Vivam as irmandades

Pouco tempo antes de eu nascer, o meu Pai perguntou a um dos manos (que tinha na altura 5 anos) o que é que ele queria: um mano ou uma mana. O meu irmão, muito convictamente, preferiu um cãozinho. Mas acho que hoje já mudou de ideias - sobretudo quando toca às sobremesas. Porque, com irmãos, é mesmo assim: depois de o termos, não conseguimos viver sem (ou com) eles!

Isto de se ser filha de uma família numerosa é óptimo. Uma casa cheia de gente e de barulho, manos com quem brincar e discutir (só de vez em quando...), mesas de jantar que demoram um quarto de hora a pôr, festas de anos várias vezes por mês (as nossas e as dos manos); uma vida animada e divertida que nenhum filho único despreza. É que há realmente coisas que nenhum Nintendo 600, Pentium 200, ou televisão no quarto compensam...

Adoro os meus manos, todos. Entre muitos irmãos, estabelece-se uma relação especial, que alterna entre uma certa rivalidade e uma grande cumplicidade. Os mais velhos intercedem junto dos pais em favor dos mais novos, dão boleias de carro, aconselham; os mais pequeninos fazem aquelas coisas chatas, tipo ir ao pão ou às fotocópias. Existe um espírito de entre-ajuda: empresta-se roupa, dão-se explicações de matemática, arranjam-se programas giros para todos.

Claro que nem sempre é um mar de rosas. Há discussões enormes, berros, abusos de autoridade por parte dos mais velhos, birras de mimo por parte dos mais novos. Mas como, graças a Deus! os pais não têm muito tempo para fazer de árbitros nestas discussões, aprendemos a desembaraçarmo-nos e a resolver as coisas entre as partes implicadas.

Dentro de uma família cada pessoa tem a sua área de responsabilidade: a mana que cozinha, o mano "faz-tudo", o explicador de ciências, a explicadora de línguas, etc. Estes campos de actividade estão tão bem definidos que é mesmo muito difícil arranjar substitutos. Talvez por isso se desenvolvam relações diferentes com cada um. Há os manos mais sérios, os manos mais "porreiros", os manos que se mimam, os manos que nos mimam. Mas são todos imprescindíveis, mesmo quando são chatos.

Por tudo isto tenho uma certa pena dos filhos únicos. Sozinhos, nas suas grandes e aborrecidas casas, com um casalinho de pais sempre em cima do menino(a), tirar o curso que o paizinho queria tirar mas que o avô não deixou, a receber carradas de presentes que tem de abrir sem nenhum irmão ao lado, enfim: uma vida pouco invejável.

De vez em quando, geralmente depois de uma daquelas exclamações "O quê? Sete? Tantos!!" dou por mim a pensar que era impossível ter menos irmãos. Porque todos os que tenho são tão importantes e tão essenciais que não sou capaz de imaginar uma vida sem eles.

O que melhor mostra que ter muitos irmãos é mesmo bom é o facto de os filhos de famílias numerosas geralmente terem muitos filhos. Se não fosse mesmo divertida a vida de pertencer a uma grande irmandade, quem é que oferecia mais cinco ou seis manos ao precioso rebento único????

Rita Fonseca

(orgulhoso membro de uma família numerosa)

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