NOTÍCIA

Diário do Alentejo Online, "Famílias XL alentejanas"

publicado a 15/05/2015

Numa época em que tudo aconselha a conter, nos orçamentos como nas famílias, há quem ouse ir para além do segundo filho, do tal “casalinho” que nos habituámos a aceitar como “normal”. No Dia Internacional da Família, que hoje se assinala, apresentamos-lhe os Bentes (Serpa) e os Costa (Beja), famílias contra a corrente demográfica, com seis filhos cada. Uma tarefa difícil, reconhecem, mas bem longe do bicho-de- -sete-cabeças que poderá imaginar quem está de fora. O que lhes vale não é uma varinha mágica, mas a capacidade de relativizar problemas e de estabelecer prioridades. E uma confiança invejável no curso natural da vida. Ou nos planos de Deus.

Maria, Simão e Salomé. Assim começou a família Bentes, na ilha de São Miguel, Açores. Bem longe da suburbana margem sul do Tejo, de onde vinham Sílvia e Miguel, e definitivamente mais próximo da imagem idílica que o jovem casal havia esboçado em férias, anos antes, ainda a frequentar a faculdade. “A nossa ideia foi sempre fugir da cidade e os Açores marcou-nos muito. Achámos que era o sítio ideal para ter filhos”, recorda Sílvia, à distância de 16 anos, a idade da primogénita.

Assim aconteceu, numa altura em que os anúncios de vagas para farmacêuticos pipocavam nos jornais, até para “os sítios para onde ninguém queria ir”, os preferidos da então jovem farmacêutica. Sílvia começou a carreira em Monchique, no Algarve, e logo depois meteu-se no avião para São Miguel, onde assumiria a direção técnica de uma farmácia em Povoação, com direito a alojamento e tudo. Miguel juntou-se-lhe depois, completando o último ano de Filosofia, já no arquipélago, e em 1998 seriam pais pela primeira vez, experiência que haveriam de repetir menos de dois anos depois, quando nasceu o Simão, hoje com 14.“A ideia logo à partida era dar um irmão à Maria, para que ela não ficasse filha única”, como tinha sido Sílvia e com alguma mágoa. Seguiu-se Salomé, outros dois anos mais tarde. Quem disse que para ter filhos, e muitos, é preciso reunir as condições ideais?

Sílvia e Miguel não sabem o que é isso. Limitaram-se, dizem, a aceitar “os convites” que a vida lhes ia fazendo, sem “nada planeado”. Como a oportunidade, cinco anos depois, de se mudarem para o Alentejo, para a então Vila Branca, que descobriram no mapa, antes de lhe pisarem as calçadas. O casal já então tinha decidido rumar de novo para o continente, para partilhar com os avós o crescimento dos netos. A vida corria-lhes bem, mas ressentiam-se do isolamento e Sílvia começou de novo a disparar currículos. O telefonema de uma farmácia de Serpa apanhou Sílvia no oitavo mês da terceira gravidez e, num golpe de sorte, e de fé, foi contratada sem necessidade de entrevista. A colega responsável, também mãe de uma família numerosa, decidiu-lhe o futuro, sem nada conhecer além de um currículo e de uma voz ao telefone.

Serpa deu-lhes a casa certa, um amor à primeira visita, e mais três filhos: Madalena, Marta e Salvador, hoje com 10, oito e seis anos. Em pleno centro histórico, a moradia oferecia seis quartos no primeiro piso e uma parte térrea preparada para arrancar com um negócio de turismo rural. “Foi outra aventura. E como a casa era tão grande, parecia que convidava mesmo. Parecia que a vida nos ia convidando a ter mais um filho, os timings eram os certos”, lembra Sílvia.

Mas a opção do casal não deixou de causar estranheza. A sociedade cria regras e espera alguma uniformidade de caminhos. O “quadro familiar completo”, como lhe chama Sílvia – pai, mãe e dois filhos, de preferência menina e menino – parece ser uma dessas normas tácitas. “Depois de termos o casal, a Maria e o Simão, toda a gente achou um bocado estranho. A partir do terceiro filho, sentia-se que o entusiasmo já não era tão efusivo. Do terceiro para o quarto, então ainda pior… Deixaram de dar os parabéns. Como se quisessem dizer ‘estes gajos estão doidos’”, conta a sorrir Miguel, que entretanto se estabeleceu em Serpa como bibliotecário municipal.

O pai desta prole numerosa não tenta, no entanto, dourar a pílula. Gerir seis rebentos, quatro deles a entrar na adolescência, não é tarefa fácil. Os dias caóticos são, sem dúvida, mais do que os calmos, como bem ilustra nesta metáfora: “Sabe o que é tomar banho numa banheira de água tépida e parada? A nossa vida é como tomar banho num mar revolto, com as ondas sempre a rebentar. Na nossa vida não há tédio, é uma explosão de acontecimentos”.

Na sala da casa de charme que um dia lhes roubou o coração e onde já se sentaram visitantes de todo o mundo, os Bentes vão aconchegando os mais novos ao colo. Marta procura o pai, Salvador a mãe. Os benjamins ouvem a conversa atentamente e, mais tarde, há de chegar Madalena, vinda do karaté, enquanto que, aos poucos, Maria, Simão e Salomé vão descendo até ao piso térreo para completar o friso.

Fala-se de estar contra a corrente, em tempos de crise, de diminuição do poder de compra e precariedade no emprego. De contenção, até mesmo na descendência. Os Bentes vivem do seu trabalho, do seu negócio, não têm “pais ricos”, como se costuma dizer. E vão levando o barco. Como? Não há receita possível mas ambos estão de acordo quanto a alguns princípios básicos que é preciso seguir: estabelecer prioridades e relativizar.

Um exemplo: “Com a Maria íamos ao pediatra todos os meses e o Salvador nunca viu um pediatra na vida. Começámos a perceber que era ridículo ir ao pediatra pagar 90 euros, só para pesar e medir o nosso bebé. Ou seja, quando um casal tem um ou dois filhos, o foco naquelas crianças é enorme e os problemas têm uma grande dimensão”. Quanto à gestão financeira da casa, ela tem que ser “controlada”, claro. Nada que seja novo para as famílias portuguesas de uma forma geral. “Eles não se podem dar ao luxo de poderem ser filhos únicos. Às vezes fazem tentativas, até pelos exemplos que têm com os colegas na escola, mas já sabem que não têm hipótese”, reforça Miguel, que considera elementar a separação entre o fundamental e o acessório. “Há coisas na vida de que não se pode prescindir: comida, roupa, ter um sítio para dormir. E eles têm, felizmente, tudo isso. Há outras que não. Por que é que estas calças não hão de ser usadas, por que é que esta camisola não há de ser bonita só porque já teve outro dono?”.

Depois, há a noção de interajuda, e de autonomia, que vem naturalmente com o crescimento numa família de muitos irmãos. A lógica é que, desde muito cedo, se “desenrasquem sozinhos”, brinca Sílvia, dando o exemplo de como o Simão aprendeu a atar os sapatos por si próprio, pela “necessidade”. E os mais velhos acabam também por desenvolver uma especial atenção pelo bem-estar dos mais novos. “Eu não diria que é uma responsabilidade, mas tenho sempre algum cuidado e estima, como temos entre todos, como irmãos”, confessa Maria, a “filosófica” da família, como o pai.

Uma máquina que, desde há seis anos, teve necessidade de ficar ainda mais bem oleada, já que Sílvia foi instalar a sua própria farmácia no Alandroal, depois de ter vencido o respetivo concurso público, em 2009. Trabalha a 100 quilómetros de casa, só regressa perto das oito da noite. E o barco continua a navegar. Mesmo se o frigorífico nunca está composto, mesmo se o barulho das discussões e das brincadeiras casa afora excede o limite do tolerável, mesmo ainda se a sociedade portuguesa de hoje não está organizada de modo a contemplar as necessidades das famílias XL, como se penalizasse uma “excentricidade”, quer se fale de serviços básicos, de atividades extracurriculares, ou de entretenimento. As coisas negativas, conclui Sílvia, perdem dimensão, enquanto as positivas continuam a ter o mesmo impacto. “Um desenho feito por um filho continua a ser fantástico no primeiro como no sexto. E eles são também a motivação de correr tanto atrás. São eles que nos fazem saltar da cama”.


“A vida é um dom de Deus” Aquilo a que os Bentes chamam de “vida”, tem, no entender dos Costa, crentes, a designação de “Deus”. Também eles não provêm de famílias numerosas, mas a vivência que partilharam, antes e depois de casar, no seio de uma pequena comunidade dentro da assembleia de fiéis católicos bejenses – o Caminho Neocatecumenal – mostrou-lhes que “era possível viver daquela forma”, lembra Lúcia, mãe de Miguel (13 anos), Raquel (12), Rita (11), João (sete), Isabel (quatro) e do pequeno Francisco, a poucos meses de completar dois anos.

Da mesma forma, não houve planos. Quem tem fé e acredita que “a vida é um dom de Deus” tem que estar aberto a esse “projeto” superior e aceitar o que chega, defende Francisco, o pai. Por isso, perguntar-lhes se pretendem ter mais filhos, como muitas vezes acontece, é escusado. “É um mistério”, responde, rendendo-se por completo à vontade divina: “Se tiverem que vir filhos vêm, se tiverem que não vir não vêm”.

Lúcia não se sente nenhum modelo de mãe, nem considera ter a família perfeita, e muito menos pretende impor as suas convicções a outros. Apenas sublinha que a vida que escolheu é fruto da “nossa experiência de Igreja, na Igreja Católica”, que, avisa, “não é nenhuma igreja esquisita, não é uma seita…”.

Famílias como os Costa e os Bentes contribuem, e muito, para reforçar a taxa de natalidade em Portugal, que continua a ser uma das mais baixas da Europa. Mas nem por isso são encaradas com simpatia efusiva. “Isto incomoda as pessoas, no bom e no mau sentido. Porque, se calhar, há muita gente que gostaria de ter mais filhos e não tem e, por outro lado, porque isto é visto quase como uma loucura, como uma imprudência dos pais – trazer tantos filhos ao mundo num tempo tão difícil”, diz Francisco.

Raquel, a segunda a nascer, foi interpelada recentemente por uma professora, que quis saber o porquê de tantos irmãos, num tempo em que tal “não é muito normal”. Ficou atrapalhada mas acabou por responder que, sim, era “normal” e que “não tinham sido os meus pais a escolher”. Ela, que “até queria ter mais”, confessa, de olho carinhoso nos irmãos mais novos, Francisco e João, que deambulam pela sala a fazer tropelias.

O casal, ele administrativo e ela assistente social, reconhecem os entraves económicos, também os sentem, mas não consideram que seja esse o requisito essencial para se poder ter filhos. “Gastamos de acordo com aquilo que temos”, é o lema. E dão exemplos: a comida é a que “rende mais”; o vestuário vai “circulando” entre todos e também dentro de uma rede de casais amigos; artigos de bebé, como o carrinho e a cama, só foram comprados uma vez e têm sido “rentabilizados”. E por aí vai. O resto aprende-se e resulta de uma adaptação gradual, sublinha Lúcia: “Perguntam-me como é que eu faço comida para tanta gente. Eu não sei responder a isso. Eles não apareceram os seis de repente. Fui aprendendo, fomo-nos adaptando às circunstâncias. Não há pozinhos mágicos. É também assim nas outras casas”.

E, claro, há que saber abdicar. De um carro melhor, de um curso que já estava encetado, de muitas noites de sono, ou de um telefone tátil que todos os colegas da escola têm. “Não vivemos na abundância mas tudo o que faz falta vai aparecendo”, descreve Francisco. E o tal “telefone tátil” sonhado lá apareceu um dia, quando teve que aparecer, oferecido por alguém próximo. E assim aconteceu com o emprego, no Centro de Saúde de Saúde de Beja, onde Francisco ganha agora “bem mais”, ou com o apartamento onde vive a família atualmente, um espaço maior e com outras comodidades, e que foi uma “oportunidade” que apareceu quando menos se esperava.

“Se Deus dá os filhos, dá também as possibilidades para os criar”. É isto que os move. Agradecem, por isso, todas as ajudas existentes, como o abono de família majorado, do Estado, a tarifa especial da água, opção do município de Beja, ou ainda os vários descontos em atividades de lazer por serem sócios da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN). Mas acreditam, no fundo, que não são as medidas económicas que podem salvar um país de uma catástrofe demográfica. “Aparentemente é isso, mas o principal problema prende-se com a disponibilidade interior de cada um, com o egoísmo, com o pensarmos que a vida depende exclusivamente de cada um de nós. Talvez seja necessária uma mudança de mentalidades”, remata Francisco.

É tempo de preparar a prole para a fotografia de família, no jardim próximo de casa. É o primeiro domingo realmente quente do ano e o ar fresco da tarde ajuda a pôr um sorriso na cara. Não que fosse preciso. Viver numa grande família é, só por si, “giro e divertido”, como diz Raquel. Agora é só tirar a chucha ao Francisco para o clique e… já está.