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Plano + Família
Diário de Notícias, "Carta aos empresários", João César das Neves publicado a 21/03/2011

Carta aos empresários
João César das Neves

Esta é uma carta aberta aos gestores das grandes empresas portuguesas. Começo por pedir desculpa pelo atrevimento. Os empresários estão habituados a que lhes escrevam para lhes ralhar, pretendendo ensiná-los, ou para os elogiar, querendo seduzi-los. Não presumo dar lições ou influenciar ninguém. Tenho o maior respeito por quem dirige empresas, em especial grandes, tarefa das mais difíceis e influentes. Pretendo apenas, motivado pela situação nacional, dizer uma coisa simples.

A crise tem solução, e ela passa por vós. Não passa pelo Governo, não passa pelo Orçamento, passa pelas empresas. Todas as empresas. Escrevo apenas aos gestores das grandes, não porque sejam os mais importantes, mas porque são os que ainda não ajustaram. As pequenas estão adaptadas. Muitas desapareceram, outras renasceram, todas evoluíram. Não tinham alternativa. As grandes têm e, sendo maiores, naturalmente demoram mais tempo. Pior de tudo, desconfiam da sua importância.

A vossa influência económica é menor do que vós achais e a vossa influência política é menor do que nós achamos. Mas em ambos os casos é significativa. Um dos maiores problemas nacionais é os nossos empresários não compreenderem a sua própria importância. Décadas de tutela política sob o condicionamento corporativo, seguidas de décadas de retórica esquerdista demonizadora dos capitalistas têm efeito. Parece que a culpa e o mérito de tudo é do Governo. Somos um país paternalista, que passa a vida a falar do árbitro sem chutar à baliza.

Até há 20 anos as empresas estavam obcecadas com a política. Hoje, na Europa, as coisas melhoraram, mas as forças económicas ainda têm influência diminutas no aparelho social. Somos um dos países desenvolvidos onde a opinião empresarial é menos activa e respeitada. Dela depende a solução da crise.

Mesmo na vertente financeira. O nosso problema hoje é reduzir o défice externo em cerca de nove pontos percentuais (pp) do PIB. É bom lembrar que nos dois programas anteriores do FMI, em Maio de 1978 e Outubro de 1983, foi preciso cortar 7,3 pp no primeiro e 12,0 no segundo. Mas, durante esse esforço, o contributo das contas públicas foi sempre negativo, agravando-se 1,7 pp e 1,8 pp, respectivamente. O que significa que, mesmo com o FMI, o Estado só complicou e foi o sector privado que suportou todo o trabalho, ajustando uns brutais 9,6 pp do PIB na primeira vez e 14,2 na segunda.

Agora, mesmo que o Orçamento ajude alguma coisa, a maior factura da austeridade caberá a famílias e empresas. Isso é já bem claro. Em 2010, o défice externo foi quase igual ao orçamental, significando que o sector privado está equilibrado. Só falta compensarmos aquilo que o Estado não consegue fazer. Além disso, como também se está a ver, o suposto rigor das contas públicas acaba sempre pago por nós.

Mas, como vós sabeis bem, o problema estrutural de Portugal não é financeiro. É económico. E uma das causas mais influentes dessa paralisia está no vício que o senhor Presidente da República identificou no discurso de posse: "Em vários sectores da vida nacional, com destaque para o mundo das empresas, emergiram nos últimos anos sinais de uma cultura altamente nociva, assente na criação de laços pouco transparentes de dependência com os poderes públicos, fruto, em parte, das formas de influência e de domínio que o crescimento desmesurado do peso do Estado propicia." Este é o bloqueio que, mais que tudo, imobiliza a nossa economia. Só se fala do árbitro. Aqui, como também sabem, são as grandes empresas as principais responsáveis.

Portugal já viveu crises bastante graves. Muitos de vós gerem empresas que sobreviveram a esses tempos difíceis. Em certos casos até foram os vossos avós, pais e tios que tiveram então a responsabilidade de guiar essas companhias nas tempestades. A presente borrasca é menos séria que as piores, mas tem inegável gravidade. Hoje, como então, os políticos deixam a desejar. A economia precisa de liderança, iniciativa e criatividade. Sem vós, não está cá mais ninguém para dar isso.



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