Público -
12 Set
08
O que é mesmo difícil fazer para mudar Portugal
José Manuel Fernandes
Descemos no ranking dos países com mais capacidade
de atrair investimentos. O que mostra que não chega
legislar, é necessário mudar de hábitos, de
processos e de cultura administrativa
Há dois anos que um dos muitos relatórios elaborados
pelo Banco Mundial, o que analisa a capacidade dos
diferentes países de atraírem negócios, coloca os
mesmos oito países nos primeiros oito lugares. Pela
seguinte ordem: Singapura, Nova Zelândia, Estados
Unidos, Hong-Kong, Dinamarca, Reino Unido, Irlanda e
Canadá.
E há quatro anos que a posição de Portugal vem
caindo neste ranking: 40.º em 2006, 42.º em 2007,
43.º em 2008 e 48.º em 2009 (o relatório antecipa o
ambiente para os negócios, daí a inclusão do próximo
ano). Portugal está agora um lugar à frente da
Espanha, o ranking referente a 2008 colocava-nos
três lugares à frente.
Todos estes relatórios valem o que valem - isto é,
todos podem ser contestados nos critérios que
aplicam -, mas têm sempre um valor: permitem
perceber a evolução relativa dos países e como é que
cada país é visto pelos analistas internacionais.
Ora há pelo menos três aspectos que merecem ser
destacados para breves reflexões: o primeiro é o
facto de sete dos oito países que encabeçam a lista
(a excepção é a Dinamarca) terem uma matriz
anglo-saxónica, pois todos integraram no passado o
Império Britânico; o segundo é verificarmos que um
índice que valoriza as reformas consideradas
amigáveis para o investimento privado não valoriza
tanto as que foram concretizadas em Portugal como as
que estão em curso noutros países; o terceiro é
percebermos por que motivos Portugal não surge
melhor colocado no ranking.
A vantagem dos países (ou territórios) onde o
Império Britânico deixou a sua marca, de Hong-Kong à
Irlanda, pode ser explicada por múltiplas razões e
não falta literatura recente sobre o tema. Contudo,
se quiséssemos debater o segredo de nações tão
diferentes teríamos decerto de o procurar no tipo de
instituições que são seculares no Reino Unido e
muito mais recentes noutras regiões do mundo. A
separação entre o poder judicial e o poder executivo
(que remonta à Magna Carta, isto é, ao século XIII),
o princípio da confiança nos negócios (e não o da
desconfiança permanente entre os parceiros), a
estabilidade política, institucional e legislativa,
a aversão a um Estado demasiado intrusivo e
dirigista e, por fim, uma cultura de liberdade
competitiva que gosta do risco e estimula a inovação
encontram-se entre o que permite a esses países,
mesmo quando neles se paga muito bem aos
trabalhadores e estes têm os seus direitos
protegidos, serem mais atractivos para os
investidores.
Portugal padece do mal de a maior parte destes
valores e práticas ser estranha à nossa cultura ou
demasiado recente nas nossas práticas
institucionais.
O relatório destaca, de forma positiva e elogiosa,
alguns programas reformistas que têm vindo a ser
concretizados, desde o Simplex à "empresa na hora".
Contudo, a verdade é que, de acordo com a análise
dos especialistas do Banco Mundial, o facto de
Portugal estar a fazer muitas reformas (este
relatório, em anos anteriores, até já nos colocou à
frente do ranking dos países que estão a fazer mais
reformas) não impede que outros estejam a ser mais
eficazes e mais rápidos no processo de evolução para
um ambiente mais favorável ao investimento e ao
empreendedorismo.
Por outras palavras: estamos a correr, mas há outros
a correr mais depressa. Importa pois saber porquê.
Chegamos assim ao terceiro ponto a merecer uma breve
nota: Portugal tem vindo a ser ultrapassado porque
uma coisa é legislar com o objectivo de facilitar a
vida aos cidadãos e às empresas, outra coisa é
reformar o país. Por outras palavras: mesmo tendo
boas leis, ou leis melhores do que as que tínhamos
anteriormente, a verdade é que ninguém muda um país
por decreto. Sobretudo quando se pensa que mudar a
lei é suficiente para mudar o que tem gerações, ou
mesmo séculos, de entranhada "forma de ser".
Por exemplo: se a confiança é a base de uma relação
sã em que se investe mais tempo nos projectos do que
nos contratos, Portugal padece do mal de empresários
(com raras excepções), instituições e governos
preferirem proteger-se contra a fraude e os enganos,
o que consome milhões de horas a todos. Mais: num
país onde a justiça é lenta e pouco eficaz, os
contenciosos arrastam-se e desencorajam um
investimento que preferiria lidar com sistemas mais
céleres e previsíveis. A "alma burocrática" que
presidiu à construção das nossas instituições
públicas é um vírus que não se elimina com um
abanão, pois impregna todos os processos de decisão
da administração pública, algo que nenhum milagre
informático consegue ultrapassar.
Aí, e na arqueológica legislação laboral, continuam
a residir alguns dos "calcanhares de Aquiles" de um
país que, mesmo formado por cidadãos com poucas
qualificações, tem gente empreendedora, esforçada e
muito trabalhadora. Mas que esbarra naquilo que as
muitas leis e "reformas" anunciadas não fizeram: a
simplificação radical do calvário de autorizações e
da romaria por inúmeras capelinhas que qualquer
"empresa na hora" tem de percorrer para transformar,
de forma leal e transparente, um ideia num projecto
e este numa obra capaz de produzir riqueza.
Quem vive em Portugal sabe como as coisas continuam
a funcionar. O Banco Mundial apenas confirmou que a
nossa percepção não estava errada.