Entrevista do Governador do Banco de Portugal

Se a Europa Quiser Acompanhar Crescimento dos Estados Unidos Tem de Acolher Mais Imigrantes e Ter Mais Filhos
As políticas natalistas de países como a França ou a Suécia são de seguir, tal como as reformas que estão a ser discutidas em Itália ou na Alemanha para aumentar a idade da reforma. A revisão do regime da aposentação da Administração Pública também vai na direcção correcta. Mas tudo isso será insuficiente para permitir que a Europa, e dentro dela Portugal, consigam enfrentar o envelhecimento da população e, simultaneamente, manter o seu modelo social. Para o conseguir também será necessário acolher mais imigrantes.
P.-Tem defendido que devemos ter uma política de imigração mais aberta. Como é isso compatível com o desemprego a aumentar pelo menos até 2005?
R.- São duas coisas distintas no tempo. Uma coisa é a situação conjuntural, outra as necessidades estruturais do país.
P.- Criticou "as dificuldades que se manifestam em acolher mais imigrantes". O que é que queria dizer com esta frase?
R.- As dificuldades são as derivadas de uma sondagem, feita em vários países europeus, que revelou, para minha surpresa, que Portugal era o país onde era maior a rejeição à entrada de imigrantes. Para mim foi uma surpresa. Ora pensando nos nossos problemas estruturais - nossos e europeus -, um dos problemas que se coloca para o futuro, quando olhamos para o crescimento potencial da Europa e de Portugal, é que esse crescimento potencial é afectado pela demografia, pelo crescimento da população. Uma diferença grande entre a Europa e os Estados Unidos é que enquanto estes têm uma população a crescer um por cento ao ano, a Europa está com uma população declinante. Na década de 90 os Estados Unidos cresceram a um ritmo um por cento acima do ritmo europeu, mas se considerarmos a taxa de crescimento por habitante, foi quase igual. Isto quer dizer que a taxa de crescimento potencial de uma economia depende muito da oferta de trabalho, do crescimento demográfico. O que há na Europa é uma população em declínio que não garante a progressão a prazo da oferta de trabalho. Se não resolvermos este problema teremos menores taxas de crescimento e menores possibilidades de fazer face às consequências do envelhecimento da população. Isto implica disponibilidade dos países europeus para aceitarem mais imigrantes, implica que os europeus tenham de trabalhar mais anos do que hoje e supõe também um aumento da natalidade. As três coisas vão ser necessárias se quisermos que a Europa não entre em declínio e tenha dificuldades crescentes para resolver os seus problemas sociais.
P.- A verdade é que a tendência tem sido para diminuir o número de anos que se trabalha e o número de filhos por casal. O que é que se pode fazer para inverter essa tendência?
R.- Há políticas públicas...
P.- Políticas como a agora anunciada nos EUA para promover a natalidade?
R.- Não conheço os pormenores dessa nova política, mas recordo que na Europa há políticas públicas bem conseguidas em países tão diferentes como a França ou a Suécia.
P.- A esquerda está preparada para defender esse tipo de políticas?
R.- Não respondo a essa questão que não é do meu domínio. É necessário é reagir e, neste momento, na Europa, vários países discutem propostas no sentido de estender o número de anos de trabalho: a Alemanha, a Itália, a França. O aumento espectacular da esperança de vida das pessoas faz com que as atitudes perante o trabalho tenham que acompanhar essa mudança. As coisas não ficam estáticas, pelo que se a Europa quer defender a sua cultura, a sua civilização, e quer ter os meios económicos para o fazer mantendo o seu modelo social, é necessário garantir um crescimento económico mais forte no futuro, o que exige medidas estruturais.
P. - Medidas como a revisão do regime de aposentação dos funcionários públicos vão no sentido correcto? São suficientes?
R. - Não sei se são suficientes, mas é evidente que decorre do que eu disse que não podemos encorajar uma política de reformas antecipadas.
Público - 19 Jan 04

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