Público - 17 Set 04

A Barafunda

Descentralizar a gestão do quadro docente das escolas para as câmaras ajudará a acabar com problemas como os vividos este ano e criará uma cultura de responsabilidade

O processo de colocação de professores foi um desastre absoluto, com pesadas consequências para alunos, famílias, escolas e milhares de professores. Uma sucessão de erros administrativos, informáticos, burocráticos, de concepção e de direcção política associados, provavelmente, às dificuldades (ou real iliteracia informática) de muitos professores no preenchimento das suas fichas de candidatura resultou no caos total. Convém, no entanto, não confundir o sol com a peneira: que o principal problema está no próprio método de colocação de professores, filho do nosso proverbial centralismo napoleónico e na mentalidade de quem, tal "big brother" moderno, quer controlar tudo, por via informática, a partir de um centro único e irresponsabilizável.

Antes a forma como os professores eram colocados não era boa. Eram irracionais as viagens, por esse país fora, a que eram obrigados para se inscreverem numa dúzia de escolas esperando uma incerta vaga. E todos sabiam que muitas colocações eram determinadas mais pela "cunha" do que pelo mérito relativo dos candidatos. Isto é, que havia muito nepotismo e injustiças.

Julgou-se poder resolver tais problemas centralizando as colocações, num processo mais rápido, justo e transparente. Julgou-se mal, pois este como muitos outros problemas do nosso sistema de ensino não se resolve com mais centralismo, mais formulários e melhores computadores, mas com mais descentralização e desregulação. O que implica uma reforma radical: transferir a gestão dos quadros docentes da administração central para a administração local. Não porque esta funcione melhor ou seja mais imune ao nepotismo e à corrupção, antes pelo contrário, mas porque está mais próxima dos cidadãos, tem obrigação de conhecer melhor as suas necessidades e porque está na altura de se dedicar a mais tarefas do que recolher o lixo ou construir rotundas e repuxos, para caricaturar.

É sabido que em muitas escolas que ficam fora dos grandes centros são instáveis e os professores passam por lá, não ficam lá. Acredita-se que isso é mau para as escolas e para os alunos. Mas não se dá nenhum passo para promover o enraizamento dos docentes nas comunidades locais. Se as autarquias tivessem a responsabilidade de garantir que os quadros das suas escolas estavam preenchidos, provavelmente encontrariam formas de estimular os professores, quer facilitando o acesso à habitação, quer diferenciando os seus salários. Uma maior proximidade entre as comunidades servidas pelas escolas e o poder local pelo seu bom funcionamento poderia gerar outra dinâmica de responsabilização, bem diferente da actual, cujos protagonistas se escondem nas complexas e opacas estruturas de um Ministério que sofre de gigantismo.

Tal reforma, porém, desafia os interesses instalados. Os do poder central, cioso da sua superior visão de qual é a melhor solução para a escola de Freixo de Espada-à-Cinta. Os dos poderes locais, que teriam de realizar um trabalho menos vistoso do que a promoção de obras públicas e, sobretudo, mais minucioso e exigente. Os dos sindicatos, que teriam de negociar com centenas de "patrões" e não com um só. E os poderes dos conselhos directivos, que teriam de responder a autarcas eleitos pelos cidadãos e não a uma longínqua direcção-geral.

Nalguns dos países europeus onde os alunos obtêm melhores resultados escolares é assim que funciona; em Portugal não, talvez porque os alunos continuam sem ser o verdadeiro centro e preocupação do sistema de ensino. José Manuel Fernandes

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