Público - 24 Out 07
Arrogância e autismo, ou a lei do
quero, posso e mando
José Manuel Fernandes
Ao violar as regras estabelecidas para a divulgação
dos "rankings" das escolas, o Ministério não
prejudica apenas o bom jornalismo: viola princípios
de equidade essenciais à liberdade de imprensa e
limita o direito de acesso dos cidadãos à melhor
informação
O Ministério da Educação alterou ontem,
unilateralmente, as regras de divulgação dos
resultados dos exames do final do Ensino Secundário,
ordenados por escolas. Escrevo-o com a autoridade de
quem se bateu, anos a fio, pela divulgação pública
desses resultados; de quem dirigia o jornal que
intentou um processo contra o Ministério por não o
fazer, tendo tido ganho de causa; de quem combinou,
pessoalmente, com o ministro da época - o Prof.
Júlio Pedrosa - as condições em que esses dados
seriam revelados para que isso fosse feito com rigor
e sem atropelar os jornais da concorrência; de quem
dirigiu e comentou todo este processo anos a fio,
tendo participado em congressos de professores onde
o tema foi debatido; e, por fim, de quem, na
segunda-feira, escreveu um mail à actual ministra da
Educação explicando-lhe que devia manter as regras
em vigor desde 2001 - regras que o Ministério
cumprira já sob a sua orientação.
Infelizmente o esforço civilizado
que realizámos para garantir que o Ministério
seguiria regras aceitas universalmente - e
praticadas pela União Europeia, pelas Nações Unidas
e pelos governos que trabalham com transparência e
seriedade - saíram frustrados.
O que é que recordei à ministra,
após dias e dias em que este jornal e os seus
jornalistas jogaram ao gato e ao rato com a
assessoria de imprensa do Ministério? O elementar:
"para que o nosso trabalho seja bem feito, é
essencial que a base de dados seja dada com, pelo
menos, uma semana de antecedência relativamente à
data de embargo que costuma ser estabelecida de
acordo com os critérios do Ministério e os pedidos
dos vários jornais", como escrevi na mensagem que
enviei à ministra.
Porquê? Porque o Ministério não
fornece tabelas ordenadas das escolas: apenas
disponibiliza, no endereço http://www.dgidc.min-edu.pt/jneweb/index.htm,
uma base de dados em bruto. Todas as médias, assim
como os critérios para obter essas médias escola a
escola, devem depois ser calculadas pelos órgãos de
comunicação social. É um trabalho que pode ser feito
rapidamente se não passar por nenhum teste de
validação (no momento em que escrevo tenho já, no
meu computador, muitas das tabelas a partir das
quais verificaremos se os critérios estatísticos
utilizados até agora se mantêm válidos), mas que não
pode ser feito depressa se se quiser ser rigoroso e
fiável.
Por exemplo: se uma escola propõe a exame menos de
dez alunos, os resultados que obtém têm menos
significado do que os de outra escola que propõe
100, 200, 500 alunos. Não basta pois deixar que os
computadores calculem as médias e se substituam ao
escrutínio dos resultados, pois devemos separar os
que têm relevância estatística das que, partindo de
amostras diminutas, podem ser influenciados por um
só aluno excepcional.
A ministra, que sabe trabalhar com
estatísticas, deveria perceber que, como referi na
mensagem, para apresentar resultados fiáveis e
sérios é necessário submeter a "um conjunto de
testes estatísticos" as tabelas que os computadores
nos fornecem. Mais: tinha obrigação de saber que, se
alguma coisa nos mostra a experiência iniciada em
2001, é que a imprensa pode acrescentar valor se
tiver oportunidade de visitar as escolas que se
destacam pela positiva e pela negativa, divulgando
casos de boas e más práticas. Isso também exige
tempo.
Sendo tudo do mais elementar bom
senso, a escolha do Ministério foi a de
disponibilizar os dados em bruto e, assim, dizer à
imprensa que venceria quem os tratasse mais
depressa. Mais depressa não é sinónimo de melhor.
Optar pela correria é optar pela ausência de
ponderação, de aprofundamento, o que está bem se
preferirmos o jornalismo tablóide, não se
escolhermos qualidade e rigor.
O PÚBLICO recusou este jogo, e há já
provas suficientes que fizemos bem. A Agência Lusa,
onde o Estado possui uma posição maioritária e que
se tem distinguido pelos "fretes" que faz aos
governos, venceu a corrida. Mas nenhum das artigos
que disponibilizou cumpria os mínimos de qualidade
exigidos no PÚBLICO. Pior: pelo menos uma dessas
peças, sintomaticamente identificada como
referindo-se a "religião", constituía um exercício
de manipulação e preconceito que daria para escrever
um livro.
O PÚBLICO preferiu agir de forma
responsável e ponderada. Antes de publicarmos as
tabelas que eu próprio já pude avaliar, as dúvidas
metodológicas que me surgiram terão de ser
resolvidas. O mesmo tipo de análise está a ser feito
pela equipa de jornalistas que há anos trata deste
tema, assim como por especialistas que convidámos.
Se o Ministério optou pela confusão, nós optamos
pela transparência e pelo trabalho ponderado. Se o
Ministério entendeu atirar aos lobos bases de dados
prontas há meses sem cumprir os compromissos
assumidos com os órgãos de informação, o PÚBLICO
reafirma que o seu único compromisso é com os seus
leitores, e que faremos o impossível para lhes
oferecer, a 2 de Novembro, a melhor e mais detalhada
das análises.
Trata-se de uma escolha ponderada de
recusa da chantagem de um Ministério e de um Governo
marcados pela síndrome do autoritarismo, do autismo
e pela soberba de que "querem, podem e mandam".
Aqui, pelo menos, não mandam. Não nos obrigarão a
fazer precipitadamente o que exige tempo e
ponderação, pois não somos ingénuos: se a ministra
já se manifestou publicamente contra a publicação de
listas ordenadas de escolas de acordo com os
resultados do Secundário, não lhe vamos oferecer
argumentos para desqualificar um dos raros
instrumentos que as famílias têm para avaliar a
qualidade dos estabelecimentos de ensino para que
enviam os seus filhos. O caos favorece quem quer
acabar com esta "intolerável" transparência, o rigor
prova que uma democracia aberta é melhor do que uma
democracia tutelada.
Lamentamos que a lei do "quero,
posso e mando" do actual primeiro-ministro se tenha
tornado a regra de todo o Governo e esteja a
gangrenar a administração pública. Lamentamos que a
boa educação e o bom senso com que, lidando com
governos diferentes, sempre tratámos deste assunto
tenham sido substituídos pela grosseria dos serviços
que agora contactamos. Mas quando o chefe dá o
exemplo e os subordinados baixam as orelhas, será
que podíamos esperar algo de diferente neste
desgraçado país onde mais depressa se verga a
espinha do que se afirma a rectidão dos princípios?