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Diário de Notícias - 30 Set 04
O cancro
Vasco Graça Moura
Todavia, são ainda mais preocupantes as notícias
que chegam entretanto, do Norte e do Centro do País, quanto à
utilização de atestados médicos para sustentar indevidamente
pretensões especiais de colocação dos professores em determinadas
zonas, por razões de saúde própria, ou de familiares na sua
dependência.
Os números são de estarrecer: numa localidade
fala-se em 600 casos, noutra em 80% deles, noutra ainda na maioria
dos docentes da área. Em todas essas situações, os protestos surgem
da parte de quem não se prestou a tais processos e foi prejudicado.
Esses lesados afirmam que a grande maioria dos interessados terá
recorrido a esses expedientes.
Este é um daqueles casos cuja expressão
quantitativa poderá levar a terríveis conclusões qualitativas.
Nos atrasos de colocação por erro na feitura e
tratamento das listas, o problema começa por ser de ordem técnica.
Nesta proliferação cogumelizada dos atestados médicos, o problema é,
antes de mais, ético e cívico. A ser verdade o que se diz, dará
lugar a toda uma série de perguntas incómodas. E elas são incómodas
porque acabam por espelhar perversamente a sociedade em que vivemos.
Que sentido e que vivência da cidadania podem os
professores em questão incutir nos seus alunos, se são eles os
primeiros a violar a lei e a sabotar impávidos as regras do jogo, em
prejuízo de interesses mais do que legítimos de colegas seus?
Que sentido e que vivência da cidadania têm os
médicos que se prontificam a passar tais atestados, provavelmente a
troco de estipêndio?
Como é que pode ensinar ou agir no plano dos
cuidados de saúde com competência e isenção, quem não hesita em
fazer batotas indignas?
Como é que se estrutura a personalidade desta
gente que é incumbida de ensinar crianças e de cuidar de doenças e
afinal só mostra ser diplomada em esperteza saloia e malas-artes?
Quem nos garante que um professor que é capaz de
comprar um atestado médico não é capaz de favorecer sem motivo um
mau aluno, ou de prejudicar injustamente um estudante que dá conta
dos seus deveres, ou mesmo de «vender» uma nota ou uma
classificação?
Que país é este em que tanto a seriedade do
ensino público como a do exercício da medicina são assim postas
intencionalmente em causa em centenas de situações e em várias
localidades?
Em que termos é que estas coisas são susceptíveis
de viciar também as listas de colocação de professores?
Há poucos anos, no Minho, ocorreu um caso
idêntico, para permitir a um grande número de estudantes
beneficiarem de dado esquema de épocas de exame. Já aí se indiciava
um conluio de pais, médicos, estudantes e porventura alguns
professores. A imputação de responsabilidades efectivas parece que
se ficou por um reduzido número de situações.
Agora as coisas repetem-se, pelo menos na Beira e
em Trás-os-Montes, no enquadramento a que aludi. Feitas as
averiguações, e se elas concluírem por uma confirmação dos indícios
apresentados, não deixarão as áreas sindicais respectivas de
edulcorar o sucedido. Mas, da evasão fiscal ao ensino, isto tem todo
o aspecto de ser um cancro que afecta a sociedade portuguesa e cujas
metástases afloram nas mais diversas áreas.
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