomenclaturas. Fizeram a crise. Resolveram-na. Entre
eles. Sem os europeus. Talvez mesmo contra os
europeus.