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Pela estrada de terra batida, o Sr. Elegante acelerava o bólide,
serra adentro, receando chegar atrasado.
Na escuridão da noite, chuvosa e fria, somente os faróis
potentes iluminavam a estrada, faixa estreita e esburacada, entre negros troncos
de pinheiros.
Desligara o telemóvel, cansado dos insistentes telefonemas
da Mulher, da filha, de colegas e clientes, e por último, até da Mãe!
Recomendações, conselhos, perguntas, pedidos, contas, propostas, convites,
felicitações, enfim
muito tinha um homem que aturar! Tudo isto a
somar aos muitos quilómetros que já fizera nos últimos dias, finalmente de
regresso a casa, após duas semanas intensas de negócios, pressões, cálculos
e viagens
sem tempo para nada! Só queria mesmo uma cama - a sua cama - e um
bom banho, um copo de leite bem quente e nada mais
mas não, ainda teria de
suportar o tal jantar de Consoada, a troca de presentes (vá lá, que ainda
arranjara tempo para satisfazer os caprichos da Mulher, da Mãe e da filha
),
mais os convidados maçadores, aquele cheiro a perfumes adocicados, o feitio da
velha tia Ondina e as conversas vazias e tolas de todos eles
mas também, quem
o mandara fazer anos em noite de Natal? E porque aceitara, uma vez mais, que
fizessem essa festa idiota da Consoada em sua casa?
Embrenhado nos seus pensamentos, de pé no acelerador, o
Sr. Elegante nem viu um enorme buraco de lama e quando deu conta, tinha o carro atolado.
Por mais que acelerasse, o carro de lá não saía. Só patinava.
Entretanto, a chuva engrossara e caía agora pesadamente,
sobre os vidros do carro novo, acabado de comprar na Alemanha. Irritado,
procurou o chapéu-de-chuva, que não estava no lugar habitual, nem parecia
estar em qualquer outro. Abriu o "tablier", em busca da lanterna, mas
o carro era novo e, lembrou-se então, que a sua "rica" lanterna
ficara no carro velho.
Inquieto já, com tanta contrariedade inesperada, o Sr.
Elegante ligou as luzes intermitentes, de paragem, e pegou no telemóvel, para
avisar a família e pedir ajuda. Porém, a bateria do telemóvel tinha
acabado!
Apercebeu-se então, desesperado, da incrível situação
em que se encontrava: só, no meio da serra, perdido numa estrada
desconhecida, debaixo duma chuva inclemente
isolado, incomunicável, com
fome, frio e cansaço
na noite de Natal
no dia dos seus anos !
era demais para ser verdade!
Só mesmo a ele é que tal podia estar a acontecer! Como
havia de sair dali?
Habituado a dar ordens friamente e a vê-las serem
cumpridas de imediato, a resolver qualquer situação com o poder e o dinheiro
que conquistara, tudo aquilo tinha agora o seu quê de irrealismo e
estranheza
nunca, até então, se sentira tão impotente
que fazer?
Pelo sim, pelo não, ao menos pôr o triângulo!
Certamente ninguém ali passaria àquela hora da noite e ainda por cima em noite
de Natal
(e a mulher que tanto lhe pedira para chegar cedo, mas que não
viesse pela serra!)
Completamente encharcado, inclinou-se apressado, para
montar o triângulo, na curva da estrada, sentindo já " um não sei quê
", vindo não sabia donde
na verdade, não era mesmo nada agradável,
estar ali à chuva, sozinho, de carro empanado, no meio da serra!
Um arrepio de qualquer coisa estranha e nunca anteriormente
sentida, percorria-lhe o corpo de cima abaixo. Correu para o carro e de novo
tentou tirá--lo do buraco, mas em vão. Trancou-se por dentro, à cautela e
começou a tentar imaginar cenários mais tranquilizadores: alguém me vai
encontrar
a minha Mulher e a minha Mãe vão chamar a polícia de certeza
e dizem-lhes que eu devo estar a vir pela serra
daqui a pouco estão aqui
é só uma questão de tempo
De repente, gelado de pavor, o Sr. Elegante lembrou-se, que
dissera à Mulher que lhe trazia uma surpresa, mas nem lhe falara que era um
carro novo, nem ninguém sabia de
marca ou de matrícula, excepto ele próprio
Que fazer? Meter-se a caminho, a
pé, numa noite como aquela? Nem pensar
De mãos no rosto, no meio daquela tão
grande aflição, o Sr. Elegante estava Irreconhecível e buscava
desesperadamente, uma solução. Quase sem dar conta, ouviu-se a si próprio,
repetir palavras outrora familiares: "Meu Deus, meu Deus, porque me
abandonaste?"
Inclinado sobre o volante, de olhos fechados, apavorado,
sentia lá fora a tempestade rugir e recrudescer, e um vendaval assobiando e
fazendo tombar árvores de enorme porte à volta do seu carro novo.
"Meu Deus, se existes mesmo, faz por favor, alguma
coisa por mim!"
E aquele homem orgulhoso e tão cheio da sua pessoa,
parecia uma criança medrosa a chamar pelo Pai: "Pai! Pai! Faz alguma coisa
por mim! Eu creio em Ti! Eu creio! Eu sei que Tu existes! Ajuda-me, por favor !
Vem, vem!"
Imerso numa torrente de orações há tantos anos
esquecidas e abandonadas, mas aprendidas com sua Mãe, e numa imensa confusão
de emoções e sentimentos, o Sr. Elegante - Irreconhecível, sentiu de repente,
como que uma mão pequenina, de criança, a afagar-lhe o rosto transtornado.
Assustado, endireitou-se e viu ao lado, sentada no banco, uma Criança
Desconhecida, que lhe sorria e com um lenço branco, lhe enxugava o rosto.
Quis perguntar-lhe quem era, como entrara e o que ali
fazia, mas os sons estrangularam-se-lhe na garganta. Qualquer coisa de
profundamente indizível lhe estava a acontecer!
Pelos vidros do carro, espreitou a noite: subitamente, a
tempestade acalmara por completo. O céu, amarelo de lama, tornara-se
azul-escuro e estrelado e as nuvens cinza-esverdeadas, afastavam-se agora a
grande velocidade, deixando brilhar uma enorme lua luminosa.
Procurou com os olhos, a Criança Desconhecida, mas já
ali não estava a seu lado.
O Sr. Elegante - Irreconhecível, levado por um estranho ímpeto,
ligou de novo o carro, rodando a chave na ignição, meteu primeira, acelerou a
fundo e sem saber como, de imediato saiu do buraco onde ficara atolado. Não
queria acreditar! Beliscou-se no rosto, com força, para ter a certeza de que não
sonhava! De novo parou o carro. Abriu a porta, saiu, deu a volta ao carro e na
lama do caminho apenas viu o enorme buraco, as marcas fundas dos pneus e o desenho
de uns pézinhos de criança. Ainda chamou:
"Menino! Menino! Por favor! Mas na noite serena
nada se ouvia.
Quando voltou ao carro nada encontrou, senão um lenço
branco- que não lhe pertencia- molhado e caído sobre o banco.
O Sr. Elegante - Irreconhecível, de novo partiu, em direcção
a casa. Na mão , apertava o lenço, com força. Já não era elegante, mas
estava de facto, tão irreconhecível, que ao chegar a casa - ainda a tempo da
Consoada! - ele era Outro.
Fátima Fonseca
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