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Plano + Família
Público, 'Economia e educação: pode o Governo estar contra a nação?', Santana Castilho publicado a 24/06/2009

Economia e educação: pode o Governo estar contra a nação?
Santana Castilho

 

Dos 28 subscritores do documento em análise, 13 foram ministros e alguns estiveram no Governo na última década

 

Um grupo de cidadãos conhecidos e envolvidos na actividade económica veio a público dizer "que o interesse nacional impõe uma reavaliação profunda das prioridades de investimento público na economia portuguesa" e sustentou o apelo à paragem para reflexão, afirmando: "Tendo os grandes investimentos públicos significativas implicações no nível de vida dos portugueses durante as próximas gerações, é imperativo que exista um largo debate e um largo consenso nacional antes das decisões políticas e antes de estes investimentos avançarem." Na primeira das quatro prioridades que o grupo advogou figura, naturalmente, "a melhoria da qualidade do sistema educativo e de formação técnico-profissional".

 

O estado da economia e das finanças do país, que o documento glosa, permite estabelecer curiosas analogias e convergências com o estado da educação. Avanço algumas:

 

1. Um apelo como o que os economistas fizeram poderia ser iniciativa de educadores e vir, provavelmente, subscrito por Roberto Carneiro, Marçal Grilo ou David Justino, para não citar outros anteriores ministros da Educação. Mutatis mutandis, o que se diz da economia poderia ser dito da educação, já que ninguém contesta que muitas das decisões tomadas no sistema de ensino terão significativas implicações no nível de vida dos portugueses durante as próximas gerações. Mas subsiste a pergunta legítima: por que está, tantas vezes, o Governo contra a nação? Ou, dito doutro modo, por que razão as mesmas pessoas, quando estão no governo, não fazem o que, logo que de lá saem, dizem ser imperioso e, arrisco sem procuração, colhe significativa aprovação dos portugueses? Reparem que dos 28 subscritores do documento em análise, 13 são anteriores ministros (dos quais oito das Finanças e dois da Economia) e alguns tiveram responsabilidades governativas na última década, aquela em que, diz o apelo, "a economia portuguesa teve o pior desempenho relativo dos últimos oitenta anos". A resposta é comum à economia e à educação, porque é de índole política: enquanto no governo, pensam na reeleição; fora dele, dão-se conta de que há uma nação e gerações futuras.

 

2. A história da gestão do sistema de ensino é a história da incoerência e da falta de visão estratégica. Os diagnósticos correctos, que não nos faltam, são sistematicamente pulverizados pela imprevidência e irresponsabilidade de um aparelho ideológico que há três décadas domina o Ministério da Educação e transforma ministros em marionetas. Na economia não encontraremos o mesmo tronco comum ideológico. Mas lá está idêntica incoerência e menosprezo cíclico por algumas medidas correctas, tomadas aqui e ali. Assim se explica a alternância sem sentido entre os gastos à tripa-forra e os violentos apertar de cinto, que imolam cada vez mais pobres para que os ricos saiam das crises mais ricos. Neste Governo, tão dado a estatísticas, um relevante indicador de performance económica seria saber quantos pobres foram necessários para gerar cada novo rico.

 

3. Na economia e na educação, fala-se hoje de crise. Porque a nossa memória é curta. Porque a nossa atenção ao passado é negligente. Uma análise fina às séries estatísticas disponíveis (mais abundantes e remotas, é certo, para a economia do que para a educação) patenteia erros e persistência atávica nesses erros. Sem receio de desmentido, afirmo que tanto na economia como na educação há muito que vivemos em crise, ainda que a dissimulação demagógica de governos pouco escrupulosos a tenha escondido, com êxito, de períodos em períodos, a uma população pouco esclarecida e demasiado tolerante e crédula. O que é novo neste acumular de ciclos críticos é a expressão mais grave que cada crise assume, esmagando-nos com evidências que as manobras de baixa política não logram já escamotear. Evidências de tal monta que tornam imperiosa a mudança de rumo, na economia como na educação. Evidências de tal gravidade que não permitirão mais aos que se seguirem que falhem sem responsabilidade. Porque o que está em jogo não é mais um lance de simples troca de papéis. É a nossa sobrevivência como sociedade autónoma.

 

4. Na economia, como na educação, os problemas que se colocam são políticos. Num e noutro campo foi a má gestão política que nos trouxe para onde estamos. Só a alteração das políticas, portanto, pode resolver esses problemas. Mas nos limites para que nos empurraram, só obteremos resultados se lograrmos granjear um grande consenso político e social para as soluções, que não serão cómodas. Para isso temos de discutir, debater, mobilizar sindicatos, organizações cívicas, académicos e comunicação social e exigir que governo e oposição se envolvam, finalmente de forma civilizada, trocando a chicana política e a retórica agressiva e inconsequente por urbanidade, argumentos e soluções. Todos teremos que identificar os problemas e aceitar as soluções, garantindo por pacto que não as denunciaremos ao virar da esquina. Precisamos falar verdade, por dolorosa que a verdade seja. Na educação é verdade que não se adquire conhecimento sem esforço e sem disciplina. Na economia é verdade que não podemos gastar mais do que produzimos.

 

Na economia, como na educação, o trabalho que a nação espera já não será para nós, mas para as gerações futuras. O nosso tempo de fruir foi gasto nos 35 anos que passaram. Professor do ensino superior



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