NOTÍCIA
Revista Sábado, "Como sobreviver entre irmãos?"
publicado a 31/05/2016
Como sobreviver entre irmãos?
Umas são gémeas em países diferentes, outros vivem no meio da confusão de sete irmãos e o último caso é o único homem entre irmãs. Como se sobrevive?
Hoje, dia 31 de Maio, celebra-se pela primeira vez o Dia do Irmão. Alguém que, tal como dizia Neil Diamond, nos ajuda a "carregar o peso" da "longa estrada" que é a vida, mas também alguém que, tal como B Fachada lembra, nos obriga a "dar o exemplo às irmãs", mesmo que "se ponham logo a abusar".
Sejam apenas duas gémeas ou uma pessoa a crescer no meio de oito irmãos irrequietos, "o que se vive entre irmãos é único, irrepetível, molda a vida para sempre", diz a Confederação Europeia das Famílias Numerosas. Mesmo em adultos, por mais que a relação entre irmãos mude, o irmão "ultrapassa a boa sanidade de uma relação de amigos". "Podemos ter amigos que são para a vida, mas no caso dos irmãos aceitamos mais do que aquilo que é a nossa conta", garante a psicóloga Catarina Mexia, explicando que os irmãos acabam por ser algo "que nos pertence".
E isso acontece com Tomás Lobão, o terceiro mais velho de uma família de oito. Para ele, apesar das correrias, "sabe sempre bem chegar a casa da faculdade e ouvir risos e cantorias". "Coloca-me rapidamente numa boa disposição e folgo em juntar. Cada um tem as suas qualidades e personalidades distintas e por isso as alturas em que estamos juntos em família funcionam tão bem dessa partilha de interesses e boa disposição", explica Lobão, considerando-se um "sortudo". "Posso ser dos mais velhos, mas estou sempre em fase de aprendizagem, quer seja com discussões acesas e divertidas de temas debatidos aos jantares, ou férias passadas juntos. Nunca somos demasiados, há sempre lugar para mais um na família", continua.
Entre os oito irmãos da família Lobão, o Martim tem 25 e a Mathilde tem 23. Tomás tem 21 anos e assume "responsabilidade pelos cinco irmãos mais novos: a Beatriz com 17, a Catarina de 13, o Bernardo e Marta com 10 e 9 e Lourenço com 3 anos". Tomás estuda engenharia e é baterista, inspiração musical essa que gostava de transmitir aos irmãos. "Tenho especial gozo em responder a curiosidades e fascínios dos pequenos e gosto de dizer com graça que sonho em fazer da minha família uma banda (ou até mesmo uma orquestra!)", garante.
No final do dia, Tomás guarda um canto especial para ser "um bom irmão": "Como é costume dizer-se cá em casa, quando partilhamos é quando multiplicamos".
O companheirismo também é sentido entre Joana e Rita: gémeas que se tornaram mais próximas com o passar dos anos. "Sempre me apercebi da mística que rodeia os gémeos: as eternas piadas, os olhares que nos deitam nos transportes quando vamos sentadas lado a lado, os jogos do "descubra as diferenças" e por aí fora. Enquanto criança não tinha muita noção do que é ter uma pessoa fisicamente igual a mim - dava, como é óbvio, muito mais importância ao companheirismo e cumplicidade nas brincadeiras", explica Joana, garantindo que "ter uma irmã gémea não é o conto de fadas que todos acreditam ser".
"No entanto, à medida que fomos crescendo, começámos ambas a querer uma identidade própria, em vez de sermos para todos e para sempre conhecidas como 'as gémeas'", conclui Joana. Para a psicóloga Catarina Mexia, ser gémea é uma "circunstância muito peculiar e interessante ao mesmo tempo", porque "são uma junção entre a herança cultural e a herança biológica". "Os gémeos acabam por ter uma conexão maior do que outros relacionamentos porque a cultura promove essa proximidade. Desde o momento em que nascem, todo o seu meio ambiente espera que também exista uma relação próxima: põem as raparigas na mesma escola, turma...", considera Mexia.
Já David e Nuno Francisco, irmãos e já com as suas respectivas famílias formadas, comprometem-se a um companheirismo eterno: "Não somos gémeos mas somos parte um do outro". Com apenas quatro anos de diferença, os irmãos Francisco partilham sangue e o amor à música. "O que te posso dizer é que somos cúmplices: partilhámos o quarto até à minha idade adulta. Tudo o que tínhamos era partilhado e por consequência crescemos a ouvir a mesma música", explica Nuno, baterista dos UNI.FORM, também banda do irmão David.
Apesar de terem vidas ocupadas e diferentes, cada um dos irmãos são dedicados e cúmplices - algo essencial para "qualquer relação, seja de amizade ou de irmandade". "Não basta dizer que é família, é preciso procurar", atira a psicóloga Catarina. "Uma relação de irmãos, tal como uma relação de amizade, com companheirismo e cumplicidade, tem de ser alimentada. A relação familiar subjacente a uma relação de irmãos facilita a proximidade. Mas, tal como todas as relações, elas têm de ser nutridas: 'eu preciso de saber quem é essa pessoa'".
Para Nuno e David, a música sempre foi um laço inquebrável. "O meu irmão tinha 15 anos quando começámos a primeira banda. Depois houve uma altura em que cada um teve as suas bandas até que decidimos fazer os UNI.FORM", concluiu Nuno.
Quem sempre procurou as irmãs foi João Silva, o mais velho de duas irmãs. João Silva garante que "não escolheu o 'fardo' de ser o irmão protector". "Foi [o fardo] que me escolheu", garante Silva, explicando que "não teve um irmão mais velho para me aconselhar, ajudar em trabalhos, dar boleias quando os pais não podem, mas que elas [as irmãs] têm". Catarina Mexia explica tal sentimento de protecção como uma "herança familiar, passada pelos país ou cuidadores".
Apesar de tudo, João sente que há regalias "incríveis": "Durante a infância principalmente, tive o privilégio de ser um ídolo para elas. Eu fui obviamente quase sempre o primeiro a experimentar coisas novas. O primeiro a ir para a escola, o primeiro a ir para a faculdade, o primeiro a sair à noite, o primeiro a ter um telemóvel. E esse facto também fez que elas tivessem algumas coisas mais cedo", concluiu, garantindo que "elas são as duas pessoas do mundo com quem eu estou mais à vontade".
Contudo, a psicóloga Catarina Mexia explica que a definição de irmãos é "um pouco mais vasta". "Não é preciso estarmos numa família para perceber que aquela pessoa com quem estamos ao nosso lado tem um lado único", conclui a psicóloga, validando algo que foi dito pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, por esta ocasião: "Eu tenho irmãos de sangue, mas há outros fora do caldo familiar que cumprem igualmente esse papel. Irmãos de afectos, amigos, iguais, parceiros, com quem sabemos que nunca ficaremos sós. Os filhos únicos também têm desses irmãos. E também irmãos de convicções, de experiências de vida, de partilha. Dia feliz a todos os irmãos e irmãs".
Fonte: http://www.sabado.pt/vida/familia/detalhe/dia_dos_irmaos_4_historias_de_amor_eterno.html
